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Na Antártica, pesquisadores isolados a mais de 1.000 quilômetros da costa e sem voos durante o inverno enfrentam a temperatura mais baixa da Terra desde 2012

Na Antártica, pesquisadores isolados a mais de 1.000 quilômetros da costa e sem voos durante o inverno enfrentam a temperatura mais baixa da Terra desde 2012

4 min de leitura

Na Antártica, pesquisadores isolados a mais de 1.000 quilômetros da costa e sem voos durante o inverno enfrentam a temperatura mais baixa da Terra desde 2012

Escrito por Fabio Lucas Carvalho

Publicado em 01/08/2026 às 23:09

Ciência e Tecnologia

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Estação Concordia registrou -84,1 °C duas vezes em apenas nove minutos no interior da Antártida, onde pesquisadores permanecem isolados durante o inverno e usam as medições extremas para aprimorar previsões, modelos climáticos e estudos sobre os processos atmosféricos

A estação de pesquisa Concordia registrou -84,1 °C em 18 de julho, no interior da Antártida, marcando a menor temperatura medida na Terra desde 2012 em meio às ondas de calor enfrentadas por outros continentes.

Frio na Antártida chegou a -84,1 °C duas vezes

Dados da estação mostram que a temperatura caiu para -84,1 °C em dois momentos do dia 18 de julho: às 6h25 e às 6h34, no horário local.

As informações brutas foram encaminhadas pelo Instituto Polar Francês Paul-Émile Victor, responsável pela administração da Concordia em parceria com o Programa Nacional de Pesquisa Antártica da Itália.

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A estação fica no interior do continente, onde atualmente é inverno e o Sol não aparece durante meses. Nessa época do ano, as temperaturas no local caem regularmente abaixo de -80 °C.

Por isso, a nova medição não representa um fenômeno sem precedentes na Concordia. Mesmo assim, Gabriele Carugati, chefe da estação pelo programa italiano, classificou temperaturas inferiores a -84 °C como marcantes.

Segundo Carugati, o registro mostra que o tempo na Antártida ainda apresenta grande variabilidade, mesmo em uma região onde o frio extremo é esperado.

Altitude, céu limpo e ausência de luz favorecem o frio

A Concordia está instalada no Planalto Antártico, a mais de 3.200 metros de altitude e a mais de 1.000 quilômetros do litoral.

A estrutura foi construída sobre uma camada de gelo com aproximadamente 3.300 metros de espessura. Suas atividades incluem observações sísmicas, astronomia e modelagem dos climas passados da Terra.

Durante o inverno, a região permanece sem luz solar por meses. A atmosfera é extremamente seca e estável, enquanto a ausência de nuvens permite que o calor escape continuamente para o espaço sob o céu limpo.

Essa combinação de altitude, escuridão prolongada, ar seco e estabilidade atmosférica permite que as temperaturas caiam a níveis extraordinariamente baixos, conforme explicou Carugati.

Pesquisadores vivem mais isolados que astronautas

A Concordia é considerada a estação de pesquisa mais remota e extrema do mundo. Quando o inverno começa, aviões não conseguem mais chegar ao local.

A base mais próxima fica a aproximadamente 600 quilômetros. Essa distância torna as equipes tecnicamente mais isoladas que os astronautas da Estação Espacial Internacional, que orbita cerca de 400 quilômetros acima da Terra.

As condições são usadas para estudar desafios físicos, mentais e sociais semelhantes aos enfrentados por astronautas no espaço.

O único integrante da equipe que não pesquisa diretamente o ambiente é um médico biomédico da Agência Espacial Europeia. Ele acompanha os pesquisadores que vivem na estação, apelidados de “astronautas do gelo”.

Recorde terrestre permanece com estação russa

A menor temperatura já registrada pela Concordia foi de -84,7 °C, durante o inverno de 2010, segundo o Observatório Meteorológico e Climatológico Antártico da Itália.

O recorde oficial da menor temperatura medida diretamente na Terra pertence à estação russa Vostok, também localizada em uma área elevada da Antártida Oriental e próxima à Concordia.

Em julho de 1983, a estação Vostok registrou -89,2 °C, conforme dados da Organização Meteorológica Mundial.

Informações obtidas por satélites indicam que determinadas áreas da Antártida Oriental podem alcançar até -98 °C. Essa estimativa foi apresentada em um estudo publicado em 2018.

Frio extremo não contradiz aquecimento global

O registro ocorreu enquanto países da América do Norte e da Europa enfrentavam ondas de calor. A Europa Ocidental teve o junho mais quente já registrado, enquanto incêndios atingiam Canadá, Estados Unidos, França, Espanha e outros países.

Carugati explicou que as mudanças climáticas descrevem tendências globais de longo prazo, enquanto eventos meteorológicos individuais ainda podem produzir frio excepcional.

A Antártida também é influenciada por processos atmosféricos complexos. Por isso, uma temperatura extremamente baixa em um ponto específico não contradiz o quadro mais amplo de aquecimento global.

A Península Antártica apresenta o aquecimento mais rápido do continente. Um estudo publicado em fevereiro apontou que decisões atuais sobre emissões determinarão as transformações na região durante os próximos séculos.

A camada de gelo da Antártida Oriental, onde fica a Concordia, é mais estável que a da Antártida Ocidental, mas também permanece vulnerável ao aumento das temperaturas.

Em março de 2024, uma onda de calor no inverno antártico elevou a temperatura perto da Concordia para o recorde de -9,4 °C, cerca de 18 °C acima do máximo anterior registrado para março.

Agora, os pesquisadores continuam trabalhando durante o inverno. Segundo Carugati, observações extremas como a de julho ajudam a compreender processos atmosféricos, melhorar modelos climáticos, orientar previsões e acompanhar as mudanças de longo prazo.


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Fabio Lucas Carvalho.

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