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Órfã de pai antes de nascer e criada só pela mãe, tornou-se a primeira mulher a se doutorar em física em Cambridge, empilhou 44 camadas de uma molécula cada sobre o vidro e criou o vidro invisível que quase não reflete a luz

Órfã de pai antes de nascer e criada só pela mãe, tornou-se a primeira mulher a se doutorar em física em Cambridge, empilhou 44 camadas de uma molécula cada sobre o vidro e criou o vidro invisível que quase não reflete a luz

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Órfã de pai antes de nascer e criada só pela mãe, tornou-se a primeira mulher a se doutorar em física em Cambridge, empilhou 44 camadas de uma molécula cada sobre o vidro e criou o vidro invisível que quase não reflete a luz

Escrito por Bruno Teles

Publicado em 06/08/2026 às 19:15

Atualizado em 06/08/2026 às 19:19

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Ela foi a primeira mulher a se doutorar em física por Cambridge e empilhou 44 camadas de uma molécula sobre o vidro para criar o vidro sem reflexo, em 1938.

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Katharine Burr Blodgett nasceu em Schenectady, no estado de Nova York, em janeiro de 1898, semanas depois de o pai ser morto a tiros dentro de casa. Concluiu o doutorado em 1926 e apresentou o vidro sem reflexo em 1938. A General Electric nunca conseguiu vender o produto.

O pai dela morreu antes de conhecê la. George Blodgett chefiava o departamento de patentes da General Electric e foi baleado dentro da própria casa por um assaltante poucas semanas antes do nascimento da filha, em Schenectady, no estado de Nova York. A menina viria a doutorar em física por Cambridge, tornando-se a primeira mulher a conseguir isso na universidade inglesa, em 1926.

Doze anos depois, ela apresentou o resultado que a tornaria conhecida. Empilhou 44 camadas com espessura de uma única molécula cada sobre uma placa de vidro e obteve um material que deixa passar mais de 99% da luz e praticamente não reflete nada, batizado na época de vidro invisível.

O crime que abriu a história

Ela foi a primeira mulher a se doutorar em física por Cambridge e empilhou 44 camadas de uma molécula sobre o vidro para criar o vidro sem reflexo, em 1938.

A morte do pai teve desdobramento próprio. A General Electric ofereceu recompensa de 5 mil dólares por informações que levassem à prisão e à condenação do responsável.

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O suspeito acabou preso e se enforcou na cela, em Salem, no mesmo estado. A família não ficou desamparada financeiramente: os registros indicam que a herança deixada foi suficiente para garantir estabilidade. A mãe, Katharine Buchanan Burr, criou sozinha os dois filhos e levou a família para Nova York, depois para a França, em 1901, e de volta a Nova York em 1912, com a intenção declarada de expor as crianças a outros idiomas.

A bolsa aos 15 anos

A trajetória escolar começou em um internato particular para meninas em Nova York. Aos 15 anos, ela ganhou bolsa integral para o Bryn Mawr College por causa do desempenho em ciências e matemática.

Ali teve dois professores que apontou como decisivos: a matemática Charlotte Angas Scott e o físico James Barnes. Concluiu a graduação em física em 1917 e o mestrado na Universidade de Chicago em 1918. Foi durante um recesso de inverno, ainda no ensino médio, que aconteceu o encontro que definiria o resto da vida profissional dela.

O passeio pelo laboratório que virou emprego

Ela foi a primeira mulher a se doutorar em física por Cambridge e empilhou 44 camadas de uma molécula sobre o vidro para criar o vidro sem reflexo, em 1938.

Irving Langmuir era antigo colega do pai dela na General Electric e viria a receber o Nobel de Química. Foi ele quem a levou para conhecer os laboratórios de pesquisa da empresa em 1917.

A proposta foi direta: ele ofereceria uma posição de pesquisa se ela completasse a formação superior. Ela completou, e em 1918 foi contratada, tornando-se a primeira mulher a trabalhar como cientista naquele laboratório. O primeiro trabalho dela foi aperfeiçoar filamentos de tungstênio de lâmpadas elétricas, área em que Langmuir já havia obtido patente em 1916.

Cambridge não queria receber mulher

Depois de seis anos na empresa, ela decidiu buscar o doutorado. O destino escolhido foi o Laboratório Cavendish, da Universidade de Cambridge, um dos centros de pesquisa mais prestigiados do mundo.

