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Pescador mergulha na praia dos Ingleses, tira do fundo raso uma botija de barro e leva pesquisadores a um navio pirata de mais de 300 anos, de onde já saíram 35 mil peças hoje expostas num museu

Pescador mergulha na praia dos Ingleses, tira do fundo raso uma botija de barro e leva pesquisadores a um navio pirata de mais de 300 anos, de onde já saíram 35 mil peças hoje expostas num museu

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Pescador mergulha na praia dos Ingleses, tira do fundo raso uma botija de barro e leva pesquisadores a um navio pirata de mais de 300 anos, de onde já saíram 35 mil peças hoje expostas num museu

Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges

Publicado em 11/08/2026 às 12:27

Atualizado em 11/08/2026 às 12:28

Ciência e Tecnologia

Canal

Uma botija achada por um pescador em 1989 levou à descoberta de um navio pirata do século 17 nos Ingleses, com 35 mil peças já resgatadas.

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Alexandre Viana caçava peixe na parte rasa do mar quando encontrou um pote de cerâmica antigo. O achado virou uma ONG, uma escavação de duas décadas e um museu de 40 metros quadrados que guarda o leme de um barco tomado por piratas ingleses no século 17.

O barco naufragado no século 17 na praia dos Ingleses, no norte da Ilha de Santa Catarina, era um navio pirata, conclusão apresentada por pesquisadores da ONG Projeto de Arqueologia Subaquática e divulgada em reportagem publicada pelo portal ND Mais. A identificação partiu do trabalho do historiador Amílcar D’Avila de Mello, que cruzou documentos e mapas por anos até chegar ao nome da embarcação.

O ponto de partida de toda a investigação, porém, foi um acaso. Em 1989, o pescador submarino Alexandre Viana encontrou uma botija antiga na parte rasa do mar, na praia dos Ingleses, e a partir dessa peça o local se revelou um dos maiores sítios de arqueologia subaquática das Américas, de onde já saíram cerca de 35 mil artefatos.

A botija que começou tudo

Daniel Rian mostra botijas e partes delas, encontradas no fundo do mar, em Ingleses – Flavio Tin/ND

O que Alexandre Viana tirou da água era um recipiente de cerâmica usado para transportar mantimentos em embarcações entre os séculos 15 e 17. Sozinha, a peça poderia não significar muita coisa, mas ela não estava sozinha, e novos objetos foram aparecendo naquela mesma área conforme ele voltava a mergulhar.

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Diante do volume de material, o pescador se associou a outros dois mergulhadores, Narbal Corrêa e Marcelo Lebarbechon Moura, e os três fundaram a organização que passaria a investigar a origem das peças. A pesquisa formal começou em 2004, com aproximadamente R$ 2,4 milhões em investimento da Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Estado de Santa Catarina, e o trabalho de campo passou a ser conduzido com metodologia arqueológica em vez de coleta avulsa.

A confirmação de que se tratava de um navio pirata veio bem depois, em 2011, mas só foi divulgada publicamente pela organização anos mais tarde. Entre a primeira botija e o nome da embarcação passaram-se mais de duas décadas de pesquisa documental e escavação.

Um navio espanhol nas mãos de piratas ingleses

Detalhes do navio pirata no Museu do Naufrágio, em Ingleses – Flavio Tin/ND

A embarcação identificada pelos pesquisadores se chamava Nuestra Señora de Aránzazu e era espanhola, não inglesa. Ela teria sido tomada no litoral do Peru por um grupo de piratas ingleses, e é essa origem que explica a contradição entre o nome do bairro e a nacionalidade real do casco afundado.

O barco integrava uma frota pirata composta por cerca de 900 homens, majoritariamente ingleses e franceses, que saquearam colônias espanholas no Pacífico entre 1684 e 1687. Quando chegou às águas catarinenses, a embarcação trazia uma tripulação reduzida de oito piratas, liderados pelo inglês Thomas Frins, e carregava, segundo os pesquisadores, uma carga de prata tomada nos ataques.

O caminho até o Brasil foi consequência de fuga. Depois de se perder da frota e passar a ser perseguido pelos espanhóis, Frins tentou retornar à Inglaterra pela rota do Atlântico, contornando o continente sul-americano. Uma das linhas de interpretação levantadas pelos pesquisadores é que ele teria aportado na região durante uma tempestade.

