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O solo já perdeu até 9 metros de altura em uma das regiões agrícolas mais produtivas do mundo: décadas de bombeamento esvaziaram aquíferos, comprimiram camadas de argila e deixaram parte da deformação subterrânea praticamente permanente

O solo já perdeu até 9 metros de altura em uma das regiões agrícolas mais produtivas do mundo: décadas de bombeamento esvaziaram aquíferos, comprimiram camadas de argila e deixaram parte da deformação subterrânea praticamente permanente

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O solo já perdeu até 9 metros de altura em uma das regiões agrícolas mais produtivas do mundo: décadas de bombeamento esvaziaram aquíferos, comprimiram camadas de argila e deixaram parte da deformação subterrânea praticamente permanente

Escrito por Valdemar Medeiros

Publicado em 31/08/2026 às 14:45

Ciência e Tecnologia

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O solo já perdeu até 9 metros de altura em uma das regiões agrícolas mais produtivas do mundo

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O chão do Vale de San Joaquin, na Califórnia, já afundou cerca de 9 metros após décadas de bombeamento de água subterrânea, comprimindo o solo e reduzindo permanentemente a capacidade dos aquíferos.

Em partes do Vale de San Joaquin, na Califórnia, o chão não apenas cedeu alguns centímetros: o terreno chegou a acumular cerca de 9 metros de subsidência até 1981 depois de décadas de retirada intensiva de água subterrânea. Segundo o U.S. Geological Survey, o USGS, o bombeamento excessivo iniciado em grande escala na década de 1920 reduziu os níveis dos aquíferos, comprimiu camadas subterrâneas de argila e silte e provocou perda permanente de capacidade de armazenamento de água.

O resultado pode ser visto em uma das imagens mais famosas da ciência hidrogeológica americana: um poste perto de Mendota marca onde a superfície estava em 1925, 1955 e 1977, expondo décadas de perda de altitude.

O problema permanece atual. Além de reduzir permanentemente espaço dentro do sistema aquífero, o afundamento alterou a inclinação de canais, diminuiu a capacidade de transportar água e obrigou autoridades a gastar em obras justamente numa região dependente de uma complexa infraestrutura para abastecer cidades e sustentar a agricultura.

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O terreno começou a afundar quando milhares de poços passaram a retirar água do subsolo

O Vale de San Joaquin forma a porção sul do grande Vale Central da Califórnia e está entre as áreas agrícolas mais produtivas dos Estados Unidos. A partir da década de 1920, a água subterrânea ganhou importância crescente para irrigar plantações e atender uma produção agrícola que exigia grandes volumes mesmo nos períodos de pouca chuva.

A princípio, a retirada ocorria sem que a consequência vertical fosse plenamente compreendida. Mas, conforme os níveis subterrâneos baixavam, medições começaram a revelar que a superfície também estava mudando de posição.

O terreno começou a afundar quando milhares de poços passaram a retirar água do subsolo

O processo ganhou uma escala extraordinária. Segundo o USGS, em 1970 cerca de metade do Vale de San Joaquin, aproximadamente 13.500 km², já havia afundado mais de 30 centímetros. Em determinados pontos, a subsidência acumulada ultrapassava 8,5 metros.

Próximo de Mendota, décadas de bombeamento fizeram o solo perder quase 9 metros

A região a sudoeste da cidade de Mendota tornou-se o símbolo do fenômeno. O USGS registra que ali ocorreram alguns dos níveis de subsidência mais extremos medidos na Califórnia.

Entre 1925 e 1977, o terreno perdeu mais de 29 pés de altitude, aproximadamente 8,8 metros. Documentação posterior registra que a subsidência local chegou a cerca de 9 metros em 1981.

Não se trata de um buraco com nove metros de profundidade aberto de repente. A paisagem inteira baixou gradualmente enquanto sedimentos subterrâneos eram comprimidos. Estradas, campos, canais e outras estruturas acompanharam esse movimento vertical.

É justamente essa característica que torna o fenômeno menos evidente visualmente e, ao mesmo tempo, capaz de produzir impactos enormes ao longo de décadas.

