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Neste país quase não nascem crianças com síndrome de Down — e o motivo surpreende e divide especialistas

Neste país quase não nascem crianças com síndrome de Down — e o motivo surpreende e divide especialistas

6 min de leitura

Neste país quase não nascem crianças com síndrome de Down — e o motivo surpreende e divide especialistas

Escrito por Paulo Nogueira

Publicado em 27/08/2026 às 16:18

Atualizado em 27/08/2026 às 16:36

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Criança sorridente em imagem ilustrativa sobre o debate envolvendo síndrome de Down e diagnóstico pré-natal na Islândia

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País registra, em média, apenas dois ou três nascimentos por ano; redução está ligada à ampla realização de exames pré-natais e à interrupção de quase todas as gestações com diagnóstico confirmado

A Islândia chama atenção por um dado delicado: quase não nascem crianças com síndrome de Down no país. Entretanto, isso não aconteceu porque a condição genética desapareceu, nem porque cientistas desenvolveram algum tratamento capaz de evitá-la.

O principal motivo está na combinação entre amplo acesso ao rastreamento pré-natal e a decisão da maioria das famílias de interromper a gestação quando a trissomia 21 é confirmada.

Segundo reportagem publicada pela ABC News em 1º de maio de 2024, entre 80% e 85% das gestantes islandesas realizam exames para identificar alterações cromossômicas.

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Quando os exames posteriores confirmam a síndrome de Down, a taxa de interrupção da gravidez fica próxima de 100%. Como consequência, somente duas ou três crianças com a condição nascem anualmente no país.

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A síndrome de Down não foi eliminada da Islândia

Apesar de algumas publicações afirmarem que a Islândia “eliminou” a síndrome de Down, essa interpretação está errada. A condição continua ocorrendo durante a concepção, inclusive entre famílias islandesas.

A síndrome de Down, também chamada de trissomia do cromossomo 21, acontece quando uma pessoa apresenta uma cópia adicional desse cromossomo. Na maioria das vezes, são 47 cromossomos, em vez dos 46 encontrados habitualmente nas células humanas.

O que diminuiu na Islândia não foi a ocorrência genética, mas o número de gestações diagnosticadas que chegam ao nascimento.

Além disso, crianças com síndrome de Down ainda nascem no país. Isso pode acontecer quando a família decide continuar a gestação ou quando o rastreamento inicial não identifica a alteração.

Exames são oferecidos amplamente às gestantes

A Islândia começou a oferecer o rastreamento combinado do primeiro trimestre a todas as gestantes em 2003. O sistema público de saúde acompanha praticamente todas as grávidas, facilitando o acesso aos exames.

O rastreamento pode combinar ultrassonografia, análise de sangue e idade materna para calcular a probabilidade de alterações cromossômicas. Exames mais modernos também analisam fragmentos de DNA fetal presentes no sangue da gestante.

Contudo, existe uma diferença importante: rastreamento não significa diagnóstico definitivo. Quando aparece um risco elevado, são necessários exames confirmatórios, como a amniocentese ou a biópsia das vilosidades coriônicas.

No Brasil, o Ministério da Saúde também diferencia os procedimentos de triagem dos exames capazes de confirmar a trissomia 21.

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Decisão envolve medo, expectativas e condições familiares

Especialistas destacam que a decisão de interromper uma gravidez após o diagnóstico raramente é simples. Ela pode envolver condições financeiras, estrutura familiar, acesso a tratamentos, expectativas sobre o futuro e informações recebidas durante o atendimento médico.

Dominic Wilkinson, professor de ética médica da Universidade de Oxford, explicou à ABC News que nunca conheceu pais que tomassem essa decisão de maneira leviana.

Para ele, as escolhas refletem o tipo de apoio que a família acredita que conseguirá oferecer e a vida que imagina para a criança. Ao mesmo tempo, essas expectativas podem ser influenciadas por preconceitos, medo e desconhecimento sobre a síndrome de Down.

