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Operários descobriram plano da fábrica que planejava demitir 450 pessoas, esconderam até 80 mil relógios, retomaram a produção, venderam cerca de 40 mil unidades, pagaram os próprios salários e conseguiram a recontratação de 831 trabalhadores
Escrito por Flavia Marinho
Publicado em 04/08/2026 às 16:49
Atualizado em 04/08/2026 às 16:50
Indústria
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A ocupação da fábrica LIP começou em 1973, quando trabalhadores encontraram um plano para eliminar 450 empregos na França. O grupo escondeu até 80 mil relógios, retomou a produção e vendeu cerca de 40 mil peças para financiar salários, até que 831 participantes fossem recontratados em 1974.
Em 1973, operários da fábrica LIP descobriram documentos internos que previam a demissão de aproximadamente 450 pessoas. A decisão estava sendo preparada enquanto a companhia enfrentava uma crise e discutia a redução de suas atividades.
A informação histórica foi publicada por Coöperism 13/13, projeto acadêmico dedicado ao estudo da cooperação. O caso ocorreu em Besançon, na França, e envolveu uma das fabricantes de relógios mais conhecidas do país.
A reação dos funcionários foi muito além de uma paralisação. Eles ocuparam a unidade, esconderam entre 60 mil e 80 mil relógios, retomaram parte da fabricação e venderam milhares de unidades para pagar os próprios salários.
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O plano de 450 demissões foi encontrado enquanto a fábrica enfrentava a falência
A LIP havia entrado em falência e enfrentava uma reorganização conduzida em meio ao aumento da participação da empresa suíça Ebauches S.A. O plano previa reduzir a fábrica e dispensar aproximadamente 450 trabalhadores.
Muitos funcionários já participavam de sindicatos e começaram a criar comitês e assembleias. Durante essa mobilização, encontraram a anotação interna que revelava quantos empregados poderiam perder seus postos.
A descoberta mostrou que o futuro da empresa estava sendo discutido sem a participação de quem trabalhava diariamente na produção. A ameaça alcançava centenas de famílias e colocava em risco uma estrutura industrial construída ao longo de décadas.
Os operários começaram diminuindo o ritmo de trabalho. A mobilização cresceu quando perceberam que apenas uma paralisação poderia não ser suficiente para impedir as demissões.
Relógios de quartzo e concorrência internacional agravaram a crise da fábrica LIP
A fábrica possuía máquinas modernas e uma produção dividida em diferentes etapas. Apesar da capacidade industrial, a empresa enfrentava uma mudança importante no mercado relojoeiro.
Os relógios de quartzo ganharam espaço em 1973 e pressionaram fabricantes que dependiam de modelos mecânicos tradicionais. A própria LIP começou a produzir relógios com essa tecnologia, mas a adaptação não foi suficiente para evitar a crise financeira.
Ao mesmo tempo, a Ebauches S.A. aumentava sua participação na companhia francesa. A empresa fazia parte de um grupo suíço que mais tarde formaria a Swatch.
A falência abriu caminho para uma tentativa de redução das atividades. Para os trabalhadores, isso significava perder empregos mesmo depois de anos dedicados à montagem, ao controle e ao funcionamento da fábrica.
Trabalhadores esconderam até 80 mil relógios para pressionar a direção
A mobilização avançou para a ocupação da fábrica. Durante o conflito, dirigentes foram mantidos como reféns enquanto os operários tentavam abrir uma negociação sobre a continuidade dos empregos.
Uma tropa policial francesa entrou na unidade, retirou os funcionários e libertou os dirigentes. A intervenção foi marcada por confronto e não encerrou a resistência.
Os trabalhadores decidiram retirar o estoque, formado por aproximadamente 60 mil a 80 mil relógios. As unidades foram escondidas em diferentes pontos da região, dificultando qualquer tentativa da empresa de recuperar e vender rapidamente os produtos.
Os relógios passaram a funcionar como uma garantia de negociação. Sem acesso ao estoque, a direção perdia uma fonte importante de receita e precisava continuar discutindo o futuro dos empregos.
