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Navio cargueiro volta a depender do vento para cruzar o Atlântico: trimarã de 67 metros transportará até 410 toneladas, fará viagens comerciais em cerca de duas semanas e pode cortar emissões em até 99% contra o transporte aéreo e 90% contra o frete marítimo convencional
Escrito por Valdemar Medeiros
Publicado em 15/08/2026 às 16:33
Atualizado em 15/08/2026 às 16:37
Indústria Naval
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Novo trimarã cargueiro da francesa VELA terá 67 metros, capacidade para 600 pallets e até 410 toneladas, propulsão exclusivamente a vela durante a navegação oceânica e rota comercial entre Europa e Estados Unidos em menos de 15 dias, com início previsto para 2027.
Uma tecnologia associada aos primeiros séculos da navegação comercial está voltando ao transporte internacional com engenharia completamente diferente. A francesa VELA prepara um trimarã cargueiro de 67 metros de comprimento e 25 metros de largura, projetado para transportar aproximadamente 410 toneladas de mercadorias ou 600 pallets europeus entre Europa e Estados Unidos usando o vento como única fonte de propulsão durante a navegação em mar aberto. Segundo a própria VELA, a velocidade média prevista para a travessia transatlântica é de 14 nós.
O projeto deixou de ser apenas conceito. Em junho de 2026, DHL Global Forwarding France e VELA anunciaram formalmente uma parceria estratégica para inserir os veleiros cargueiros na cadeia logística internacional.
A operação comercial está prevista para começar no início de 2027, inicialmente no eixo Europa-Estados Unidos, com tempo port-to-port alvo inferior a 15 dias. Em plena implantação, a companhia pretende operar cinco embarcações e chegar a uma saída transatlântica por semana.
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Trimarã de 67 metros foi projetado especificamente para transportar carga
O novo navio não é um veleiro convencional adaptado para receber mercadorias. Segundo as especificações oficiais da VELA, trata-se de um trimarã de alumínio desenvolvido especificamente para transporte comercial, com 67 metros de comprimento, 25 metros de largura e 61 metros de altura máxima acima da linha d’água.
A configuração de três cascos foi escolhida para combinar estabilidade, velocidade e espaço interno de carga.
A fabricante naval Austal, responsável pelo projeto e construção da primeira unidade em seu estaleiro de Cebu, nas Filipinas, afirma que a arquitetura trimarã permite maior área de carga, melhor comportamento em alto-mar e calado relativamente reduzido.
Capacidade chega a 600 pallets e aproximadamente 410 toneladas
A página técnica atual da VELA informa capacidade para 600 pallets e aproximadamente 410 toneladas de mercadorias por viagem.
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Não é uma capacidade comparável à de um grande porta-contêiner moderno, capaz de transportar milhares de contêineres.
A proposta comercial é diferente: atuar principalmente no transporte de cargas de maior valor agregado e sensíveis ao tempo, ocupando um espaço intermediário entre o frete aéreo rápido e caro e o transporte marítimo convencional de grande escala.
Segundo o comunicado conjunto de DHL Global Forwarding France e VELA, os setores prioritários incluem indústria farmacêutica, cosméticos, produtos de luxo, aeronáutica, vinhos, destilados e outras mercadorias de alto valor que exigem segurança, rastreabilidade e controle de qualidade durante a travessia.
Navio utilizará apenas as velas para propulsão durante a travessia oceânica
A diferença central está no sistema de propulsão. Segundo a VELA, quando estiver no mar, o trimarã navegará exclusivamente a vela, utilizando o vento no lugar dos grandes motores movidos a combustíveis fósseis que impulsionam a maior parte da frota comercial mundial.
A embarcação terá aproximadamente 1.552 m² de área vélica, segundo a ficha técnica atual da empresa. A tecnologia de navegação deriva parcialmente da experiência acumulada em competições oceânicas, e o sistema de velas foi desenvolvido com participação da MerConcept, enquanto o conceito naval tem participação da francesa VPLP.
A Austal confirma que a embarcação está sendo construída em alumínio e foi concebida tendo as velas como propulsão principal.
A empresa australiana classificou o projeto como um cargueiro trimarã de primeira classe desenvolvido para transportar produtos de alto valor através do Atlântico utilizando energia eólica.
Motores serão usados nos portos, mas energia renovável também será produzida a bordo
O comunicado da VELA esclarece que durante a navegação em mar aberto o trimarã utiliza somente as velas, mas as manobras portuárias precisam respeitar regras locais e podem exigir motores auxiliares.
Nessas operações, a empresa prevê motores alimentados prioritariamente por eletricidade armazenada em baterias.
O sistema energético de bordo também utiliza painéis solares e dois hidrogeneradores, que aproveitam o movimento da embarcação na água para produzir eletricidade. Diesel marítimo poderá ser utilizado de forma complementar em determinadas manobras portuárias.
A ficha técnica da VELA registra cerca de 240 m² de painéis solares e dois hidrogeneradores. A eletricidade produzida não atende apenas os sistemas de navegação e a vida a bordo, mas também é importante para manter a cadeia de frio das cargas sensíveis transportadas no navio.