Retirar água demais faz o peso do terreno comprimir argila e silte

O mecanismo ocorre nos poros dos sedimentos que formam o sistema aquífero. Camadas subterrâneas armazenam água entre partículas de areia, silte e argila. Enquanto existe pressão suficiente nos poros, parte da carga das camadas superiores é sustentada pela própria água.

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Quando o bombeamento faz os níveis subterrâneos caírem para valores historicamente baixos, essa pressão diminui. Uma parcela maior do peso passa então para a estrutura sólida dos sedimentos.

O USGS usa uma comparação visual bastante simples para explicar o que acontece com materiais finos: partículas de argila inicialmente dispostas de forma relativamente desorganizada podem ser rearranjadas e comprimidas, ocupando menos espaço.

Na superfície, essa redução de volume aparece como subsidência.

Parte da água perdida pode voltar, mas o espaço subterrâneo destruído não necessariamente retorna

Existe uma diferença fundamental entre compressão elástica e inelástica. Em certas condições, se o nível da água se recuperar, parte da deformação subterrânea também pode ser recuperada. Porém, quando o bombeamento faz a pressão ultrapassar limites históricos, sedimentos finos podem sofrer compactação permanente.

Isso significa que o problema não termina simplesmente quando volta a chover.

Quando argilas são fortemente comprimidas, parte do espaço onde anteriormente havia água deixa de existir. O USGS classifica essa redução do volume de poros como uma perda amplamente não recuperável da capacidade de armazenamento do aquífero.

Assim, extrair água demais pode produzir um efeito aparentemente contraditório: o aquífero é utilizado para atravessar uma escassez, mas a própria exploração excessiva pode diminuir a quantidade de água que ele conseguirá armazenar futuramente.

A chegada de água superficial conseguiu desacelerar o afundamento

A subsidência extrema observada durante a primeira metade do século XX começou a diminuir quando grandes projetos passaram a importar água superficial para o Vale de San Joaquin.

O Delta-Mendota Canal começou a fornecer água na década de 1950, enquanto o California Aqueduct ampliou essa oferta a partir do início dos anos 1970. A disponibilidade de água superficial reduziu a necessidade de bombeamento em determinadas áreas, permitiu recuperação dos níveis subterrâneos e desacelerou a compactação.

O alívio, porém, não significou o fim do problema.

Sempre que a disponibilidade de água superficial caiu, agricultores e outros usuários voltaram a depender mais intensamente dos poços.

Grandes secas fizeram o subsolo começar a ceder novamente

O USGS identificou retomadas importantes da compactação durante períodos de escassez, incluindo 1976-1977, 1986-1992, 2007-2009 e 2012-2015.

A lógica se repetia. Menos água disponível em rios, reservatórios e sistemas de distribuição levava a maior bombeamento subterrâneo. Os níveis dos poços baixavam e, em locais vulneráveis, as camadas de argila voltavam a se compactar.

Durante a grande seca iniciada em 2012, imagens de radar analisadas pela NASA voltaram a mostrar partes do Vale de San Joaquin descendo rapidamente. A agência destacou que o bombeamento intensificado pela seca agravava um processo iniciado décadas antes.

Satélites passaram a mostrar o afundamento quase em tempo real

A tecnologia mudou profundamente a capacidade de acompanhar o fenômeno. Técnicas de radar por satélite permitem comparar repetidamente a posição da superfície e detectar alterações de centímetros, ou até menores, sobre extensas áreas.

Entre maio de 2015 e setembro de 2016, dados do Sentinel-1 mostraram que o Vale de San Joaquin continuava apresentando subsidência significativa em diferentes bolsões.

Essas medições são importantes porque o afundamento não ocorre uniformemente. Um campo pode baixar mais rapidamente do que uma área vizinha, criando diferenças de elevação que alteram canais, estradas e outras estruturas.

É justamente a subsidência diferencial que transforma um movimento aparentemente lento em um problema de engenharia.

Em 2023, o afundamento já havia retirado 44% da capacidade de um trecho do California Aqueduct

Os impactos permanecem mensuráveis décadas depois da descoberta do problema. Em novembro de 2025, o California Department of Water Resources, DWR, informou que os níveis de subsidência observados em 2023 haviam provocado uma redução de 44% na capacidade do California Aqueduct na área estudada.