A vaga não veio fácil. Langmuir precisou convencer administradores do Cavendish, descritos como relutantes, a destinar uma das poucas posições disponíveis a uma mulher. Ela entrou em 1924, estudou sob orientação de Ernest Rutherford e defendeu tese sobre o comportamento dos elétrons em vapor de mercúrio ionizado. Em 1926, tornou-se a primeira mulher a receber doutorado em física pela universidade.

De uma camada para muitas

Ela foi a primeira mulher a se doutorar em física por Cambridge e empilhou 44 camadas de uma molécula sobre o vidro para criar o vidro sem reflexo, em 1938.

De volta à empresa, ela retomou a parceria com Langmuir e passou a se dedicar à química de superfícies. O ponto de partida era uma descoberta anterior dele.

Langmuir havia observado que substâncias oleosas depositadas sobre água se espalham formando um filme com a espessura de uma única molécula. Ele procurava aplicações práticas para isso. A contribuição dela veio de um gesto simples: mergulhou uma placa de metal em um desses filmes e percebeu que as moléculas aderiam à superfície, formando o mesmo revestimento monomolecular. Em 1935, descobriu que o processo podia ser repetido, criando filmes de múltiplas camadas com qualquer espessura desejada.

Por que 44 camadas exatamente

O número não é arbitrário e é o coração da invenção. Ao empilhar exatamente 44 camadas monomoleculares sobre o vidro, ela obteve um revestimento com espessura equivalente a um quarto do comprimento de onda da luz branca.

Nessa espessura específica, a luz refletida pelo filme sai defasada em relação à luz refletida pelo vidro. As duas ondas se encontram em oposição e se cancelam, fenômeno chamado de interferência destrutiva. O resultado é que o reflexo simplesmente desaparece e mais de 99% da luz atravessa a placa. É o mesmo princípio dos revestimentos antirreflexo usados hoje em lentes de óculos, câmeras e telescópios.

O material que ela usou

Aqui há divergência entre as publicações. O portal Hackaday e a revista especializada 2020 informam que ela usou estearato de bário, aditivo repelente de água e estável ao calor, empregado em tintas e revestimentos.

Já a Encyclopedia.com registra que o revestimento era feito com camadas de sabão líquido. As duas descrições aparecem em materiais que tratam da mesma invenção, e a diferença provavelmente decorre de simplificação em uma delas para leitores não técnicos.

O anúncio e o azar de dois dias

A empresa divulgou a invenção em 1938 e creditou o feito a ela. A comemoração durou pouco.

Apenas dois dias depois, dois físicos do Instituto de Tecnologia de Massachusetts anunciaram ter chegado a vidro não reflexivo por outro caminho, evaporando fluoreto de cálcio a vácuo e aplicando o material sobre a placa. Os dois métodos tinham o mesmo defeito: os revestimentos saíam com facilidade ao serem esfregados. Foi por isso que a General Electric nunca comercializou o produto dela.

O que sobreviveu da invenção

Apesar de não ter virado produto de prateleira, a técnica permaneceu. O método passou a se chamar filme de Langmuir-Blodgett, foi patenteado em 1938 e segue essencialmente inalterado desde então.

Cientistas posteriores resolveram o problema da durabilidade, e revestimentos antirreflexo hoje aparecem em telescópios, lentes de câmera, vidros automotivos, óculos, molduras e periscópios. Ela também desenvolveu, em 1933, um medidor de espessura de filmes finos com precisão de aproximadamente um milionésimo de polegada, quando os métodos existentes chegavam a poucos milésimos.

A vida fora do laboratório

Ela acumulou oito patentes americanas e publicou mais de 30 artigos técnicos ao longo da carreira. Aposentou-se da empresa em 1963 e recebeu, entre outras distinções, a Medalha Garvan-Olin em 1951.

Fora do trabalho, gostava de jardinagem e atuava em peças com um grupo teatral amador de Schenectady. Mantinha casa no Lago George, na região das Adirondacks, e se envolveu com causas de conservação ambiental, além de participar de um clube de mulheres profissionais. Morreu em 12 de outubro de 1979, aos 81 anos, na mesma cidade onde nasceu, e foi posteriormente incluída no Hall da Fama Nacional dos Inventores.

E você, sabia que existe uma camada invisível na lente dos seus óculos? Conta aqui nos comentários se você já tinha reparado no reflexo que o tratamento antirreflexo elimina, e diga qual invenção do cotidiano mais te surpreende quando você descobre a origem.

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mulher


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Bruno Teles.

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