Ícone do site Portal Estado do Acre Notícias

Os recados de Mendonça a Moraes e Dino ao ordenar apuração no caso Lulinha

Os recados de Mendonça a Moraes e Dino ao ordenar apuração no caso Lulinha

Os ministros Luiz Fux, Alexandre de Moraes, André Mendonça e Flávio Dino em sessão no STF • 16/052024 – Antonio Augusto/SCO/STF

A decisão do ministro André Mendonça de determinar que a PF (Polícia Federal) investigue o vazamento de informações do inquérito sigiloso contra o empresário Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, traz alguns recados a colegas do STF (Supremo Tribunal Federal).

“Na condução da investigação já instaurada, a autoridade policial deve zelar pela irrestrita observância à garantia constitucional da preservação do sigilo da fonte, plasmada no inciso XIV do art. 5º da Lei Fundamental em favor dos profissionais jornalistas”, escreveu o ministro.

Mendonça fez questão de destacar a frase “irrestrita observância à garantia constitucional da preservação do sigilo da fonte”, deixando-a em negrito e sublinhada no despacho.

O destinatário do recado de Mendonça é o ministro Alexandre de Moraes, que nos últimos meses ordenou busca e apreensão contra o jornalista maranhense Luís Pablo e sua fonte, o ex-secretário Raimundo Cutrim. Investigação da PF aponta perseguição dos dois contra o ministro Flávio Dino.

A decisão de Moraes dividiu especialistas e até ministros do tribunal. Associações ligadas à imprensa manifestaram “profunda preocupação” com a decisão e afirmaram que a medida pode atingir a garantia constitucional do sigilo da fonte.

Diante da repercussão, o ministro Edson Fachin, presidente do STF, defendeu a proteção à liberdade de imprensa e afirmou que investigações devem se voltar à apuração de eventuais ilícitos, e não ao exercício legítimo da atividade jornalística.

Moraes, por sua vez, afirmou que o sigilo da fonte é uma garantia constitucional, mas sustentou que essa proteção não pode servir para acobertar a prática de crimes.

Mendonça reforça aos investigadores na sua decisão que a apuração da PF “não deve ter como foco, em hipótese alguma, os autores ou quaisquer responsáveis pela veiculação das notícias jornalísticas”. A posição do ministro está em linha com o que pensa e expressou Fachin nos últimos dias.

“Isso porque referidas matérias tão somente evidenciaram o desvelamento do sigilo de dados que, por óbvio, foram disponibilizados aos profissionais protegidos pelo art. 5º, XIV, da Constituição, por quem lhes teve acesso do modo originário, seja em razão de atribuição funcional, seja pelo emprego de meios indevidos para obtenção da informação”, escreveu Mendonça.

A ordem do ministro determina o foco da investigação na identificação das pessoas que teriam o dever de custodiar o material sigiloso e o violaram. “E não daqueles que, no legítimo exercício da fundamental profissão jornalística, obtiveram o acesso indireto às informações que, pela sua natureza íntima, não deveriam ter sido publicizadas”, conclui.

“É com o objetivo de identificar esses eventuais sujeitos, que não são profissionais jornalistas (com ou sem diploma), e, bem por isso, tinham o dever funcional de preservar o sigilo das informações acessadas, ou careceriam de permissão legal para tê-las acessado, que devem ser conduzidas as diligências investigatórias”, afirmou o ministro.

Esse último trecho da decisão é um recado não só ao próprio Moraes, mas também ao ministro Flávio Dino. Os dois ministros sugeriram, durante sessão de julgamento nesta semana, que o STF volte a discutir a dispensa de diploma de jornalismo para o exercício da profissão.

Dino afirmou que a decisão que afastou a exigência de diploma tornou mais complexo o debate sobre as garantias asseguradas à imprensa, especialmente diante do crescimento das redes sociais. O ministro disse respeitar o entendimento firmado pela Corte, mas sinalizou que o tema poderia ser revisto.

“Há uma decisão do Supremo, a qual respeito, obviamente, e quem sabe um dia será debatida novamente, quanto à dispensa do diploma de jornalista para o exercício da profissão”, afirmou.

Segundo Dino, a possibilidade de qualquer pessoa se apresentar como jornalista cria dificuldades para a aplicação de garantias originalmente relacionadas ao jornalismo profissional.

Na sequência, Moraes concordou com a necessidade de reflexão sobre o tema e defendeu a possibilidade de uma regulamentação da atividade.

“Talvez seja realmente o momento de refletirmos, com uma regra de transição para aqueles que já exercem seriamente a profissão, mas, como qualquer outra profissão no Brasil, [sobre] uma regulamentação”, disse.

Moraes argumentou que as redes sociais permitem que pessoas se apresentem como jornalistas e invoquem a liberdade de imprensa, mesmo quando utilizam seus canais para “ofender” terceiros ou “disseminar desinformação”.

“A liberdade de imprensa é um dos pilares fundamentais da democracia. Se nós deixarmos que a imprensa seja contaminada por pessoas que não são da imprensa, não são jornalistas e não lutam pela informação, nós estaremos desgastando um dos grandes pilares da democracia”, afirmou.

As declarações foram dadas dias depois da ordem de Moraes contra Raimundo Cutrim, ex-secretário do governo do Maranhão, e Diogo Diniz Lima, advogado e ex-secretário de Urbanismo e Habitação de São Luís. A PF aponta os dois como fontes do jornalista Luís Pablo, autor de reportagens críticas a Dino.


Conteúdo reproduzido originalmente em: Ecos da Notícia por CNN.

Sair da versão mobile