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Pedreiro passa sete anos reconstruindo sozinho antigo cinema de Pernambuco, reabre a sala aos 71 anos e, aos 81, ainda chega às 6h para cuidar do prédio e projetar filmes

Pedreiro passa sete anos reconstruindo sozinho antigo cinema de Pernambuco, reabre a sala aos 71 anos e, aos 81, ainda chega às 6h para cuidar do prédio e projetar filmes

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8 min de leitura

Pedreiro passa sete anos reconstruindo sozinho antigo cinema de Pernambuco, reabre a sala aos 71 anos e, aos 81, ainda chega às 6h para cuidar do prédio e projetar filmes

Escrito por Noel Budeguer

Publicado em 31/08/2026 às 20:42

Atualizado em 31/08/2026 às 20:43

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Depois de décadas trabalhando em obras, José Aurélio da Silva investiu recursos próprios para manter vivo um sonho de infância e hoje comanda uma sala de apenas 97 lugares no interior de Pernambuco

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Depois de décadas trabalhando em obras, José Aurélio da Silva investiu recursos próprios para manter vivo um sonho de infância e hoje comanda uma sala de apenas 97 lugares no interior de Pernambuco

Durante boa parte da vida, José Aurélio da Silva trabalhou como pedreiro, erguendo e consertando construções para outras pessoas. Mas havia um projeto que ele carregava desde criança e que não tinha relação direta com os canteiros de obras: ter seu próprio cinema.

O sonho acabou tomando forma em Toritama, no interior de Pernambuco. Durante sete anos, Aurélio comprou materiais e trabalhou na reconstrução de um antigo cinema praticamente com as próprias mãos. Em 7 de setembro de 2016, quando já tinha 71 anos, conseguiu finalmente abrir as portas do Cine Aurélio.

Dez anos depois, a história continua. Aos 81 anos, completados em março de 2026, ele segue à frente do espaço e acumula funções que normalmente seriam divididas entre vários profissionais: é proprietário, projecionista, faz pinturas, executa reparos e acompanha pessoalmente a manutenção do prédio.

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Mais do que isso, costuma chegar ao cinema por volta das 6h da manhã, mesmo nos dias em que nenhuma sessão está programada.

Paixão pelo cinema começou ainda na infância, olhando filmes por um buraco na parede

A relação de Seu Aurélio com as telas começou muito antes de ele imaginar que um dia seria proprietário de uma sala.

Quando ainda era criança, seu pai trabalhava em uma padaria localizada ao lado do antigo Cine São Luís, em Toritama. Sem dinheiro ou autorização para entrar, Aurélio encontrava outra maneira de acompanhar aquilo que acontecia do outro lado da parede.

Ele assistia aos filmes por um pequeno buraco.

Por volta dos 9 ou 10 anos, começou a ter permissão para entrar no cinema e passou a frequentar principalmente a cabine de projeção, observando como os equipamentos funcionavam.

Uma das primeiras produções que ficou marcada em sua memória foi “O Ébrio”, filme brasileiro dirigido por Gilda de Abreu e lançado em 1946. Décadas depois, já proprietário de seu próprio cinema, Aurélio ainda mantinha uma relação afetiva com o longa.

A experiência da infância acabaria determinando grande parte das decisões que tomaria anos mais tarde.

Pai de sete filhos, Seu Aurélio já começou a transmitir ao primogênito, Chico, os conhecimentos necessários para manter o Cine Aurélio funcionando no futuro. Aos 81 anos, ele prepara o filho para assumir a sala quando já não puder cuidar pessoalmente da programação, dos equipamentos e da manutenção do espaço. (Crysli Viana/DP Foto)

Pedreiro alugou um antigo cinema e acabou comprando o imóvel em 1992

No fim da década de 1980, enquanto continuava trabalhando como pedreiro e já era casado com Dona Nenê, Aurélio recebeu a oportunidade de alugar o antigo Cine São José, em Toritama.