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Outro exemplo aparece no San Luis Canal, que integra o sistema do aqueduto. Segundo o DWR, alguns trechos afundaram mais de 2,4 metros desde que começaram a operar na década de 1960.

A transformação ocorre porque o canal não afunda necessariamente de maneira uniforme. Trechos mais baixos podem limitar a quantidade de água que passa pelo sistema sem transbordamentos ou outros problemas operacionais.

Assim, décadas de bombeamento subterrâneo acabam reduzindo também a eficiência da infraestrutura construída para transportar água superficial e diminuir a dependência dos próprios poços.

O Friant-Kern Canal perdeu capacidade equivalente a bilhões de litros de água

O Friant-Kern Canal oferece outro exemplo da dimensão econômica e hídrica do problema.

Segundo o DWR, em 2017 a subsidência, superior a 3 metros em determinados locais, havia reduzido as entregas pelo canal em aproximadamente 300 mil acre-feet.

Esse volume corresponde a cerca de 370 milhões de metros cúbicos, ou aproximadamente 370 bilhões de litros.

O USGS relata ainda que, em determinados trechos, o Friant-Kern Canal chegou a operar com apenas cerca de 40% da capacidade para a qual havia sido originalmente projetado devido aos efeitos da subsidência diferencial.

Poços, estradas, pontes e diques também entram na zona de risco

Os canais são a consequência mais visível para o sistema hídrico, mas não são os únicos elementos expostos.

A NASA relata que a subsidência de longo prazo já danificou milhares de poços públicos e privados no Vale de San Joaquin. Aquedutos, diques, estradas e pontes também podem sofrer consequências quando o solo deixa de permanecer na elevação considerada no projeto original.

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A deformação pode ainda modificar gradientes de rios, profundidade da água e padrões de erosão e deposição. Isso ocorre porque a subsidência altera a própria geometria da paisagem.

Em uma região onde agricultura, abastecimento urbano e controle de enchentes dependem de infraestrutura de grande escala, poucos centímetros acumulados em pontos diferentes já podem ter consequências. Quando o acumulado chega a metros, o problema deixa de ser apenas geológico.

A Califórnia tenta impedir que novas retiradas reproduzam o desastre histórico

O estado aprovou em 2014 a Sustainable Groundwater Management Act, conhecida como SGMA, criando um sistema de gestão de longo prazo para aquíferos considerados críticos.

O desafio é evitar que níveis subterrâneos caiam novamente para valores capazes de produzir compactação significativa e permanente.

Em janeiro de 2026, o DWR publicou uma prática específica de gestão de subsidência para orientar agências locais na prevenção ou redução do afundamento causado por bombeamento. O documento faz parte da tentativa de impedir que as áreas mais vulneráveis repitam os extremos históricos registrados no San Joaquin.

O objetivo não é simplesmente interromper toda utilização de água subterrânea. Os aquíferos são fundamentais para atravessar períodos secos. A questão é impedir que a retirada ultrapasse repetidamente os limites físicos que fazem o sistema perder volume permanentemente.

Os 9 metros mostram o que acontece quando uma crise hídrica também modifica a geologia

A história do Vale de San Joaquin é incomum porque transforma uma decisão cotidiana de abastecimento em uma mudança física de escala regional.

Durante décadas, milhões de metros cúbicos foram retirados de aquíferos para sustentar agricultura e outras atividades. A resposta apareceu lentamente: níveis subterrâneos caíram, sedimentos finos foram comprimidos e uma parte da superfície desceu junto.

Até 1970, mais de 13.500 km² já haviam sofrido subsidência superior a 30 centímetros. Perto de Mendota, o acumulado passou de 8,5 metros e chegou a aproximadamente 9 metros em 1981.

Décadas depois, a consequência ainda pode ser medida em canais deformados, menor capacidade de transportar água e aquíferos que perderam permanentemente parte do espaço que antes servia para armazená-la.

O chão que desceu não é apenas um registro de uma crise do passado. Ele permanece como evidência física de que, quando a retirada subterrânea ultrapassa determinados limites, uma região pode consumir não apenas a água de seu aquífero, mas também parte do próprio espaço onde essa água poderia voltar a existir.


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Valdemar Medeiros.

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