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Pai não deu as coisas de mão beijada e ainda duvidou dele, mas o menino que tinha vergonha de comer pão sem manteiga virou dono de uma indústria com 500 funcionários entre as cinco maiores do setor

Pai não deu as coisas de mão beijada e ainda duvidou dele, mas o menino que tinha vergonha de comer pão sem manteiga virou dono de uma indústria com 500 funcionários entre as cinco maiores do setor

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Pai não deu as coisas de mão beijada e ainda duvidou dele, mas o menino que tinha vergonha de comer pão sem manteiga virou dono de uma indústria com 500 funcionários entre as cinco maiores do setor

Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges

Publicado em 01/08/2026 às 08:07

Curiosidades

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Dono de indústria com 500 funcionários, Gil Ferreira comprou 100 alqueires com a venda de um rádio de pilha e construiu patrimônio em três estados.

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Gil Ferreira saiu de Caratinga, em Minas Gerais, rumo a Goiás em 1960, ouvindo do pai que talvez não aguentasse nem três meses. Nunca mais voltou para morar em Minas. Aos 86 anos, comanda terras em três estados e uma fábrica de tubos de PVC.

O dono da Duro PVC, indústria que emprega 500 funcionários e figura entre as cinco maiores do ramo no Brasil, começou a vida em uma família de 12 irmãos no interior mineiro, na região de Caratinga. Gil Ferreira contou a própria trajetória em entrevista ao podcast Agro em Debate, produzido pelo escritório João Domingos Advogados, em conversa reproduzida pelo portal Compre Rural.

A memória que ele aponta como ponto de partida não é de negócio, é de vergonha. Ele evitava comer perto dos colegas porque seu pão não tinha manteiga, e diz que foi ali que se fixou na cabeça a ideia de que precisava ganhar dinheiro um dia, nem que fosse só para colocar manteiga no pão.

O pai que preferiu deixar o filho ralar

A relação com o pai aparece no relato como fator decisivo, mas não pelo apoio. Gil descreve um homem enérgico, que não facilitou nada, e resume o próprio aprendizado dizendo que ralou sozinho, sem receber as coisas prontas.

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Essa postura ficou explícita no momento da partida. Em 1960, quando decidiu tentar a vida em Goiás e procurou o pai por causa da passagem, a resposta que ouviu foi um desafio disfarçado de conselho: que visse se aguentava pelo menos três meses por lá.

O prazo virou uma espécie de marco na história. Ele não apenas passou dos três meses, como nunca mais voltou a morar em Minas Gerais. O relato não detalha se a passagem foi ou não custeada pelo pai, apenas registra a frase que ficou.

Cem alqueires trocados por um rádio de pilha

imagem: compre rural

O episódio que dá título à história aconteceu no início da década de 1960, no então norte de Goiás, região que hoje corresponde ao estado do Tocantins. A terra ali não tinha valor comercial, e a negociação que ele fechou soa impossível para quem olha o preço do hectare hoje.

Gil comprou 100 alqueires em Alvorada com o dinheiro obtido na venda de um rádio de pilha novo. Segundo o próprio relato, a área era tão desvalorizada que nem posseiro se interessava por ela, o que dá a dimensão do abandono daquele pedaço de chão naquele momento.

O deslocamento até a propriedade completa o retrato da época. Ele saía de Anápolis e percorria cerca de 600 quilômetros de estradas de terra precárias montado em uma moto Vespa, veículo que não foi feito para esse tipo de trajeto. Seiscentos quilômetros de poeira em uma scooter para chegar a uma terra que ninguém queria.

A área foi depois ampliada para 500 alqueires. Na última safra citada na entrevista, sem que o ano tenha sido especificado, a mesma terra chegou a render 75 sacas de soja por hectare, produtividade elevada para a cultura.

Não foi a única negociação atípica. Os primeiros 10 alqueires que ele adquiriu na região de Anápolis também não foram pagos em dinheiro, e sim trocados por um triturador.

De vendedor de adubo a representante de tratores

A construção do patrimônio passou primeiro pelo comércio agropecuário em Anápolis. Ele começou vendendo produtos veterinários e adubos, atividade que o colocava em contato direto com o produtor rural e com a lógica do campo.

A ambição, porém, mirava outro patamar. Nas viagens a São Paulo, olhava as concessionárias de trator e pensava que um dia gostaria de ter uma empresa daquele porte. O passo veio quando conseguiu a representação dos tratores da marca CBT.

O detalhe que ele faz questão de registrar é que não tinha dinheiro para montar o estoque inicial. Recebeu cinco tratores em consignação e os vendeu rapidamente, viabilizando a operação. Foi um começo sem capital, sustentado pela confiança de quem entregou as máquinas antes de receber.

A concordata dos anos 70 e a decisão de pagar tudo

A trajetória empresarial não foi linear. Na década de 1970, ele enfrentou uma concordata, situação que atribui a erros de gestão somados a juros abusivos, combinação que quebrou muita empresa naquele período.

A saída escolhida foi a mais difícil. Em vez de deixar dívidas pelo caminho, fez questão de pagar cada centavo, com base em um princípio que resume assim: pagar, vencer e cumprir o que foi prometido.

