Ícone do site Portal Estado do Acre Notícias

Nascido numa aldeia de apenas 89 pessoas às margens do rio Pará, jovem foi reprovado várias vezes no vestibular, carrega o sobrenome da própria etnia e viu na Medicina um ato de resistência e aos 30 anos subiu ao palco de cocar e maracá para virar o primeiro médico Kaxixó formado pela UFMG

Nascido numa aldeia de apenas 89 pessoas às margens do rio Pará, jovem foi reprovado várias vezes no vestibular, carrega o sobrenome da própria etnia e viu na Medicina um ato de resistência e aos 30 anos subiu ao palco de cocar e maracá para virar o primeiro médico Kaxixó formado pela UFMG

7 min de leitura

Nascido numa aldeia de apenas 89 pessoas às margens do rio Pará, jovem foi reprovado várias vezes no vestibular, carrega o sobrenome da própria etnia e viu na Medicina um ato de resistência e aos 30 anos subiu ao palco de cocar e maracá para virar o primeiro médico Kaxixó formado pela UFMG

Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges

Publicado em 07/08/2026 às 20:33

Atualizado em 07/08/2026 às 20:34

Curiosidades

Canal

Jovem de aldeia com 89 pessoas vira o primeiro médico Kaxixó formado pela UFMG e pega o diploma de cocar e maracá: “Que eu não seja o único”.

Seja o primeiro a reagir!

Prefira o CPG no Google

Otávio Kaxixó cresceu em Capão do Zezinho, aldeia de cerca de 89 indígenas na margem esquerda do rio Pará, em Martinho Campos, Minas Gerais. O jovem passou por várias reprovações no vestibular antes de entrar na UFMG em 2019 e concluiu o curso seis anos depois.

Aos 30 anos, o jovem Otávio Kaxixó se tornou o primeiro indígena Kaxixó a se formar em Medicina pela Universidade Federal de Minas Gerais, a UFMG, conforme reportagem publicada pelo site Só Notícia Boa em 26 de dezembro de 2024. Ele nasceu e cresceu na aldeia Capão do Zezinho, comunidade com aproximadamente 89 indígenas aldeados, na margem esquerda do rio Pará, em Martinho Campos, no centro-oeste mineiro.

A cena da formatura resume o percurso. Chamado ao palco para receber o diploma, Otávio subiu com um cocar na cabeça e um maracá na mão esquerda, ergueu o instrumento e gritou uma frase de duas palavras: “É nosso!”. A plateia aplaudiu de pé. Na aldeia, a comemoração repetiu a de 2019, quando a aprovação no vestibular já havia sido tratada como conquista de todos, não de um só.

A aldeia de 89 pessoas às margens do rio Pará

Jovem de aldeia com 89 pessoas vira o primeiro médico Kaxixó formado pela UFMG e pega o diploma de cocar e maracá: “Que eu não seja o único”.

imagem: otaviokaxixo

Capão do Zezinho não é uma comunidade grande. São cerca de 89 indígenas aldeados, número pequeno o bastante para que praticamente todo mundo saiba quem entrou na faculdade, quem está estudando e quem voltou para casa. Fica na margem esquerda do rio Pará, em Martinho Campos, e é desse endereço que sai a história do primeiro médico Kaxixó formado pela UFMG.

ARTIGO CONTINUA ABAIXO

Veja também

O tamanho da aldeia ajuda a entender por que a aprovação e a formatura foram vividas como vitória coletiva. Em uma comunidade de 89 pessoas, um único diploma de Medicina muda a estatística inteira do lugar. Antes de Otávio, não havia nenhum médico Kaxixó formado pela universidade federal mineira. Depois dele, passou a haver um, e com ele um caminho comprovadamente possível. É a diferença entre um sonho abstrato e um exemplo com nome, rosto e endereço conhecido por todos ali.

As reprovações antes da aprovação de 2019

imagem: otaviokaxixo

O caminho até a vaga não foi curto nem linear. O jovem sonhava com Medicina desde cedo, mas o vestibular devolveu reprovação atrás de reprovação. Não foi uma tentativa frustrada isolada, foram várias, o tipo de sequência que costuma empurrar candidatos para outro curso, outro plano, outra vida.

Otávio chegou perto de fazer isso. Ele mesmo conta que pensou em desistir mais de uma vez, e não por falta de vontade. Além da disputa por uma das vagas mais concorridas do país, havia os desafios que um indígena enfrenta no Brasil todos os dias, uma camada extra de obstáculo que não aparece no boletim de notas nem na nota de corte. Por um período, a impressão dele era simples e desanimadora: a Medicina não ia acontecer.

Aconteceu em 2019. Depois de anos de dedicação e de tentativas malsucedidas, veio a aprovação. A notícia não ficou restrita a ele. A aldeia inteira vibrou, e o resultado foi lido ali como vitória de todos, não como conquista individual de um estudante que passou no vestibular.

Ocupar uma cadeira e chamar isso de resistência

imagem:otaviokaxixo

Já no último ano do curso, Otávio publicou uma reflexão sobre o que significava estar naquele lugar. O raciocínio dele não era sobre nota, currículo ou mercado de trabalho. Era sobre presença: estar dentro do curso apontado como o mais elitizado da universidade não se resumia a ocupar uma cadeira, era sinônimo de resistência.