Travessia entre Europa e Estados Unidos terá meta inferior a 15 dias
A operação não pretende competir diretamente com aviões em velocidade, mas reduzir a enorme diferença de tempo entre o transporte aéreo e algumas rotas marítimas convencionais. A meta oficial da VELA e da DHL é realizar a ligação port-to-port em menos de 15 dias.
O primeiro corredor comercial deverá conectar Europa e Estados Unidos. O comunicado conjunto cita especificamente Caen-Ouistreham, na França, e New Haven, em Connecticut, como portos estratégicos para a operação.
A utilização de terminais secundários também pretende reduzir congestionamentos e etapas intermediárias presentes nas rotas dos grandes hubs internacionais.
A velocidade média projetada é de 14 nós, aproximadamente 26 km/h, durante a travessia transatlântica. Diferentemente de um navio convencional que busca predominantemente a rota geográfica mais direta, veleiros precisam incorporar condições de vento e meteorologia ao planejamento de navegação.
DHL reservará espaço para cargas dentro dos novos veleiros
A entrada da DHL é um dos elementos que transformam o projeto em uma pauta logística e não apenas experimental.
Segundo o comunicado divulgado em 22 de junho de 2026, a DHL Global Forwarding France reservará parte da capacidade dos navios da VELA para cargas de clientes.
Os compromissos de volume deverão aumentar conforme a frota crescer. Em vez de o cliente contratar separadamente o veleiro e organizar as outras etapas, as empresas pretendem oferecer uma solução integrada envolvendo coleta, transporte terrestre, procedimentos alfandegários, transporte marítimo e entrega no destino.
A própria VELA apresenta a parceria como uma oferta end-to-end, na qual sua tecnologia naval é combinada com a estrutura logística internacional da DHL Global Forwarding. Isso permite inserir o transporte eólico dentro de cadeias já utilizadas por empresas industriais e farmacêuticas.
Sete compartimentos terão temperatura controlada para medicamentos e outras cargas
O navio foi projetado especialmente para produtos que não podem simplesmente permanecer em um compartimento comum durante duas semanas no oceano. Segundo a VELA, serão sete porões com temperatura controlada.
Dois compartimentos refrigerados trabalharão na faixa de 2°C a 8°C, destinada principalmente a medicamentos e produtos altamente sensíveis. Outros cinco serão mantidos entre 15°C e 25°C para mercadorias que exigem ambiente controlado, mas não refrigeração intensa.
A tecnologia recebeu o nome CoolSafe by VELA. A empresa afirma que a eletricidade necessária à refrigeração será produzida a bordo por seu sistema renovável, reduzindo a dependência de combustível fóssil também na manutenção térmica das mercadorias.
Casco de alumínio de 66,8 metros está sendo construído nas Filipinas
A construção naval foi contratada junto à Austal, grupo australiano especializado em embarcações de alumínio e multicascos.
O contrato anunciado em julho de 2024 colocou a primeira unidade na linha de produção do estaleiro de Balamban, em Cebu, nas Filipinas.
A Austal especifica o navio com comprimento de 66,8 metros, arredondado comercialmente pela VELA para 67 metros. O contrato inicial foi avaliado pela construtora na faixa de 40 milhões a 45 milhões de dólares australianos, embora o preço exato permaneça confidencial.
A construtora informou posteriormente que o cargueiro continua em desenvolvimento para lançamento em 2026. Já o plano comercial atualizado da VELA e da DHL prevê início das operações regulares a partir do começo de 2027.
Meta é chegar a cinco navios e uma saída por semana
Uma única embarcação teria impacto reduzido sobre o fluxo transatlântico. O modelo comercial depende justamente da expansão da frota. Segundo o anúncio da parceria, a VELA pretende chegar progressivamente a cinco navios.
Com essa estrutura, a meta é oferecer até uma saída por semana no corredor entre Europa e América do Norte. A página comercial da companhia indica capacidade planejada de aproximadamente 30 mil pallets por ano em cada sentido quando a frota estiver plenamente implantada.
Isso mantém a operação muito menor que as grandes linhas de contêineres, mas cria um nicho comercial específico. O objetivo é atender embarcadores que precisam de maior velocidade e controle do que o frete marítimo tradicional consegue oferecer, mas desejam evitar o impacto climático e o custo associado ao transporte aéreo.
Vento volta à logística internacional com tecnologia do século XXI
O projeto não representa simplesmente o retorno dos antigos navios mercantes a vela. O casco de alumínio em configuração trimarã, previsão meteorológica, roteamento avançado, refrigeração controlada, rastreamento de carga, geração solar, hidrogeneradores e integração digital com uma multinacional de logística tornam a operação tecnicamente diferente dos veleiros comerciais do passado.
A Austal confirma que o primeiro navio foi desenvolvido como um cargueiro moderno especificamente projetado em torno da propulsão eólica.
Já VELA e DHL Global Forwarding France confirmam que a tecnologia será incorporada a uma operação logística comercial transatlântica, e não apenas utilizada em demonstrações experimentais.
Se o cronograma atual for cumprido, a partir de 2027 um navio de 67 metros, 600 pallets e aproximadamente 410 toneladas começará a atravessar regularmente o Atlântico usando somente as velas durante a navegação oceânica, levando menos de 15 dias entre os portos e tentando ocupar um espaço novo entre avião e porta-contêiner.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Valdemar Medeiros.

