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Parece nojento, mas é genial, o cabelo que cai no chão do salão e viraria lixo está sendo jogado no mar para sugar o petróleo que envenena a Baía de Guanabara, numa barreira brasileira que prende a poluição por até quatro meses

Parece nojento, mas é genial, o cabelo que cai no chão do salão e viraria lixo está sendo jogado no mar para sugar o petróleo que envenena a Baía de Guanabara, numa barreira brasileira que prende a poluição por até quatro meses

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Parece nojento, mas é genial, o cabelo que cai no chão do salão e viraria lixo está sendo jogado no mar para sugar o petróleo que envenena a Baía de Guanabara, numa barreira brasileira que prende a poluição por até quatro meses

Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges

Publicado em 10/08/2026 às 12:51

Atualizado em 10/08/2026 às 12:52

Ciência e Tecnologia

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Cabelo descartado por salões vira barreira que absorve petróleo na Baía de Guanabara e fica até quatro meses no mar retendo poluição.

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O fio que sobra do corte não serve para peruca e ia para o lixo. Agora ele é ensacado em malha de algodão, amarrado numa barreira flutuante e jogado na água da Baía de Guanabara para reter óleo antes que a mancha chegue ao manguezal.

Uma barreira feita com cabelo humano descartado por salões de beleza está sendo usada para conter petróleo e outros poluentes na Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro, e pode permanecer no mar por até quatro meses, segundo reportagem publicada pela Euronews em 10 de agosto de 2026. O projeto é da organização não governamental brasileira Fiotrar, fundada por Mariana Robrahn.

O princípio por trás da solução é físico e simples. Cada grama de cabelo tem potencial para absorver cerca de cinco gramas de óleo, e é essa capacidade que transforma um resíduo abundante em material de contenção. A tecnologia já era usada em outros países, como Chile e Estados Unidos, e foi adaptada ao Brasil pela ONG.

Por que o cabelo puxa o óleo

Cabelo descartado por salões vira barreira que absorve petróleo na Baía de Guanabara e fica até quatro meses no mar retendo poluição.

O comportamento do fio diante do óleo é o que sustenta toda a ideia. O cabelo humano é oleofílico, ou seja, tem afinidade com substâncias oleosas, e ao mesmo tempo repele a água. Quando o material entra em contato com uma mancha, o óleo adere à superfície dos fios e a água escorre.

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A demonstração feita em laboratório é direta. Despeja-se óleo num recipiente com água e cabelo: o óleo fica preso nos fios e a água sai limpa do outro lado. É o mesmo motivo pelo qual o cabelo fica oleoso alguns dias depois da lavagem, agora aplicado em escala ambiental.

Além do cabelo humano, o pelo de animais também pode ser usado para filtrar e absorver petróleo, o que amplia a base de matéria-prima disponível para o processo.

Onde a primeira barreira foi instalada

Pescadores artesanais da Baía de Guanabara instalam barreira para proteger manguezal na Ilha do Fundão, no Rio de Janeiro | Foto: Edgar Costa/Fundação Grupo Boticário

Os testes em ambiente natural começaram na Enseada de Bom Jesus, banhada pela Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro. O local foi escolhido porque já existia ali uma barreira de contenção de lixo em operação, o que permitiu acoplar a nova estrutura ao que já estava montado.

A instalação tem cerca de 350 metros de extensão e usa aproximadamente 250 quilos de cabelo. É a primeira barreira desse tipo no Brasil com mais de 300 metros, e o objetivo central da instalação é proteger os manguezais da região, ecossistema que funciona como berçário de espécies e que é especialmente vulnerável a mancha de óleo.

O trabalho é resultado de parceria entre a Fiotrar e a organização Orla Sem Lixo Transforma, responsável pela barreira laranja já existente, com apoio da Fundação Grupo Boticário.

Como a estrutura é montada

Cabelo descartado por salões vira barreira que absorve petróleo na Baía de Guanabara e fica até quatro meses no mar retendo poluição.
imagem: euronews

O cabelo não é lançado solto na água, e essa é a parte que costuma gerar confusão. Os fios são embalados dentro de rolos feitos com malha de algodão, formando cilindros que a equipe chama de mantas, ou de salsichas, na descrição informal usada no laboratório.

Esses cilindros são então fixados à barreira laranja que flutua na superfície e retém lixo. Segundo a engenheira ambiental Ana Beatriz Gonçalves, responsável pela manutenção das novas barreiras, a estrutura já existente funciona como suporte para a barreira da Fiotrar. A parte que retém o óleo é a de cabelo, e a parte que a mantém flutuando é a que já estava lá.

A barreira flutuante em si é composta por isopor, tecido, camadas de mantas geossintéticas e cobertura de lona. O conjunto forma uma linha contínua na água, e a cena que se vê na baía é o lançamento desses cilindros a partir de embarcações pequenas.

