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Pai deixou a escola aos 14 anos para trabalhar numa metalúrgica, criou dois filhos e garantiu a eles as oportunidades que nunca teve; quase 50 anos depois, voltou à EJA aos 63, onde o próprio filho, formado em História, seria um de seus professores no Rio de Janeiro
Escrito por Alisson Ficher
Publicado em 05/08/2026 às 23:10
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Trabalhador que interrompeu os estudos ainda adolescente retorna à escola quase cinco décadas depois e encontra, dentro da própria família, uma inversão rara entre cuidado, formação e reconhecimento, em uma trajetória marcada por esforço, oportunidade e mudança de papéis.
Francisco Oliveira deixou a escola aos 14 anos para trabalhar ao lado do pai em uma indústria metalúrgica e permaneceu quase cinco décadas longe da sala de aula, até decidir retomar a formação pela Educação de Jovens e Adultos no Rio de Janeiro.
Já aposentado e aos 63 anos, ele ingressou no CEJA Acari, onde viveria uma situação incomum: Hugo, seu filho mais velho, graduado em História, seria um dos professores responsáveis por acompanhá-lo nessa nova etapa da vida escolar.
Ao reunir pai e filho no mesmo ambiente de aprendizagem, o retorno de Francisco aproximou duas fases da história familiar, pois o homem que antes garantira oportunidades aos filhos passou a ocupar a carteira de estudante diante de alguém cuja formação ajudou a construir.
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Retorno à Educação de Jovens e Adultos
Segundo a Prefeitura do Rio de Janeiro, Francisco escolheu o atendimento semipresencial oferecido pelo CEJA Acari, modelo que combina acompanhamento pedagógico com maior flexibilidade e permite organizar os estudos de acordo com as responsabilidades acumuladas ao longo da vida adulta.
Essa estrutura atendia às necessidades de quem havia interrompido a educação básica ainda na adolescência, quando o trabalho passou a ocupar o espaço da escola e manteve Francisco afastado das aulas por quase 50 anos, embora o interesse pelo conhecimento nunca desaparecesse.
Durante um passeio ao Museu da República, realizado ao lado de Hugo e de estudantes da unidade, surgiu o impulso decisivo para a matrícula, porque o contato com a atividade educativa reacendeu o desejo de concluir uma formação deixada para trás na juventude.
Em vez de acompanhar o pai apenas como incentivador, Hugo assumiria também uma função pedagógica dentro do CEJA, criando uma inversão de papéis que não apagava a relação familiar, mas acrescentava a ela uma nova dinâmica entre professor e aluno.
Filho formado em História seria professor do pai
Na infância de Hugo e José, Francisco concentrara seus esforços em garantir que os dois filhos tivessem acesso às oportunidades educacionais que ele próprio não recebeu, mesmo enfrentando limitações financeiras e uma trajetória marcada pelo trabalho iniciado ainda muito cedo.
Depois de ver os filhos conquistarem diplomas, o aposentado passou a considerar essas formações o maior orgulho de sua vida, pois enxergava nelas o resultado direto das escolhas feitas para oferecer à família caminhos diferentes daqueles disponíveis em sua própria adolescência.
Natural da Paraíba, Francisco chegou ao Rio de Janeiro acompanhado de oito irmãos e foi morar em uma favela, contexto de dificuldades econômicas que ajuda a compreender por que o trabalho se tornou prioridade e a escola acabou deixada em segundo plano.
Trabalho precoce interrompeu os estudos
Aos 14 anos, ele passou a trabalhar com o pai em uma indústria metalúrgica, decisão que iniciou um afastamento prolongado da educação formal, mas não encerrou sua relação com a escrita, a leitura e outras formas de aprendizado construídas fora da escola.
Antes de retornar à sala de aula, Francisco já escrevia poesias de cordel, prática que funcionava como elo entre o conhecimento adquirido na experiência cotidiana e a formação escolar que buscava retomar por meio das atividades oferecidas pela Educação de Jovens e Adultos.
Por meio dos versos, mantinha contato constante com a língua portuguesa e exercitava a expressão escrita, embora ainda precisasse concluir etapas formais da educação básica para avançar em um percurso interrompido quando as exigências do trabalho se tornaram mais urgentes.
Relação entre pai, filho, professor e aluno
Dentro da unidade, a convivência entre os dois ganharia contornos diferentes, porque Francisco dizia que pretendia chamar Hugo de professor durante as aulas, reconhecendo o papel profissional do filho, mesmo admitindo que poderia tratá-lo espontaneamente como filho em alguns momentos.
Em casa, Hugo continuaria sendo o primogênito, enquanto no ambiente escolar assumiria a responsabilidade de orientar o pai como educador formado em História, respeitando as exigências do processo de aprendizagem e a relação construída entre professor, estudante e conteúdo.
Tornar-se aluno do próprio filho não reduzia a autoridade familiar de Francisco nem transformava sua matrícula em uma homenagem simbólica, já que o retorno representava uma retomada efetiva dos estudos, com atividades, acompanhamento e conteúdos necessários ao avanço escolar.
Voltado a pessoas que não concluíram o ensino fundamental na infância ou na adolescência, o CEJA Acari integrava a estrutura municipal de Educação de Jovens e Adultos e oferecia alternativas adequadas a trajetórias interrompidas por trabalho, responsabilidades familiares ou dificuldades econômicas.
Na época em que a história foi divulgada, a rede carioca mantinha mais de 20 mil estudantes matriculados na EJA e disponibilizava atendimento presencial, semipresencial e a distância, conforme informações apresentadas pela Prefeitura do Rio de Janeiro.
Nas 140 escolas com modelo presencial, os alunos tinham quatro horas diárias de aula, enquanto as unidades exclusivas de EJA ofereciam formatos mais flexíveis, capazes de facilitar a permanência de estudantes que precisavam conciliar a formação com outras responsabilidades.
Para trajetórias como a de Francisco, marcada por décadas de trabalho e por uma escolarização interrompida, essa organização representava uma alternativa diferente da escola regular frequentada por crianças e adolescentes, além de permitir uma retomada adaptada à vida adulta.
Educação conectou duas gerações
A presença de Hugo ampliava o significado pessoal da experiência, pois o filho que recebera incentivo para estudar, concluíra a graduação e se tornara professor passaria a acompanhar o pai na retomada de um projeto adiado desde os primeiros anos da juventude.
Nesse movimento, a educação circulava entre duas gerações em momentos diferentes: primeiro, Francisco trabalhou para priorizar a formação dos filhos; depois, um deles utilizaria a própria formação para participar diretamente da volta do pai à sala de aula.
O interesse despertado pela história nasce justamente dessa combinação entre abandono precoce dos estudos, décadas de afastamento e mudança inesperada de papéis, já que Francisco encontraria diante da turma alguém cuja trajetória acadêmica havia sido possível graças ao apoio recebido dentro de casa.
Ao ocupar uma carteira no CEJA, o aposentado passava a construir a experiência escolar que não conseguiu viver quando jovem, enquanto Hugo assumiria diante do pai uma função profissional alcançada por meio da educação que Francisco ajudara a garantir.
Quantas famílias brasileiras poderiam transformar a própria trajetória se adultos que deixaram a escola ainda jovens encontrassem apoio, modalidades flexíveis e incentivo suficiente para retomar os estudos ao lado de pessoas que ajudaram a formar?
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Alisson Ficher.

