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O centro da Terra desacelerou e começou a se mover na direção contrária ao resto do planeta, cientistas confirmaram a virada analisando 121 terremotos, e o efeito pode mexer na duração do dia em cerca de um milésimo de segundo
Escrito por Bruno Teles
Publicado em 03/08/2026 às 12:24
Atualizado em 03/08/2026 às 12:28
Meio Ambiente
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O estudo saiu na revista Nature em 12 de junho de 2024 e comparou ondas sísmicas de terremotos repetidos nas Ilhas Sandwich do Sul. A esfera de ferro e níquel que fica a mais de 5 mil quilômetros de profundidade acelerou até 2008 e desde então roda mais devagar que o manto.
Ninguém nunca viu o interior do planeta. Mesmo assim, um grupo de pesquisadores conseguiu descrever o movimento do centro da Terra ao longo de 32 anos usando apenas o eco de terremotos que atravessaram o planeta de lado a lado. O resultado foi publicado na revista Nature em 12 de junho de 2024, no artigo assinado por Wei Wang, John Vidale, Guanning Pang, Keith Koper e Ruoyan Wang.
A conclusão é que o núcleo interno, uma esfera sólida de ferro e níquel com aproximadamente 1.221 quilômetros de raio, girou mais rápido que o manto entre 2003 e 2008 e, a partir dali, passou a girar mais devagar. Em termos relativos, isso significa que ele começou a se mover para trás em relação à superfície, refazendo posições que já havia ocupado antes.
O que exatamente foi medido
Vale começar desfazendo o mal-entendido que dá origem a metade das manchetes sobre o assunto. O núcleo não parou de girar, e a Terra também não.
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O que mudou foi a velocidade dele em comparação com a camada acima, o manto. Durante alguns anos, ele girou um pouco mais rápido, o que os geofísicos chamam de super-rotação. Depois, essa vantagem sumiu e ele passou a girar de duas a três vezes mais devagar que o manto, situação chamada de sub-rotação. Quando um objeto gira mais devagar que o referencial ao redor, ele parece andar para trás. É exatamente isso que acontece aqui: movimento relativo, não inversão de rotação do planeta.
Como se enxerga algo a 5 mil quilômetros de fundo
Nenhum equipamento chega perto do núcleo. A perfuração mais profunda já feita pelo ser humano não passou de pouco mais de 12 quilômetros, uma fração do caminho até a crosta terminar.
A solução é indireta e engenhosa. Terremotos geram ondas que atravessam o planeta inteiro e emergem do outro lado, chegando a estações sísmicas com pequenas alterações de velocidade, trajetória e formato. Essas alterações carregam informação sobre tudo o que a onda encontrou pelo caminho. O estudo trabalhou especificamente com as ondas do tipo PKIKP, que são justamente aquelas que penetram o núcleo interno antes de retornar à superfície.
O truque dos terremotos repetidos
A parte mais elegante do método está na escolha da fonte. Os pesquisadores usaram terremotos repetidos, eventos que acontecem praticamente no mesmo ponto e produzem sismogramas quase idênticos entre si.
Isso resolve um problema básico: se dois tremores diferentes gerarem sinais diferentes, é impossível saber se a diferença vem do terremoto ou do interior do planeta. Com eventos praticamente iguais na origem, qualquer variação no sinal registrado passa a ser atribuível ao que mudou no caminho. Foram 121 terremotos ocorridos entre 1991 e 2023 na região das Ilhas Sandwich do Sul, no Atlântico Sul, organizados em 143 pares distintos de comparação e agrupados em 16 conjuntos.
Onde os sinais foram captados
Do outro lado do mundo em relação à fonte, duas redes de sensores no norte da América registraram a chegada das ondas. São os arranjos de Eielson, no Alasca, e de Yellowknife, no Canadá.
Esses conjuntos de sismômetros funcionam como antenas de alta sensibilidade para eventos distantes. A escolha das Ilhas Sandwich do Sul como origem e do norte americano como destino não é casual: essa geometria faz a onda atravessar o núcleo interno em um ângulo favorável, maximizando a informação recuperável sobre aquela camada específica.
O sinal que voltou a ser igual ao de antes
O achado central do trabalho tem uma lógica bonita e fácil de entender. Ao comparar os pares de terremotos, os pesquisadores encontraram formas de onda que mudaram ao longo dos anos e depois voltaram a coincidir com registros mais antigos.
Se a onda que atravessa o núcleo hoje tem exatamente o mesmo formato de uma onda registrada quinze anos atrás, a explicação mais direta é que o núcleo voltou a ocupar a mesma posição relativa ao manto que ocupava naquela época. É o equivalente sísmico de reconhecer uma paisagem pela janela do trem e concluir que se está passando pelo mesmo lugar de novo. Foi esse padrão de reencontros que sustentou a conclusão sobre a reversão do movimento.