A estratégia envolveu ações fora dos limites legais. A ocupação, a manutenção de dirigentes como reféns e a retirada de bens da empresa fizeram parte da disputa e não podem ser separadas da história da mobilização.
Operários retomaram a produção por meio da autogestão da fábrica
As negociações perderam força, mas os trabalhadores continuaram reunidos em assembleias. Em vez de esperar uma decisão da antiga direção, eles retomaram parte das atividades por conta própria.
Peças que já estavam disponíveis foram montadas e transformadas em relógios prontos. Os funcionários organizaram as tarefas, discutiram as decisões e assumiram funções que antes pertenciam aos administradores.
Essa forma de organização ficou conhecida como autogestão operária. Na prática, significava que os próprios trabalhadores controlavam a produção, as vendas e o pagamento dos salários durante a ocupação.
As decisões eram tomadas coletivamente, com maior participação de pessoas que normalmente apenas cumpriam ordens dentro da linha de produção. O funcionamento da unidade passou a depender das assembleias organizadas pelos funcionários.
A experiência de 1973 foi uma ocupação temporária com características cooperativas. Ela não deve ser confundida com as cooperativas criadas nos anos seguintes, depois que a fábrica original enfrentou novos problemas.
Venda de cerca de 40 mil relógios permitiu pagar os salários
Coöperism 13/13, projeto acadêmico dedicado ao estudo da cooperação, registrou que aproximadamente 40 mil relógios teriam sido vendidos durante a mobilização.
O dinheiro arrecadado permitiu manter parte das atividades e pagar salários durante vários meses. Os valores não eram estabelecidos pela antiga direção, mas definidos pelos próprios trabalhadores reunidos em assembleia.
A experiência ganhou uma frase que resumiu o movimento: fabricar, vender e pagar a si mesmos. Ela representava a tentativa de mostrar que os funcionários dominavam as etapas necessárias para manter a produção funcionando.
A venda dos relógios LIP também ampliou a repercussão do caso. Visitantes e apoiadores foram até Besançon para conhecer uma fábrica na qual os operários haviam assumido tarefas de produção, organização e pagamento.
O resultado não significava que todos os problemas estavam resolvidos. A operação dependia do estoque escondido, das peças que ainda existiam e do apoio recebido durante o conflito.
Governo francês interveio e 831 trabalhadores foram recontratados em 1974
O governo francês entrou nas negociações e ajudou a instalar uma nova equipe de administração. Uma direção mais aberta ao diálogo assumiu o controle e começou a reorganizar a produção regular.
Os 831 trabalhadores que participaram da experiência acabaram recontratados em 1974. O processo ocorreu de forma gradual e marcou o retorno da fábrica ao modelo tradicional de administração.
A recontratação encerrou a fase em que os operários controlavam diretamente a produção e os salários. Mesmo assim, ela mostrou que a retirada do estoque, as vendas e a mobilização nacional aumentaram a força dos trabalhadores durante a negociação.
A solução não trouxe estabilidade permanente. Após a eleição de Valéry Giscard d’Estaing em 1974, o novo governo restringiu as operações da companhia, que acabou fechando posteriormente.
Outras experiências cooperativas apareceram nos anos seguintes. Elas deram continuidade a parte das ideias de organização coletiva, mas pertencem a uma fase diferente da história da LIP.
O movimento começou com a descoberta de 450 demissões planejadas e terminou com até 80 mil relógios escondidos, cerca de 40 mil unidades vendidas e salários pagos pelos próprios funcionários. A recontratação dos 831 participantes mostrou o alcance da mobilização, embora não tenha eliminado os problemas financeiros da empresa.
Quando centenas de empregos estão ameaçados, esconder o estoque e assumir a produção pode ser considerado uma defesa legítima ou a luta perde razão ao ultrapassar os limites da lei? Deixe sua opinião nos comentários.
Fonte
Coöperism 13/13
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Flavia Marinho.

