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Nascida em aldeia tupiniquim no Espírito Santo, jovem de 18 anos estudou a vida inteira na rede pública, enfrentou o ensino remoto na pandemia, buscou aulas no YouTube para completar os estudos e venceu mais de 100 candidatos para conquistar a única vaga indígena em Medicina na UFSCar
Escrito por Geovane Souza
Publicado em 12/08/2026 às 15:45
Atualizado em 12/08/2026 às 15:46
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Criada na aldeia Caieiras Velhas, em Aracruz, Júlia Martins da Conceição chegou aos 18 anos a uma das graduações mais disputadas do país após estudar exclusivamente na rede pública. Em 2021, a jovem tupiniquim conquistou a única vaga destinada a indígenas no curso de Medicina da UFSCar, em uma seleção que reuniu mais de 100 concorrentes.
Nascida e criada na aldeia Caieiras Velhas, em Aracruz, no Espírito Santo, Júlia Martins da Conceição tinha 18 anos quando recebeu, em 2021, a notícia que mudaria sua rotina. A estudante da etnia tupiniquim havia sido aprovada para cursar Medicina na Universidade Federal de São Carlos, a UFSCar, no interior paulista.
O resultado ganhou peso pelo caminho percorrido até a universidade. Júlia estudou durante toda a educação básica em escolas públicas, passou parte da formação dentro da própria aldeia e terminou o ensino médio durante a pandemia de Covid-19, quando as aulas presenciais foram interrompidas e estudantes de todo o país tiveram de se adaptar ao ensino remoto.
Quando o conteúdo disponível não era suficiente, a jovem procurava outras explicações na internet. A estratégia incluía uma plataforma de estudos e videoaulas gratuitas no YouTube, usadas para preencher lacunas e revisar assuntos que poderiam aparecer na seleção.
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A disputa também estava longe de ser simbólica. De acordo com reportagem publicada pelo UOL em 27 de agosto de 2021, Júlia concorreu com mais de 100 pessoas pela única vaga indígena disponível para Medicina naquele processo seletivo da UFSCar.
A primeira parte da formação aconteceu dentro da própria aldeia
Até concluir o ensino fundamental, Júlia frequentou a Escola Municipal de Ensino Fundamental Indígena Caieiras Velhas, localizada na comunidade onde cresceu. Foi nesse ambiente que começou uma trajetória escolar que ela própria descreveu de forma positiva, contrariando a ideia de que a passagem pela rede pública seria necessariamente uma desvantagem.
A curiosidade aparecia desde muito cedo. Segundo o relato da estudante, ainda na creche ela insistia para que uma das irmãs lesse para ela e a ensinasse a ler. Mais tarde, na sala de aula, criou o hábito de perguntar quando não entendia algum assunto e de pesquisar por conta própria aquilo que despertava seu interesse.
A cobrança dentro de casa também fazia parte da rotina. Júlia cresceu com três irmãos mais velhos e contou que a mãe acompanhava as notas dos filhos de perto, inclusive quando o resultado era apenas mediano e havia possibilidade de melhorar.
Para fazer o ensino médio, ela precisou deixar a escola da aldeia
Quando Júlia terminou o ensino fundamental, a aldeia Caieiras Velhas ainda não oferecia a etapa seguinte da educação básica. Por isso, ela passou a estudar no Centro Estadual de Ensino Médio em Tempo Integral Monsenhor Guilherme Schmitz, também no município de Aracruz.
A mudança colocou a estudante em uma escola de tempo integral e aproximou o desejo de seguir uma carreira na saúde de uma decisão concreta. Entre as atividades desenvolvidas estavam as aulas de Projeto de Vida, nas quais estudantes discutiam objetivos acadêmicos e profissionais com apoio dos professores.
Foi durante essa etapa que Medicina deixou de ser apenas uma possibilidade distante. Os professores passaram a ajudá-la a organizar os planos para depois do ensino médio e a pensar de maneira mais objetiva no curso que pretendia disputar.
A pandemia levou parte da preparação para dentro de casa e para o YouTube
Júlia concluiu o ensino médio em dezembro de 2020, depois de atravessar meses de aulas afetadas pela pandemia. A mudança repentina do ensino presencial para atividades remotas exigiu uma nova forma de estudar justamente no período em que ela se preparava para tentar uma vaga na universidade.