Ele aceitou.

Durante aproximadamente três anos, aprendeu na prática como administrar uma pequena sala de exibição. Em 1992, decidiu dar um passo maior e comprou o espaço.

Junto com o imóvel vieram 120 cadeiras e dois projetores de 35 milímetros.

Mas transformar paixão em negócio não foi simples.

Em uma das primeiras experiências, Aurélio colocou na programação uma versão em preto e branco de “King Kong”. Preparou a sessão, aguardou os espectadores e acabou diante de uma sala vazia.

Ninguém apareceu.

Ele não desistiu. Montou posteriormente uma estrutura menor, com cerca de 70 cadeiras e uma televisão, e começou a exibir outros filmes. Produções de artes marciais, especialmente filmes de karatê, ajudaram a atrair público.

Coleção chegou a cerca de 4 mil filmes e sala virou também locadora

Para conseguir novos títulos, Aurélio fazia viagens até Caruaru, um dos principais centros urbanos do Agreste pernambucano.

Durante determinado período, comprava diferentes cópias de filmes para abastecer a programação. Com o passar dos anos, a coleção cresceu até atingir aproximadamente 4 mil títulos.

O espaço passou então a funcionar também como locadora de filmes.

Durante algum tempo, alugar fitas para que os clientes assistissem em casa chegou a ser mais rentável do que manter as sessões na tela grande.

Quando percebeu que seria difícil sustentar as duas atividades simultaneamente, Aurélio precisou escolher.

Ficou com o cinema.

Tela chegou a ser feita com placa de Duratex pintada com tinta de alumínio

As dificuldades também apareceram quando a tecnologia começou a mudar.

Com a redução do uso dos antigos projetores de 35 mm, Aurélio tentou modernizar a sala. Comprou um equipamento que prometia projetar filmes diretamente na parede e decidiu testá-lo com “Rambo 3”.

A experiência não funcionou como imaginava.

A imagem era fraca e difícil de enxergar. Foi então que o conhecimento acumulado durante décadas como pedreiro voltou a ser útil.

Aurélio pegou uma placa de Duratex e a pintou com tinta de alumínio, criando uma tela improvisada para tentar aumentar a reflexão da imagem.

O resultado melhorou parcialmente, mas ainda estava longe do que ele considerava adequado. Mais tarde, comprou em Recife um projetor da Sony, que proporcionou uma melhora significativa na qualidade das sessões.

Foram sete anos reconstruindo o prédio com recursos próprios

A transformação definitiva ocorreu quando decidiu reconstruir o antigo espaço.

Segundo os relatos do próprio Aurélio, foram sete anos de trabalho, comprando materiais e utilizando a experiência profissional que havia acumulado como pedreiro.

Ele afirma que a construção foi realizada com recursos próprios, sem ajuda financeira para levantar o novo cinema.

Madeira, pintura, estrutura e diferentes etapas da obra passaram diretamente por suas mãos.

O projeto finalmente ficou pronto em 2016.

Em 7 de setembro daquele ano, aos 71 anos, Aurélio abriu oficialmente as portas do espaço renovado, agora batizado de Cine Aurélio.

A escolha para a sessão de reabertura foi muito diferente daquela experiência frustrada com “King Kong”: o público compareceu para assistir a “Velozes e Furiosos 7”.

Seu Aurélio comemora a reabertura do Cine Aurélio, em Toritama, concluída em 2016 após sete anos de reconstrução do antigo espaço com as próprias mãos. Na época, aos 71 anos, ele descreveu o momento como um retorno às lembranças da infância. (Crysli Viana/DP Foto)

Aos 81 anos, ele ainda chega por volta das 6h para cuidar do cinema

Em 2026, o Cine Aurélio possui 97 lugares e é apontado como o único cinema de rua ainda em funcionamento no Agreste Setentrional de Pernambuco.

