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O chão está afundando e o alerta cresce: solo cede 11,4 mm/ano, antecipa enchentes em décadas, amplia alagamentos e agrava inundações em Lagos
Escrito por Alisson Ficher
Publicado em 28/08/2026 às 20:09
Atualizado em 28/08/2026 às 21:01
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Medições por satélite mostram que o movimento vertical do terreno altera o risco costeiro em Lagos: quando a subsidência entra nos modelos, áreas projetadas de inundação aumentam e determinados níveis de exposição podem ser alcançados entre 48 e 60 anos antes do previsto apenas pela subida do mar.
Partes de Lagos, na Nigéria, estão afundando a uma velocidade de até 11,4 milímetros por ano, movimento que amplia a área sujeita à inundação e encurta em décadas o horizonte de risco calculado para alguns setores da metrópole.
O resultado aparece em um estudo publicado na revista científica npj Natural Hazards na quarta-feira (26). Os pesquisadores combinaram medições do movimento vertical do terreno entre 2015 e 2025 com projeções de elevação do nível do mar para estimar como os dois processos se somam.
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As velocidades calculadas variaram de -11,40 a +0,76 milímetro por ano no intervalo estatístico adotado pela pesquisa. O extremo negativo representa os pontos de subsidência mais intensa, enquanto valores próximos de zero ou positivos correspondem a áreas relativamente mais estáveis ou com pequeno movimento ascendente.
Os 11,4 milímetros anuais, portanto, não descrevem toda Lagos. A diferença espacial é decisiva porque setores submetidos à mesma elevação do oceano podem enfrentar níveis distintos de exposição quando o terreno perde altitude em ritmos diferentes.
Solo que desce muda o cálculo da inundação
Para medir essas variações, a equipe analisou imagens do satélite Sentinel-1 por interferometria diferencial de radar, técnica conhecida como DInSAR. Os resultados foram referenciados com dados do Sistema Global de Navegação por Satélite e comparados com medições independentes obtidas por PS-InSAR.
Depois de mapear o movimento do solo, os pesquisadores incorporaram as velocidades locais às projeções do cenário SSP2-4.5 do Sexto Relatório de Avaliação do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, além de considerar marés e restringir a simulação às áreas conectadas à água.
No sudoeste da área estudada, a superfície projetada de inundação para 2100 passa de 0,98 quilômetro quadrado, quando apenas a elevação do nível do mar é considerada, para 1,68 quilômetro quadrado com a inclusão do movimento vertical do terreno, aumento de aproximadamente 70%.
Nas regiões central e sudeste do continente analisadas pela equipe, a diferença é ainda maior. O cenário baseado apenas na subida do mar produz entre 0,15 e 0,16 quilômetro quadrado de área inundada, enquanto a subsidência eleva a projeção para 1,71 a 2,28 quilômetros quadrados.
O efeito também aparece no tempo. O estudo calcula que o movimento vertical da superfície antecipa entre 48 e 60 anos determinados níveis de inundação nas regiões avaliadas, em comparação com modelos que tratam o terreno como estável.
A explicação está no nível relativo do mar: para uma comunidade costeira sobre uma superfície em subsidência, a mudança percebida depende simultaneamente da água que sobe e da terra que desce, reduzindo mais rapidamente a distância entre a cidade e o nível do oceano.
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Nos pontos com maior subsidência, a velocidade encontrada se aproxima do dobro da média global de elevação do nível do mar usada como referência pelos autores, diferença que ajuda a explicar por que modelos sem movimento terrestre podem subestimar o risco em escala local.
Lagos já apresentava subsidência em estudos anteriores
O afundamento do terreno na cidade já havia sido identificado antes, embora resultados obtidos em períodos e metodologias diferentes não possam ser comparados diretamente. Um estudo publicado em 2020 na revista Geodesy and Geodynamics descreveu a subsidência como disseminada em Lagos e apontou taxas elevadas em zonas costeiras e áreas construídas sobre terrenos aterrados.
Esse trabalho anterior discutiu fatores capazes de contribuir para a deformação, entre eles exploração excessiva de água subterrânea, compactação de sedimentos e ocupação de áreas aterradas. A nova pesquisa, porém, concentra-se em medir como o movimento vertical observado modifica projeções de inundação, sem atribuir uma causa única à subsidência.
Os autores também incorporaram incertezas relacionadas à elevação do terreno, às velocidades medidas por radar e às próprias projeções do nível do mar. Entre essas componentes, as projeções marítimas produziram a maior dispersão, enquanto a incerteza associada ao InSAR respondeu por até 1,3% da incerteza projetada para 2100.
O modelo ainda pode produzir estimativas conservadoras em um ponto específico: a superfície usada na simulação mascara a possível passagem da água sob edifícios, o que pode limitar a representação de alguns caminhos de inundação em uma área urbana densamente construída.
A análise reforça que mapas de risco costeiro precisam considerar o que acontece no nível local. Em Lagos, o avanço do mar não é o único fator: o movimento do solo altera a velocidade com que áreas urbanas podem se tornar vulneráveis.
A metodologia integra diferenças locais do movimento vertical da terra às projeções de elevação do mar, em vez de tratar toda a superfície costeira como imóvel. Os autores afirmam que a abordagem pode ser aplicada a outras megacidades costeiras afetadas por subsidência, onde o terreno também pode alterar mapas e prazos de exposição à inundação.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Alisson Ficher.