A frase do pesquisador sobre a descoberta
John Vidale, da Universidade do Sul da Califórnia, descreveu o processo de convencimento em declaração divulgada pela instituição. Segundo ele, ao ver os primeiros sismogramas que sugeriam a mudança, ficou sem entender o que estava acontecendo.
A dúvida se dissipou com o acúmulo de casos. Ele contou que, ao encontrar mais de duas dezenas de observações apontando o mesmo padrão, o resultado se tornou inescapável. Vidale acrescentou que o núcleo interno havia desacelerado pela primeira vez em muitas décadas e que outros grupos vinham defendendo modelos semelhantes e diferentes, mas que o trabalho deles oferecia a resolução mais convincente até então.
O que os testes nucleares têm a ver com isso
Um detalhe curioso do método envolve dados que não vieram de terremotos. A equipe também aproveitou registros de explosões nucleares subterrâneas realizadas décadas atrás.
Foram usados dados de testes soviéticos gêmeos conduzidos entre 1971 e 1974, além de testes franceses e americanos repetidos, aproveitados de outros estudos sobre o núcleo interno. Explosões controladas funcionam como terremotos artificiais com origem conhecida com precisão, o que as torna referência valiosa para calibrar a série histórica. É um uso científico inesperado de um arquivo criado por outro motivo, e ele ajuda a estender a janela de observação para além do que os terremotos registrados sozinhos permitiriam.
Por que o núcleo desacelera
A explicação apresentada envolve duas forças que atuam sobre a esfera ao mesmo tempo. A primeira vem de baixo, ou melhor, de fora: o núcleo externo, que é líquido, feito de ferro fundido em movimento turbulento.
É esse redemoinho de metal derretido que gera o campo magnético terrestre, e ele exerce influência magnética sobre a esfera sólida suspensa no meio dele. A segunda força vem de cima, do manto rochoso, que não tem densidade uniforme. As regiões mais densas puxam o núcleo gravitacionalmente, funcionando como uma âncora irregular. O movimento que se observa é o resultado da disputa entre esses dois efeitos, e é por isso que ele oscila em vez de seguir constante.
Se o dia realmente muda de duração
Aqui está o ponto que mais precisa de cuidado, porque é onde a informação costuma ser esticada além do que a ciência sustenta. Vidale afirmou que o movimento do núcleo pode alterar a duração do dia em frações de segundo.
A frase seguinte dele é a que importa: trata se de algo muito difícil de notar, na ordem de um milésimo de segundo, praticamente perdido no ruído provocado pela agitação dos oceanos e da atmosfera. Ou seja, não é que a mudança seja imperceptível para as pessoas, é que ela é menor do que a variação natural produzida por outros fatores. Sobre os efeitos na superfície, a própria equipe registrou que só é possível especular.
O que o estudo não disse
Vale ser explícito sobre as conclusões que circulam associadas a essa pesquisa e que ela não sustenta. O trabalho não concluiu que a mudança esteja provocando terremotos, não relacionou o fenômeno a alterações climáticas e não apontou enfraquecimento perigoso do campo magnético terrestre.
Também não afirmou que seres humanos já percebam qualquer consequência do fenômeno. Essa leitura vai além do que os dados demonstram. E não se trata de evento único e catastrófico: o próprio artigo trata a oscilação como possível parte de um ciclo que se estende por várias décadas, o que significa que movimentos desse tipo provavelmente já ocorreram antes de existir sismógrafo para registrá los.
Onde essa pesquisa se encaixa
O estudo de 2024 não surgiu do nada e não encerrou o debate. Ele dialoga com trabalhos anteriores, entre eles a pesquisa publicada por Yi Yang e Xiaodong Song na revista Nature Geoscience em 2023, sobre variação multidecadal na rotação do núcleo interno.
A discussão continuou depois. Em 2025, a mesma Nature Geoscience publicou trabalho sobre variabilidade em escala anual tanto na velocidade de rotação quanto na superfície do núcleo interno, sugerindo que a camada é mais dinâmica do que se imaginava e pode até mudar de forma. A imagem que emerge é a de um interior planetário em movimento constante, e não de uma bola de ferro estática no meio do planeta.
Por que isso importa mesmo sem efeito prático
Se nada disso é sentido na superfície, cabe perguntar para que serve. A resposta está na única forma disponível de estudar o lugar mais inacessível do planeta.
Cada refinamento nesses modelos melhora a compreensão sobre como o núcleo externo líquido se comporta, e é ele que gera o campo magnético que desvia partículas carregadas vindas do Sol. Entender a dinâmica dessas camadas é a base para qualquer previsão sobre o comportamento do campo magnético em escalas longas. O estudo foi financiado pela Fundação Nacional de Ciência dos Estados Unidos e pelo Instituto de Geologia e Geofísica da Academia Chinesa de Ciências.
E você, já tinha parado para pensar que dá para medir o movimento do centro do planeta usando o eco de terremotos? Conta aqui nos comentários o que mais te surpreendeu nessa história, e diga se você já tinha lido alguma manchete afirmando que o núcleo da Terra teria parado.
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Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Bruno Teles.