Em casa, assinou uma plataforma online para complementar a preparação. Quando percebia que determinado assunto não estava suficientemente explicado, buscava outra aula no YouTube, combinando o material da escola com conteúdos encontrados por iniciativa própria.
A estratégia não dependia de uma única fonte de estudo. Ela já tinha o hábito de pesquisar assuntos no Google quando surgiam dúvidas e passou a aplicar a mesma lógica aos conteúdos cobrados no processo seletivo.
Esse comportamento acompanhava uma característica presente desde os primeiros anos escolares. Em vez de deixar uma dúvida acumular, Júlia procurava outra explicação, perguntava aos professores ou buscava material adicional até compreender o assunto.
A vaga em Medicina fazia parte de uma seleção específica para indígenas
A entrada de Júlia não ocorreu simplesmente pela disputa convencional do curso de Medicina. A UFSCar mantinha um processo seletivo específico para candidatos indígenas, separado do ingresso regular, com vaga adicional destinada a esse público.
Documentos oficiais confirmam que, em 9 de fevereiro de 2021, o Conselho de Graduação da universidade aprovou a Resolução CoG nº 348, responsável por regulamentar a seleção de candidatos indígenas para ingresso naquele ano nos cursos presenciais da instituição.
A política é anterior à aprovação de Júlia. Um relatório institucional sobre os primeiros dez anos do Programa de Ações Afirmativas da UFSCar registra que o modelo previa uma vaga anual adicional em cada opção de curso de graduação exclusivamente para candidato indígena aprovado no processo seletivo correspondente. O vestibular específico começou a ser aplicado a partir de 2008.
Isso ajuda a dimensionar o resultado obtido pela jovem capixaba. Embora existisse uma vaga reservada especificamente para candidatos indígenas em Medicina, todos os interessados habilitados para aquele curso disputavam o mesmo lugar. No caso relatado por Júlia, eram mais de uma centena de concorrentes.
A vontade de trabalhar na saúde começou com as histórias ouvidas dentro de casa
A escolha de Medicina também tinha ligação direta com a família. A mãe de Júlia trabalhava como técnica de enfermagem, e as histórias trazidas do hospital chamavam a atenção da filha ainda antes da definição profissional feita no ensino médio.
O contato indireto com o cotidiano da saúde foi se juntando ao interesse pelos estudos. Mais tarde, os professores ajudaram Júlia a transformar essa curiosidade em um projeto de ingresso no ensino superior, com Medicina ocupando o centro dos planos.
A aprovação significou ainda uma mudança de estado. Da aldeia localizada em Aracruz, no litoral norte do Espírito Santo, a estudante teria pela frente uma graduação em São Carlos, no interior de São Paulo, a centenas de quilômetros do lugar onde passou praticamente toda a vida escolar.
Uma vaga entre mais de 100 concorrentes colocou as ações afirmativas no centro da história
Depois da aprovação, Júlia também chamou atenção para a quantidade de oportunidades disponíveis a estudantes indígenas nas universidades. Para ela, o fato de mais de 100 candidatos disputarem uma única vaga em Medicina mostrava que a existência da política de ingresso não eliminava a competição nem tornava o caminho simples.
A estrutura criada pela UFSCar permaneceu como parte das políticas institucionais nos anos seguintes. No Plano de Desenvolvimento Institucional 2024-2028, a universidade registra que mantém processo seletivo específico para estudantes de comunidades indígenas e descreve a criação de uma vaga adicional em cada curso de graduação dentro de seu Programa de Ações Afirmativas.
A história de Júlia reúne, portanto, elementos que normalmente aparecem separados nas discussões sobre acesso à universidade. Ela veio de uma escola indígena, passou pelo ensino médio público, enfrentou o período de aulas remotas da pandemia, complementou a preparação com recursos disponíveis na internet e precisou superar uma concorrência superior a 100 candidatos para chegar a Medicina.
A aprovação aconteceu quando ela tinha apenas 18 anos e havia acabado de sair do ensino médio. Da aldeia Caieiras Velhas para uma universidade federal no interior de São Paulo, o resultado transformou anos de escola pública, pesquisa por conta própria e preparação durante a pandemia em uma vaga em um dos cursos mais disputados do ensino superior brasileiro.
O que você achou da trajetória de Júlia e da disputa de mais de 100 candidatos por uma única vaga indígena em Medicina? Deixe sua opinião nos comentários e conte se histórias como essa podem incentivar outros estudantes da rede pública a tentar uma universidade federal.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Geovane Souza.