Quatro meses no mar e manutenção toda semana

Cabelo descartado por salões vira barreira que absorve petróleo na Baía de Guanabara e fica até quatro meses no mar retendo poluição.
imagem: euronews

O tempo de permanência é um dos dados mais relevantes para quem opera o sistema. As barreiras podem ficar até quatro meses no mar retendo poluição, prazo depois do qual o material precisa ser recolhido e substituído.

O que elas retêm nesse período não vem apenas de acidentes de grande porte. A química Caroline Carvalho, diretora da Fiotrar, explica que o sistema captura poluição proveniente de embarcações, descargas ilegais e outras fontes de contaminação, ou seja, o vazamento crônico e cotidiano que raramente vira notícia.

A manutenção é semanal e fica a cargo da equipe técnica, que acompanha o estado das mantas e o volume retido. Uma barreira de cabelo não é estrutura para instalar e esquecer, e o custo de operação inclui esse acompanhamento contínuo ao longo de todo o período em que ela fica na água.

De onde vem o cabelo usado

A matéria-prima chega de salões de beleza. Cerca de uma dezena de estabelecimentos doa o cabelo cortado que não será aproveitado para a confecção de perucas, e é justamente essa sobra que abastece a produção das mantas.

O critério de aproveitamento é bem mais folgado que o das perucas. Enquanto um fio precisa ter comprimento considerável para virar peruca, cortes a partir de 2,5 centímetros já servem para as mantas de contenção. Praticamente todo cabelo que cai no chão do salão pode ser usado, o que explica por que a organização classifica a matéria-prima como quase inesgotável em um país com o número de salões que o Brasil tem.

De perucas para pacientes com câncer a barreiras no mar

A história do projeto começa em outro lugar. Em 2013, Mariana Robrahn fundou junto com Mylene Duarte a ONG Cabelegria, dedicada a confeccionar e distribuir gratuitamente perucas para pacientes com câncer, a partir de doações de mechas.

O problema apareceu na prática do trabalho. Parte considerável das doações recebidas não atendia às exigências mínimas para virar peruca, como comprimento e condição do fio, e acabava descartada. Em 2019, ao procurar destino para esse material, Mariana descobriu uma organização nos Estados Unidos que produzia mantas e barreiras com cabelo humano para retirar petróleo do oceano.

Em 2021, a ideia virou estrutura própria com a criação da Fiotrar, dedicada a desenvolver a tecnologia no Brasil. O desenvolvimento passou por laboratório na Universidade Federal do Rio de Janeiro antes de chegar à água. Caroline Carvalho define o momento da instalação na baía como a validação de anos de pesquisa, afirmando que chegar a essa etapa significa provar na prática que a tecnologia funciona fora do laboratório.

O que os pescadores da baía dizem

A Baía de Guanabara sofre há décadas com vários tipos de poluição, em boa parte por causa do tráfego marítimo intenso, com navios entrando e saindo constantemente. Foi por isso que a região virou um dos locais escolhidos para testar o projeto.

Quem sente o efeito direto disso é a comunidade pesqueira. O pescador Sérgio Carvalho relata que, ao sair para pescar com redes, encontra muitos derramamentos de petróleo que atrapalham o trabalho. Segundo ele, o óleo permanece na superfície, mas afeta tudo até cerca de um metro e meio de profundidade, e os peixes desaparecem.

A expectativa da comunidade pesqueira e dos grupos ambientais envolvidos é que as barreiras ajudem na recuperação dos ecossistemas da baía. Pescadores da região já participavam da remoção de lixo e agora se envolveram também no trabalho com o óleo.

O que a organização quer fazer depois

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O uso do cabelo contra óleo não é o ponto final da pesquisa. A Fiotrar desenvolveu uma máquina própria para confeccionar as mantas e trabalha na criação de um filtro para remoção de metais pesados de efluentes, também a partir do cabelo.

Se der certo, o mesmo resíduo passaria a ter duas aplicações ambientais distintas: contenção de óleo em água aberta e tratamento de efluentes industriais. É uma agenda que depende de novos ciclos de pesquisa, e a organização não divulgou prazo para essa segunda frente.

O que já está comprovado é o mais imediato. Um material que sai gratuitamente do chão de qualquer salão de beleza, e que até então virava lixo comum, está retendo poluente em uma das baías mais castigadas do país. A ideia mais barata da lista nem sempre é a pior.

E você, doaria o cabelo do próprio corte para virar barreira contra óleo no mar, ou acha que soluções assim são pequenas demais diante do tamanho da poluição da Baía de Guanabara? Conta nos comentários o que você acha dessa ideia.


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Maria Heloisa Barbosa Borges.

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