O ponto que ele fez em seguida vai na mesma direção. Estar ali servia para provar ao mundo que a origem de alguém não determina o que essa pessoa pode conquistar, e que o acesso à universidade também é direito seu. A palavra que ele usou para descrever a própria matrícula não foi conquista nem sorte, foi direito. É uma distinção com peso: conquista se comemora e se esquece, direito se cobra e se estende aos que vêm depois.

Essa leitura reaparece em outra frase publicada por ele no Instagram, curta e sem margem para interpretação: “Nunca mais uma medicina sem nós”. A formulação coloca o diploma dentro de um projeto maior, que não termina na formatura de um estudante nem na história de uma aldeia de 89 pessoas.

Seis anos de curso e o internato no Xingu

Durante os seis anos de graduação, Otávio não deixou a própria origem do lado de fora da sala de aula. Ao entrar no curso, já sabia que queria fazer um internato em território indígena, e conseguiu. O estágio aconteceu no Parque Indígena do Xingu, atendendo população indígena.

A experiência, na descrição dele, foi intensa, e por um motivo específico. Ser indígena e integrar uma equipe não indígena que atende indígenas colocou o jovem médico em uma posição dupla dentro do próprio atendimento. Ele avalia que a vivência refinou seu cuidado no trato com a saúde dos povos tradicionais, algo que nenhuma disciplina teórica entrega pronta. A experiência de campo não foi um complemento do currículo, foi a parte que deu sentido ao resto.

Vale medir a distância percorrida. A criança que cresceu em uma aldeia de 89 pessoas em Martinho Campos terminou o curso atendendo em um dos territórios indígenas mais conhecidos do Brasil, na condição de estudante de Medicina de uma universidade federal. Entre um ponto e outro, houve reprovações no vestibular, uma aprovação em 2019 e seis anos de faculdade.

Cocar, maracá e o grito no palco

A colação de grau podia ser apenas protocolar. Não foi. Quando chamaram seu nome para receber o diploma, Otávio subiu ao palco com um cocar na cabeça e um maracá na mão esquerda, dois elementos que não costumam aparecer em cerimônia de formatura de Medicina.

Ele ergueu o maracá e gritou “É nosso!”. A plateia respondeu com aplauso de pé. O plural na frase é o detalhe que explica a cena inteira: o diploma estava na mão de uma pessoa, mas o pronome escolhido para descrevê-lo foi coletivo. Na aldeia, a comemoração foi a mesma vivida cinco anos antes, quando a aprovação chegou.

A escolha dos objetos também comunica. Cocar e maracá não são adereços decorativos, são marcadores de pertencimento levados de propósito para um espaço historicamente fechado a quem vem de onde ele veio. Em vez de deixar a identidade na porta para entrar no ambiente formal, o jovem médico entrou com ela erguida acima da cabeça, diante de todos os presentes.

“Que eu não seja o único”

video:povo_kaxixo

O desejo declarado por Otávio depois da formatura não é sobre carreira própria. É sobre sucessão. Ele quer se tornar referência e abrir portas para outros indígenas, e resumiu isso em uma frase que fecha a história e a deixa em aberto ao mesmo tempo: que ele não seja o único, e sim a referência de continuidade.

O recado tem um destinatário claro. Ser o primeiro só vira conquista real quando deixa de ser exceção, e é exatamente esse o cálculo que ele faz em voz alta. O primeiro médico Kaxixó formado pela UFMG está mais interessado no segundo, no terceiro e no décimo do que no próprio pioneirismo, porque é a repetição que transforma um caso isolado em caminho conhecido.

Para uma aldeia de 89 pessoas, isso tem efeito prático. Jovens que antes só ouviam falar de Medicina como possibilidade distante agora têm alguém da própria comunidade que passou pelo vestibular, aguentou as reprovações, entrou em 2019, atravessou seis anos de curso, estagiou no Xingu e voltou ao palco de cocar e maracá para pegar o diploma. O trajeto deixou de ser hipótese.

O que essa história deixa

Otávio Kaxixó não construiu apenas uma trajetória pessoal bem-sucedida. Construiu um precedente. O nome dele passa a ser a resposta pronta para quem duvida que um jovem indígena nascido em uma aldeia de 89 pessoas no interior de Minas possa se formar em Medicina em uma universidade federal.

O que ele pede agora é que essa resposta não precise ser sempre a mesma. A frase escolhida para encerrar o ciclo não celebra o feito isolado, cobra continuidade. Um médico Kaxixó formado pela UFMG é notícia. Vários, com o tempo, deixariam de ser, e é justamente isso que ele quer.

E você, o que acha que pesa mais para que histórias como a dele se repitam: política de acesso e permanência nas universidades, apoio dentro das próprias comunidades ou o exemplo de quem chegou primeiro? Conta nos comentários se você conhece alguém que abriu esse tipo de caminho onde você mora.


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Maria Heloisa Barbosa Borges.

Sair da versão mobile