Essa decisão tem consequência prática além da moral. Quem paga tudo depois de uma concordata reconstrói o crédito, e crédito é exatamente o que permite recomeçar em qualquer negócio de capital intensivo, seja indústria ou lavoura.

A fábrica que nasceu de uma conta mal feita

A Duro PVC surgiu, segundo o próprio relato, quase por engano. Ele afirma que, se tivesse feito uma pesquisa de mercado antes, provavelmente não teria comprado a primeira máquina de tubos, porque a concorrência instalada era forte, com a Tigre já consolidada no setor.

A ausência dessa análise acabou funcionando a favor. A empresa foi tocada com persistência e cresceu até se tornar uma das cinco maiores do ramo no Brasil, com 500 funcionários no quadro.

Vale registrar como esse dado deve ser lido. A história não sugere que pesquisa de mercado seja dispensável, e sim que naquele caso específico o desconhecimento removeu um freio que teria impedido a decisão. É uma leitura que o próprio entrevistado faz com humor sobre o próprio percurso, não uma recomendação de gestão.

Garimpo em Redenção e o prejuízo em Roraima

Entre os ciclos de perda e recuperação, o garimpo aparece nas duas pontas. Em Redenção, no Pará, ele conseguiu se reerguer financeiramente vendendo máquinas para garimpeiros, atividade que descreve como o que o tirou do atoleiro em determinado momento.

Em Roraima, a mesma frente virou prejuízo. Um prédio que ele construía desabou, e logo depois de recomeçar veio o segundo golpe, com a ação do governo Collor sobre as pistas de garimpo, período em que a administração federal atuou para inviabilizar a atividade na região.

O resultado foi uma perda de grande porte, cujo valor não foi divulgado. Foram dois baques seguidos na mesma praça, e o relato indica que ele voltou a se reconstruir depois disso.

O assassinato do irmão e os seis anos de ódio

A parte mais dura da história não tem relação com dinheiro. Um irmão de Gil foi assassinado em uma disputa de terras no Tocantins, e ele viveu seis anos consumido pelo desejo de vingança.

O relato não detalha as circunstâncias do crime, os envolvidos, o ano em que ocorreu nem eventual desfecho judicial do caso. O que ele descreve com detalhe é o processo pessoal de sair daquele estado.

Segundo o relato, a virada aconteceu durante um banho em uma lagoa na fazenda, em um episódio que ele interpreta como experiência espiritual, envolvendo a interação incomum de um pequeno peixe. Foi ali, diz, que enterrou o irmão e largou o ódio. É a passagem em que a entrevista deixa de falar de negócios e passa a falar de sobrevivência emocional.

Aos 86 anos, caminhada de 6 km e desconfiança de tecnologia

A rotina atual não é de aposentadoria. Aos 86 anos, ele caminha 6 quilômetros por dia, faz musculação e continua cuidando das próprias terras, distribuídas entre Minas Gerais, Goiás e Tocantins.

A relação com tecnologia agrícola é de ceticismo declarado, e o motivo é concreto. Ele afirma ter perdido R$ 1 milhão em uma safra por causa da falha na central eletrônica de um trator novo, pane que o fez perder a janela de plantio. A partir daí, passou a preferir a confiabilidade de máquinas mais simples.

O episódio ilustra um problema real do campo, ainda que a conclusão dele seja pessoal. Janela de plantio perdida não se recupera na mesma safra, e a dependência de eletrônica embarcada concentra em um único componente o risco de toda a operação. Produtores que adotam a tecnologia argumentam em sentido contrário, apontando ganhos de precisão e produtividade que compensam esse risco.

A filosofia de quem caiu várias vezes

A visão de mundo que ele apresenta combina fé e trabalho, sem colocar uma no lugar da outra. Ele afirma que se deve pensar em Deus na dificuldade, mas acrescenta que a ajuda só chega para quem está preparado, e que quem fica sentado esperando não terá a chance.

Sobre as quedas, a leitura é de ciclo. Ele diz que não se pode desistir e que existem caminhadas em que as topadas ajudam a seguir andando, formulação que resume a sequência de concordata, desabamento, prejuízo no garimpo e recomeços que atravessa a própria biografia.

Hoje, acompanha o crescimento dos filhos e netos nos negócios da família, mantendo a convicção de que honestidade e coragem para recomeçar são os pilares que sustentam tudo o mais.

De um rádio vendido a uma indústria em cinco décadas

O que separa o menino de Caratinga do empresário de 86 anos é uma sequência de decisões tomadas sem rede de proteção. Comprar terra que ninguém queria, aceitar tratores em consignação sem capital, pagar dívida integral depois de uma concordata e insistir em uma fábrica que a concorrência desaconselhava.

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Nenhuma dessas escolhas parecia acertada no momento em que foi feita, e algumas custaram caro. O que a trajetória mostra é menos genialidade de negócios e mais tolerância a perda, característica que aparece com clareza nos episódios de Roraima e nos anos posteriores ao assassinato do irmão.

E você, teria coragem de trocar tudo o que tinha por uma terra que ninguém queria? Acha que histórias assim ainda são possíveis hoje ou que a janela de oportunidade daquela época se fechou? Conta nos comentários qual foi a decisão mais arriscada que você já tomou na vida.


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Maria Heloisa Barbosa Borges.

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