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Na Índia, o enchimento de um reservatório alterou a pressão sobre falhas antigas, foi associado a um terremoto de magnitude 6,3, deixou cerca de 200 mortos e mantém a região tremendo décadas depois
Escrito por Flavia Marinho
Publicado em 10/08/2026 às 22:07
Atualizado em 10/08/2026 às 22:08
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O terremoto induzido de Koyna, na Índia, revelou como a água de um reservatório pode mudar a pressão dentro das rochas, favorecer o movimento de falhas geológicas já tensionadas e produzir tremores persistentes, ampliando os estudos sobre sismicidade induzida e segurança de barragens em diferentes partes do mundo.
Um lago artificial pode ajudar a desencadear um terremoto? Na região de Koyna, na Índia, o enchimento de um reservatório alterou a pressão exercida sobre o terreno e foi associado ao terremoto de magnitude 6,3 registrado em 10 de dezembro de 1967.
O abalo atingiu a área próxima à barragem e deixou cerca de 200 mortos. A pesquisa foi publicada pelo U.S. Geological Survey, órgão científico do governo dos Estados Unidos.
A água não criou a energia do terremoto. Essa força já estava acumulada em falhas geológicas antigas, mas o peso do reservatório e a infiltração da água podem ter alterado as condições que mantinham as rochas pressionadas.
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O terremoto de magnitude 6,3 que atingiu Koyna em 1967
O terremoto ocorreu em 10 de dezembro de 1967 perto da barragem de Koyna. Com magnitude 6,3, o evento passou a ser reconhecido como o maior terremoto induzido já registrado.
A destruição atingiu comunidades próximas e provocou cerca de 200 mortes. O desastre transformou a região em uma referência mundial para estudos sobre a possível relação entre grandes reservatórios e atividade sísmica.
Os tremores não ficaram limitados ao evento principal. A área formada por Koyna e Warna registrou abalos durante décadas, incluindo terremotos de magnitude moderada e milhares de eventos menores.
Em 2015, os registros científicos já mostravam quase 50 anos de atividade sísmica. Essa persistência tornou o caso diferente de episódios nos quais pequenos tremores aparecem apenas durante o enchimento inicial de um lago artificial.
O peso da água mudou a pressão dentro das rochas
Falhas geológicas são grandes rachaduras no interior da crosta terrestre. Em algumas delas, blocos de rocha permanecem presos enquanto acumulam energia provocada pelos movimentos naturais da Terra.
Quando um reservatório é preenchido, uma enorme quantidade de água passa a exercer peso sobre o solo. Essa carga adicional pode mudar a distribuição das forças em partes profundas do terreno.
A água também consegue entrar por fraturas e poros, que são espaços muito pequenos existentes nas rochas. A infiltração aumenta a pressão dos fluidos no subsolo e pode diminuir a força que mantém os dois lados de uma falha apertados.
Esse processo não produz energia tectônica. Ele pode apenas facilitar o movimento de uma falha que já estava tensionada e próxima de se romper antes do enchimento do reservatório.
Associação não significa que qualquer reservatório cause terremotos
A proximidade entre o reservatório e os tremores oferece uma ligação importante, mas não permite concluir que toda barragem provocará um grande abalo. Cada região possui rochas, falhas, profundidades e condições de pressão diferentes.
O U.S. Geological Survey, órgão científico do governo dos Estados Unidos, analisou a posição dos terremotos, os movimentos das falhas, as características das rochas e a velocidade das ondas sísmicas no subsolo.
Os dados ajudaram a construir um modelo no qual Koyna e Warna ficam entre falhas profundas com movimentos laterais. A forma como essas estruturas se encontram pode criar uma área mais frágil, capaz de concentrar tensão.
Grandes terremotos induzidos são raros porque dependem de uma combinação específica. Além da mudança provocada pela atividade humana, o local precisa ter uma falha extensa, antiga e próxima do limite de ruptura.
Tremores persistentes transformaram a região em laboratório natural
A longa sequência de terremotos permite estudar como o nível do reservatório, a infiltração da água e a pressão dentro das rochas podem se relacionar. Poucos lugares apresentam um histórico tão duradouro de sismicidade induzida por reservatório.
Pesquisadores realizam monitoramento constante e perfurações profundas na região. Os equipamentos registram pequenos tremores, enquanto os poços permitem investigar as condições das rochas próximas das áreas onde as rupturas acontecem.
As perfurações ajudam a observar fatores como pressão, temperatura, presença de água e resistência das rochas. Essas informações aproximam os cientistas das falhas sem depender apenas de medições feitas na superfície.
Koyna funciona como um laboratório natural porque reúne um grande reservatório, falhas geológicas conhecidas e décadas de registros. Essa combinação ajuda a entender por que algumas intervenções humanas geram tremores pequenos e outras podem favorecer eventos muito mais fortes.
Segurança de barragens começa pelo conhecimento do subsolo
O estudo de uma barragem não pode terminar na estrutura de concreto. Também é necessário conhecer o terreno que sustenta a obra, principalmente quando existem falhas geológicas próximas do reservatório.
Antes do enchimento, pesquisas geológicas podem identificar áreas frágeis e estruturas antigas. Durante a operação, o acompanhamento dos níveis da água e dos tremores permite reconhecer mudanças no comportamento do subsolo.
Registrar terremotos perto de uma barragem não significa que a estrutura esteja prestes a romper. O risco sísmico e a resistência da construção são questões diferentes, embora precisem ser analisadas em conjunto.
A experiência de Koyna mostra que água, rochas e falhas fazem parte do mesmo sistema. Mudanças no reservatório podem produzir respostas no terreno quando as condições geológicas favorecem esse processo.
As lições também servem para mineração, geotermia e injeção subterrânea
A mineração modifica o peso sobre o terreno ao retirar grandes volumes de material. Projetos de geotermia movimentam fluidos para aproveitar o calor do interior da Terra, enquanto a injeção subterrânea coloca líquidos em camadas profundas.
Essas atividades podem alterar a pressão existente dentro das rochas. Quando uma falha já está sob grande tensão, uma mudança relativamente pequena pode facilitar o movimento e liberar energia acumulada.
O caso de Koyna não deve ser usado para espalhar medo sobre todas as barragens. Ele mostra que grandes obras precisam considerar não apenas aquilo que aparece na superfície, mas também as estruturas escondidas no subsolo.
O terremoto de magnitude 6,3, as cerca de 200 mortes e os tremores persistentes deixaram uma lição duradoura: um reservatório não cria a força tectônica, mas pode modificar o equilíbrio de uma região que já estava tensionada.
Se a água pode alterar uma falha já próxima de se romper, por quanto tempo grandes reservatórios deveriam ser monitorados depois do enchimento? Deixe sua opinião nos comentários.
Fonte
U.S. Geological Survey
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Flavia Marinho.