As sessões comerciais costumam acontecer aos sábados e domingos, às 20h, e o ingresso custa apenas R$ 10.

Durante a semana, o espaço também pode receber escolas, festivais e eventos especiais.

Mesmo com uma programação relativamente pequena, Aurélio mantém uma rotina intensa. Ele costuma chegar por volta das 6h da manhã, inclusive em dias sem exibição para o público.

É nesse período que testa filmes, verifica equipamentos, organiza a programação e observa o que precisa ser melhorado no prédio.

Quando aparece algum problema, seu antigo ofício continua fazendo parte da rotina: aos 81 anos, ele ainda realiza consertos, pinta partes do cinema e acompanha pessoalmente a manutenção da estrutura.

Sua residência fica justamente na parte superior do mesmo imóvel onde funciona a sala.

Próximo sonho custa mais de R$ 500 mil

Mesmo depois de conseguir construir o espaço que desejava, Aurélio ainda não considera o projeto concluído.

Um de seus maiores objetivos é adquirir um projetor profissional de cinema avaliado em mais de R$ 500 mil.

O valor, entretanto, está muito acima da capacidade financeira de uma sala independente com apenas 97 lugares e ingressos vendidos a R$ 10. Aurélio reconhece que dificilmente conseguirá comprar o equipamento somente com a bilheteria e acredita que uma eventual doação poderia tornar a modernização possível.

Ele também pretende continuar realizando melhorias na cobertura, instalações e estrutura técnica do prédio.

Mesmo com um projetor digital em funcionamento, Seu Aurélio ainda sonha em modernizar o Cine Aurélio com um equipamento profissional avaliado em mais de R$ 500 mil. Aos 81 anos, ele admite que a compra dificilmente seria possível apenas com a bilheteria e acredita que uma doação poderia tornar o projeto realidade. (Crysli Viana/DP Foto)

Festival levou mais de 2 mil pessoas ao pequeno cinema em março de 2026

Apesar das dificuldades para manter uma sala independente em funcionamento, o Cine Aurélio mostrou em 2026 que ainda possui importância cultural para a região.

Entre 18 e 20 de março de 2026, o local recebeu parte da programação da 19ª edição do Curta Taquary, com dezenas de produções audiovisuais de diferentes regiões do Brasil.

Ao final do evento, a organização informou que mais de 2 mil pessoas passaram pelas sessões realizadas no Cine Aurélio.

O número chama atenção diante da capacidade de apenas 97 espectadores por sessão e mostra como o pequeno prédio construído pelo antigo pedreiro ainda consegue reunir moradores em torno da tela grande.

A trajetória também virou cinema. Em 2021, a história de José Aurélio foi registrada no documentário “Cine Aurélio”, dirigido por Kennel Rógis, e posteriormente exibida em festivais.

Depois de construir o próprio cinema, pedreiro agora prepara o filho para continuar a história

José Aurélio e Dona Nenê tiveram sete filhos.

Aos 81 anos, embora continue trabalhando diariamente, ele já pensa no futuro do espaço. Seu filho mais velho, conhecido como Chico, vem aprendendo como funciona a operação do cinema para que possa dar continuidade ao negócio quando o pai já não estiver mais em condições de comandá-lo sozinho.

É um desfecho que conecta diferentes fases da vida de Seu Aurélio.

O menino que observava filmes através de um buraco na parede tornou-se pedreiro, comprou um antigo cinema, passou sete anos reconstruindo o prédio, reabriu a sala aos 71 anos e chegou aos 81 ainda realizando pessoalmente parte do trabalho necessário para mantê-la aberta.

Em uma época em que antigos cinemas de rua desapareceram de diversas cidades, o pequeno Cine Aurélio continua funcionando em Toritama com 97 cadeiras, ingresso de R$ 10 e um proprietário que ainda chega cedo para conferir se está tudo pronto antes que as luzes se apaguem e a próxima sessão comece.

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Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Noel Budeguer.

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