Assim, o debate não envolve somente a disponibilidade da tecnologia. Também inclui a maneira como médicos, instituições e a própria sociedade apresentam a deficiência às famílias.

Número reduzido provoca um debate ético mundial

A situação islandesa abriu uma discussão que ultrapassa os limites do país: quando quase todas as gestações com determinada condição são interrompidas, ainda se trata apenas de escolhas individuais ou surge uma forma coletiva de seleção?

Alguns especialistas consideram que a prática pode se aproximar de uma seleção eugênica, mesmo sem existir uma política obrigatória do Estado. O argumento é que a repetição dessas decisões transmite a mensagem de que determinadas vidas seriam menos desejáveis.

Outros pesquisadores rejeitam essa classificação. Eles afirmam que existe uma diferença fundamental entre uma política coercitiva promovida pelo governo e decisões individuais tomadas pelas gestantes após receberem informações médicas.

Nesse entendimento, o ponto central deve ser preservar a autonomia reprodutiva, garantir aconselhamento imparcial e oferecer apoio tanto para quem decide interromper quanto para quem escolhe continuar a gravidez.

Famílias relatam pressão e falta de informação equilibrada

O modo como o diagnóstico é comunicado também pode interferir na decisão. Organizações que representam pessoas com deficiência alertam que algumas famílias recebem informações concentradas apenas nas possíveis dificuldades médicas.

Na Austrália, uma pesquisa citada pela ABC News mostrou que 49% das famílias entrevistadas disseram ter sentido pressão de profissionais de saúde para interromper a gestação.

Defensores dos direitos das pessoas com síndrome de Down argumentam que os pais precisam conhecer não apenas os riscos clínicos, mas também experiências reais de inclusão, educação, trabalho, autonomia e convivência familiar.

A especialista islandesa Ástríður Stefánsdóttir defende maior participação de pessoas com deficiência nessa discussão. Segundo ela, tornar essas pessoas mais visíveis ajuda a sociedade a compreender que o diagnóstico não define antecipadamente toda a trajetória de uma vida.

Pessoas com síndrome de Down podem estudar, trabalhar e viver com autonomia

A trissomia 21 pode estar associada à deficiência intelectual, atrasos no desenvolvimento e maior risco de problemas cardíacos, auditivos, visuais e de tireoide. Entretanto, a intensidade dessas características varia significativamente entre as pessoas.

Com acompanhamento médico, estímulo precoce, educação inclusiva e apoio familiar, pessoas com síndrome de Down podem estudar, trabalhar, construir relacionamentos e viver com diferentes níveis de autonomia.

A expectativa de vida também aumentou expressivamente. Na Austrália, por exemplo, ela está próxima dos 60 anos, enquanto durante a década de 1950 era estimada em apenas 15 anos.

Uma publicação da Fiocruz reforça que pessoas com síndrome de Down possuem sonhos, desejos e capacidade de participar da sociedade, podendo inclusive concluir os estudos e exercer atividades profissionais.

Dados precisam ser analisados com cautela

Em março de 2026, o Centro Regional de Informação das Nações Unidas voltou a destacar que apenas duas ou três crianças com síndrome de Down nascem anualmente na Islândia.

Entretanto, especialistas recomendam cautela porque o país possui uma população pequena. Para identificar tendências confiáveis, é necessário observar períodos mais longos, preferencialmente de dez anos ou mais.

Ainda assim, a redução dos nascimentos é evidente e acompanha um movimento observado em outros países nórdicos. Na Dinamarca, por exemplo, estima-se que aproximadamente 98% das gestações com diagnóstico confirmado também sejam interrompidas.

O caso da Islândia, portanto, não representa uma cura nem o desaparecimento natural da síndrome de Down. Ele revela como os avanços do diagnóstico pré-natal, somados às decisões familiares, podem transformar a composição de uma sociedade — e criar perguntas profundas sobre autonomia, diversidade, inclusão e o valor atribuído às diferentes formas de vida.

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Islândiasíndrome de Down


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Paulo Nogueira.

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