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Pai deixou o Rio Grande do Sul em 1977 para começar do zero no Cerrado; quase 50 anos depois, as duas filhas largaram suas carreiras para assumir a granja da família, que aloja até 220 mil aves
Escrito por Felipe Alves da Silva
Publicado em 24/08/2026 às 23:30
Atualizado em 24/08/2026 às 23:31
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A granja da família Cenci, no Cerrado do Distrito Federal, atravessa uma mudança que determina o futuro de muitos negócios rurais brasileiros: a passagem do comando entre gerações. Depois de construir carreiras longe da propriedade, as irmãs Kellen e Catiusa voltaram ao campo para administrar o patrimônio erguido pelo pai, Derci Cenci.
Uma trabalhou aproximadamente dez anos como profissional de Educação Física. A outra estudou Relações Internacionais e Direito e permaneceu durante 12 anos no Judiciário. O pedido do pai para que ajudassem a preservar o negócio familiar mudou o rumo das duas.
Agora, elas dividem as decisões de uma operação que combina produção de grãos e uma granja com capacidade para alojar entre 200 mil e 220 mil aves. A sucessão também trouxe investimentos, monitoramento remoto e uma organização administrativa baseada na experiência profissional de cada irmã.
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Derci Cenci deixou o Sul quando o Cerrado ainda tinha pouca infraestrutura
A história começou em 1977, quando Derci Cenci deixou o Rio Grande do Sul acompanhado de familiares e seguiu para o Centro-Oeste. Naquele período, a agricultura comercial ainda avançava sobre áreas do Cerrado que dispunham de pouca infraestrutura.
Máquinas, moradias e estradas adequadas não faziam parte da realidade encontrada pelos pioneiros. Boa parte do trabalho precisava ser realizada manualmente até que as propriedades começassem a ganhar estrutura.
Kellen e Catiusa nasceram em Putinga, no Vale do Taquari, no Rio Grande do Sul, e cresceram próximas à produção rural. A infância incluiu contato com animais, retirada de leite e participação em pequenas tarefas durante as colheitas.
A proximidade com o campo, porém, não fez com que elas assumissem imediatamente a atividade construída pelo pai. Antes disso, cada uma buscou formação e estabilidade profissional na cidade.
Irmãs trocaram carreiras consolidadas pela sucessão no campo
Uma das irmãs formou-se em Educação Física e trabalhou por cerca de uma década na profissão. Mesmo empregada, reservava parte do dia para acompanhar o pai e colaborar com tarefas administrativas. Essa aproximação aumentou em 2020, durante a pandemia.
A outra seguiu pelas áreas jurídica e pública. Após estudar Relações Internacionais e Direito, trabalhou durante 12 anos no Judiciário. Foi justamente o conhecimento jurídico que a trouxe novamente para perto da propriedade.
Com o avanço das exigências ambientais, fiscais e documentais, Derci passou a recorrer com frequência à filha que vivia na cidade. O que começou como ajuda pontual transformou-se em participação direta na regularização e na administração do patrimônio.
A idade do pai também colocou uma decisão inevitável diante da família: alguém precisaria assumir o comando para que o trabalho iniciado em 1977 não terminasse naquela geração.
Segundo a reportagem do Canal Rural, o convite partiu do próprio Derci. Uma das filhas resume a escolha afirmando que “foi a melhor decisão que eu fiz”.
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Experiências diferentes passaram a definir a divisão das tarefas
Kellen e Catiusa não assumiram apenas cargos anteriormente ocupados pelo pai. Elas reorganizaram a forma de administrar o negócio.
Uma das irmãs concentra as atividades financeiras, administrativas e de planejamento. Parte do trabalho é realizada em um escritório em Brasília, de onde ela acompanha documentos, processos, assessorias e decisões sobre investimentos.
A outra permanece mais próxima da propriedade e responde por demandas que exigem presença diária, como acompanhamento dos funcionários, compras e necessidades operacionais.
Câmeras e sistemas de monitoramento permitem que carregamentos, equipamentos e atividades nos aviários sejam acompanhados à distância. A tecnologia reduz o peso da distância física, mas não elimina a necessidade de uma gestora presente no campo.
Essa divisão é um dos pontos centrais da sucessão. Em vez de reproduzir integralmente o modelo anterior, as irmãs transformaram suas formações profissionais em ferramentas de gestão para a propriedade rural.
Granja possui nove aviários e capacidade para até 220 mil aves
A avicultura não começou com a chegada das novas gestoras. A granja da família existe há aproximadamente 30 anos e está dividida em dois núcleos: um possui quatro aviários e o outro, cinco.
Dependendo da densidade adotada em cada lote, a estrutura pode alojar de 200 mil a 220 mil aves. O número revela a escala alcançada por um negócio que começou com a produção de grãos em uma região ainda carente de máquinas e infraestrutura.
Os investimentos mais recentes concentram-se em equipamentos, manejo, bem-estar animal, biossegurança e controle das instalações. A propriedade também participa de um projeto voltado à redução dos indicadores de salmonela.
De acordo com o profissional que acompanha a granja, medidas aplicadas nas propriedades participantes, como tratamento da cama e novos requisitos de manejo, ajudaram a levar os índices monitorados de uma faixa entre 40% e 60% para níveis entre 5% e 8%.
As irmãs também visitaram propriedades que já haviam passado por processos de sucessão familiar. A intenção foi conhecer problemas enfrentados por outras famílias e adaptar soluções à realidade do negócio dos Cenci.
Resíduo dos aviários volta para a produção de grãos
A produção de aves e o cultivo de grãos não funcionam como atividades completamente separadas dentro da propriedade.
Depois da retirada dos lotes, a cama dos aviários é aproveitada como adubo nas áreas agrícolas. O material gerado pela avicultura retorna ao solo e contribui para a produção vegetal.
Essa integração reduz o desperdício de um resíduo da granja e cria uma conexão prática entre as duas principais atividades da família. Também mostra que a modernização não se resume à instalação de câmeras ou à compra de máquinas: ela alcança a maneira como os recursos circulam dentro da fazenda.
Ampliação da granja e uma quarta geração já estão no horizonte
As irmãs avaliam construir novos aviários, mas a ampliação ainda depende das condições futuras do negócio. Não existe, até agora, uma expansão oficialmente confirmada.
A próxima etapa da sucessão pode ultrapassar Kellen e Catiusa. As duas já conversam com as próprias filhas sobre a origem dos alimentos e sobre o trabalho realizado pela família.
A possibilidade de uma quarta geração assumir a propriedade ainda pertence ao futuro. O que já está definido é que o patrimônio iniciado por Derci em 1977 não parou quando o pai envelheceu.
Quase cinco décadas depois da saída do Rio Grande do Sul, a propriedade passou às mãos das filhas com uma estrutura diferente daquela encontrada pelos primeiros integrantes da família: nove aviários, monitoramento remoto, gestão profissional e capacidade para alojar até 220 mil aves.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Felipe Alves da Silva.

