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Na posse do filho como juiz do Tribunal de Justiça de Mato Grosso, dona Selma, faxineira por 30 anos numa secretaria de educação, disse que só imaginava conhecer um tribunal pela televisão e que agora via o filho chegar ali depois de varrer muito chão

Na posse do filho como juiz do Tribunal de Justiça de Mato Grosso, dona Selma, faxineira por 30 anos numa secretaria de educação, disse que só imaginava conhecer um tribunal pela televisão e que agora via o filho chegar ali depois de varrer muito chão

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Na posse do filho como juiz do Tribunal de Justiça de Mato Grosso, dona Selma, faxineira por 30 anos numa secretaria de educação, disse que só imaginava conhecer um tribunal pela televisão e que agora via o filho chegar ali depois de varrer muito chão

Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges

Publicado em 05/08/2026 às 14:12

Atualizado em 05/08/2026 às 14:13

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Faxineira por 30 anos na Bahia viu o filho tomar posse como juiz em Mato Grosso e disse que só imaginava conhecer um tribunal pela televisão.

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Selma Gonçalves de Almeida sustentou a casa com um salário mínimo em Crisópolis, no interior baiano, e ficou mais de uma década desempregada após uma demissão em massa na prefeitura. Foi nesse período que o filho, Magno Batista da Silva, decidiu seguir a carreira jurídica.

Selma Gonçalves de Almeida trabalhou 30 anos como faxineira na Secretaria de Educação de Crisópolis, no interior da Bahia, e acompanhou em 21 de janeiro a posse do filho, Magno Batista da Silva, como juiz substituto do Tribunal de Justiça de Mato Grosso, conforme material publicado pelo próprio tribunal.

Ela conciliava as jornadas de trabalho com o cuidado da família e sustentava a casa com um salário mínimo, atravessando períodos de extrema dificuldade. A prioridade que ela estabeleceu nesse cenário foi uma só: podia faltar qualquer coisa em casa, menos os livros dos filhos em dia.

Os livros que nunca podiam faltar

Magno Batista da Silva

A regra que organizava o orçamento da casa era clara e não admitia exceção. Com renda de um salário mínimo, cada gasto precisava ser decidido, e a escolha dela recaía sempre no mesmo item.

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Ela conta que os estudos dos filhos sempre foram prioridade, e que qualquer outra coisa podia faltar antes que faltasse material escolar.

Essa decisão tem peso maior do que parece à primeira vista. Em orçamento apertado, priorizar livro significa cortar em outro lugar, e o outro lugar costuma ser comida, roupa ou remédio, escolhas que precisavam ser feitas mês após mês.

A demissão em massa que mudou tudo

O episódio que definiu a trajetória da família aconteceu quando Magno ainda era criança. Uma demissão em massa na prefeitura do município, motivada por questões políticas, deixou a mãe desempregada por mais de uma década.

Foram anos de instabilidade, insegurança financeira e incerteza. A família precisou se reinventar para sobreviver, sem a única renda formal que tinha.

Mais de dez anos é tempo suficiente para atravessar toda a adolescência de um filho. Magno cresceu vendo a mãe fora do emprego que exercia havia décadas, por um motivo que não tinha relação com desempenho ou capacidade dela.

A injustiça conhecida na pele

Foi nesse contexto que se formou o primeiro contato do magistrado com a realidade da Justiça. Não como conceito abstrato aprendido em sala de aula, mas como experiência concreta de ausência, demora e desigualdade.

Ele afirma conhecer a injustiça na pele, ao lembrar do período em que a mãe ficou afastada do serviço público e a casa teve que se reorganizar para continuar de pé.

Essa vivência é o que ele aponta como determinante para a escolha da carreira. Não foi vocação abstrata nem estabilidade de concurso que o levaram ao Direito, e sim a experiência de estar do lado de quem espera por uma resposta que demora.

O dinheiro que ia do interior para Salvador

Durante a preparação para os concursos, Magno passou a morar em Salvador, enquanto a mãe permanecia no interior baiano.

De lá, ela enviava parte do que ganhava para ajudar nas despesas do filho na capital. A renda familiar era dividida com rigor, e a solidariedade entre mãe e filhos foi o que sustentou os anos mais difíceis.

Manter um estudante em capital é o obstáculo que trava boa parte de quem tenta esse caminho. Aluguel, alimentação e material consomem a maior parte de uma renda modesta, e sem esse envio mensal o percurso dele simplesmente não existiria.

O tribunal que ela achava que só veria na televisão

imagem: redes socais/ instagram

A frase que ela usou para descrever o momento da posse resume a distância percorrida pela família em uma geração.

Ela afirma que sempre achou que lugares como aquele só poderia conhecer pela televisão, e que estava ali, dentro de um tribunal, vendo o filho se tornar juiz depois de ela mesma ter varrido muito chão.

Questionada sobre o custo de tudo aquilo, a resposta foi direta. Se fosse para fazer tudo de novo, ela faria, sem questionar o esforço de três décadas de trabalho e mais de dez anos de desemprego pelo meio.

O que ele pretende levar para a cadeira

video: redes sociais

A forma como o magistrado pretende exercer a função tem relação direta com o que viveu antes de chegar até ela.

Ele aponta três eixos para a atuação: sensibilidade, responsabilidade social e compromisso com o justo. São formulações que aparecem com frequência em discursos de posse, mas que no caso dele têm origem identificável.

Quem esperou anos por uma resposta institucional sabe o peso que o tempo tem para quem está do outro lado do processo. A demora, que para o Judiciário é estatística, para a família dele foi mais de uma década sem renda, e é essa memória que ele diz levar para a função.

Uma cerimônia com 35 nomes e muitas histórias parecidas

A posse aconteceu no Plenário 1 Desembargador Wandyr Clait Duarte, sob condução do presidente do tribunal, desembargador José Zuquim, e empossou 35 novos juízes e juízas substitutos de uma só vez.

O auditório estava tomado por familiares que acompanharam por anos a preparação dos aprovados, em trajetórias que envolveram estudo intenso, renúncias pessoais e apoio construído dentro de casa.

A entrada de 35 magistrados amplia a capacidade de atendimento do Judiciário estadual. Cada um desses nomes chega acompanhado de uma história de anos de preparação, e a de Magno começou com uma faxineira decidindo que livro não podia faltar.

De varrer chão a vestir a toga

O percurso dessa família cobre praticamente uma vida inteira. Trinta anos de trabalho na limpeza de uma secretaria de educação, mais de dez anos de desemprego forçado e um filho estudando na capital com dinheiro enviado do interior.

O resultado não foi um golpe de sorte nem um talento isolado. Foi uma sequência longa de decisões pequenas e caras: manter livro em dia quando faltava outra coisa, dividir renda mínima entre duas cidades e sustentar um projeto que levaria anos até dar retorno.

E você, conhece alguém que atravessou anos de estudo com a família inteira sustentando o projeto junto? Acha que aprovação em concurso desse porte é conquista individual ou coletiva? Conta nos comentários quem segurou a barra por você quando precisou.


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Maria Heloisa Barbosa Borges.

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