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Obras da BR-153 rasgam o solo do Paraná e revelam cinco sítios arqueológicos escondidos sob o caminho, com objetos que podem ter mais de 160 anos e grafismos na Pedra Criminosa, enquanto cientistas investigam se a rodovia moderna nasceu sobre uma velha rota de cavalos e charretes
Escrito por Ana Alice
Publicado em 26/08/2026 às 23:06
Atualizado em 26/08/2026 às 23:11
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Obras de duplicação da BR-153 no Norte Pioneiro do Paraná revelaram vestígios arqueológicos, grafismos e materiais históricos que agora ajudam pesquisadores a investigar antigas formas de ocupação e deslocamento pela região.
As obras de duplicação e ampliação da BR-153, entre Jacarezinho e Santo Antônio da Platina, no Norte Pioneiro do Paraná, revelaram cinco sítios arqueológicos durante a fase de terraplanagem.
Entre os vestígios estão fragmentos de louças, vidros e porcelanas que, em análises preliminares, podem estar ligados à segunda metade do século 19 e ao início do século 20.
Quatro áreas ficam em Jacarezinho, nas proximidades dos quilômetros 7, 22 e 23.
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O quinto ponto está na chamada Pedra Criminosa, geossítio conhecido na região e onde arqueólogos também investigam grafismos registrados na rocha.
Os achados foram divulgados pela concessionária EPR Litoral Pioneiro em 24 de agosto de 2026.
Segundo a empresa, os materiais localizados estão sendo retirados conforme as exigências estabelecidas para o patrimônio arqueológico e serão posteriormente analisados e encaminhados à Universidade Estadual de Maringá.
Fragmentos encontrados na BR-153 podem remontar a 1860
A idade exata das peças ainda não foi determinada.
Entre os materiais recuperados aparecem fragmentos de louças, porcelanas e recipientes de vidro, elementos que podem ajudar a reconstruir aspectos da vida cotidiana das populações que ocuparam aquela parte do Paraná.
O coordenador do projeto de salvamento arqueológico, Filipe Coelho, afirmou que os primeiros indícios apontam para um período próximo de 1860.
Naquela época, segundo a interpretação inicial apresentada pela equipe, ocorria uma expansão da ocupação de áreas do Norte do Paraná, relacionada também ao deslocamento de fazendas e ao avanço de atividades agrícolas, entre elas o cultivo do café.
A confirmação dependerá da comparação dos objetos recuperados com peças previamente catalogadas e da análise de mapas e documentos históricos.
Por isso, a referência a 1860 deve ser tratada como hipótese preliminar de datação, e não como idade já comprovada dos materiais.
Traçado da BR-153 pode acompanhar caminho muito mais antigo
A distribuição dos sítios arqueológicos ao longo do mesmo corredor despertou outra hipótese.
De acordo com Filipe Coelho, a presença de áreas com características semelhantes pode indicar que o atual traçado da BR-153 aproveitou um caminho utilizado muito antes da implantação da rodovia moderna.
“O que hoje é a rodovia pode ter sido uma rota de deslocamento, um caminho para a passagem de cavalos, de charretes, que foi alargado”, explicou o arqueólogo ao comentar os achados.
A possibilidade ainda está sendo investigada.
Para demonstrar que a estrada atual efetivamente acompanha uma rota histórica, os pesquisadores precisarão cruzar localização dos vestígios, mapas antigos, ocupação regional e outros registros documentais.
Ainda assim, a descoberta de materiais em diferentes pontos do corredor fornece novas pistas sobre como pessoas circulavam e ocupavam o Norte Pioneiro no século 19.
Pedra Criminosa também entrou na investigação arqueológica
O quinto sítio identificado tem características diferentes dos quatro primeiros.
Ele está na Pedra Criminosa, em Jacarezinho, área já reconhecida como geossítio devido à sua importância geológica.
Na rocha existem grafismos que agora são objeto de levantamentos arqueológicos e de tratativas com o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.
Os pesquisadores tentam compreender a cronologia, a origem e o contexto cultural dessas marcas.
As análises preliminares indicam potencial de relevância científica e patrimonial, mas ainda não permitem determinar com segurança quem produziu os grafismos ou em que período foram realizados.
Por isso, o trabalho deve continuar nas próximas etapas do monitoramento.
IPHAN acompanha os sítios arqueológicos encontrados na rodovia
No Brasil, descobertas de bens arqueológicos precisam ser comunicadas ao IPHAN.
O próprio instituto informa que cabe ao órgão reconhecer e registrar o patrimônio arqueológico brasileiro, seguindo as normas estabelecidas pela legislação federal.
Segundo a EPR Litoral Pioneiro, depois que os materiais foram identificados, especialistas avaliaram os vestígios e comunicaram os achados ao instituto.
A concessionária iniciou então o processo de retirada das peças, que deve continuar durante as obras.
Esse acompanhamento é particularmente importante porque uma intervenção de grande porte, como a duplicação de uma rodovia, envolve remoção de solo em áreas que podem guardar vestígios ainda desconhecidos.
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Peças arqueológicas serão analisadas antes de seguir para a UEM
Depois do resgate, os objetos não seguem diretamente para exposição.
Primeiro, passam por procedimentos de análise, documentação, comparação e classificação.
Segundo a concessionária, posteriormente os materiais serão encaminhados à Universidade Estadual de Maringá (UEM), dentro de uma parceria voltada à preservação do patrimônio cultural do Norte Pioneiro.
O estudo poderá ajudar a determinar a idade das peças, como elas eram utilizadas e qual relação mantinham com antigas áreas de ocupação.
Também poderá mostrar se os quatro sítios com louças, vidros e porcelanas pertenciam a um mesmo processo histórico ou representam ocupações diferentes ao longo do tempo.
Achados arqueológicos não devem alterar cronograma da duplicação
A concessionária afirma que o salvamento arqueológico foi incorporado ao planejamento das obras e não deve provocar atraso no cronograma.
O diretor-presidente da EPR no Núcleo Paraná, Marcos Moreira, declarou que a preservação do patrimônio histórico faz parte das obrigações ambientais e sociais da operação.
A duplicação entre Jacarezinho e Santo Antônio da Platina já havia recebido licença ambiental em 2025, após apresentação de estudos relacionados aos impactos das intervenções.
Desde então, diferentes frentes avançaram na BR-153, inclusive com construção de novas estruturas e alterações de acessos em Jacarezinho.
Agora, além da transformação física da rodovia, as escavações estão revelando informações sobre uma etapa anterior à própria existência da estrada moderna.
Os objetos ainda precisam ser estudados e a hipótese da antiga rota de cavalos e charretes continua em investigação.
Mesmo assim, os cinco sítios encontrados mostram que o solo removido para ampliar uma rodovia do século 21 pode guardar vestígios de deslocamentos realizados na mesma região mais de um século antes.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Ana Alice.