A captura por Dias Velho e a vingança que veio depois

O desembarque não correu como planejado. Ao chegar a uma praia ao norte da então Vila de Nossa Senhora do Desterro, o grupo foi surpreendido pelo fundador do povoado, o ex-bandeirante Francisco Dias Velho, que capturou Frins e os homens dele e os enviou presos para Santos, no litoral paulista.

A história, porém, não terminou ali, e o segundo capítulo é o mais violento. Frins voltou a Desterro depois da prisão e matou Dias Velho, no local onde hoje se ergue a Catedral Metropolitana, no centro de Florianópolis. Relatos históricos sobre o episódio descrevem que o bandeirante foi morto a tiro dentro da capela que existia naquele ponto, e que um segundo navio pirata aportou na ilha, na região onde hoje fica a Beira-Mar Norte, com propósito declarado de vingança. O tempo entre a prisão e o assassinato aparece como um ano na reportagem do ND Mais e como dois anos no levantamento do NSC Total.

Depois da morte do fundador, o povoado se esvaziou. A maior parte dos moradores deixou o local, voltando para São Vicente ou seguindo com o filho de Dias Velho, José Pires Monteiro, rumo a Laguna. As informações sobre esse período constam da dissertação de mestrado do pesquisador Angelo Renato Biléssimo, defendida na Universidade de Lisboa.

Por que o bairro se chama Ingleses

O nome do bairro nasceu exatamente desse episódio. A tradição local associa a praia ao naufrágio de um navio comandado por ingleses no século 17, e é dessa memória que vem a designação usada até hoje.

A pesquisa arqueológica acrescentou uma camada de precisão à história popular. O barco não era inglês, era espanhol, e chegou àquelas águas porque havia sido tomado por uma tripulação inglesa do outro lado do continente. O bairro leva o nome dos piratas, não do casco.

Há ainda uma questão geográfica que os pesquisadores precisaram resolver. Os livros de história registram o naufrágio como ocorrido na praia de Canasvieiras, e não em Ingleses. A explicação apresentada é que toda aquela faixa do norte da ilha era chamada assim na época, o que faz das duas versões o mesmo lugar sob nomes diferentes.

Trinta e cinco mil peças, e só 30% do sítio escavado

Leme e parte da quilha da embarcação pirata encontrada nos Ingleses – Flavio Tin/ND

O volume de material recuperado é o que dá dimensão ao achado. Foram cerca de 35 mil artefatos resgatados até agora, e esse número corresponde à escavação de apenas 30% do sítio arqueológico marinho. Os outros 70% continuam no fundo do mar.

A lista do que já saiu da água mistura o técnico e o cotidiano. Há quase 300 gargalos de botijas usadas para transportar mantimentos, balas de revólver e de canhão, lastros móveis e fixos, solas de sapatos, peças de vestimenta, relógios de sol, fragmentos de ossos, pentes de madeira e o sino de bronze da embarcação. Há ainda um metate, moedor de grãos de origem indígena típico da América Central, item que reforça a rota de saques percorrida pela tripulação antes de chegar ao Brasil. Só de fragmentos de cerâmica, a maioria ligada ao preparo e ao armazenamento de comida, são cerca de 11 mil pedaços catalogados.

São as solas de sapato e os pentes de madeira, e não a prata, que contam como aquelas pessoas viviam a bordo. É essa leitura que o presidente da organização, Narbal Corrêa, resume ao dizer que começou a operação imaginando abrir um baú e ficar rico, e descobriu, diante dos objetos comuns, que o tesouro real era outro.

O leme de uma tonelada que fica dentro da água

A peça mais imponente do acervo não cabe em prateleira. O leme da embarcação é feito de carvalho vermelho, pesa quase uma tonelada e permanece imerso em uma piscina na frente do museu, junto com um pedaço da quilha.

A razão para manter a peça na água é técnica e urgente. Madeira que passou séculos submersa se desfaz quando exposta ao ar, porque a água que preencheu as fibras evapora e a estrutura colapsa. Enquanto não houver recurso para um tratamento definitivo, a solução é mantê-la molhada, e isso exige troca de água a cada 15 dias, tarefa que integra a rotina de quem cuida do acervo.

O plano técnico apresentado pela organização é retirar o leme da água doce e conservá-lo em polietilenoglicol, substância usada em conservação de madeira arqueológica que substitui gradualmente a água nas fibras e permite a secagem sem deformação. Sem esse tratamento, a peça só existe enquanto estiver submersa.

Um museu de 40 metros quadrados no canto da praia

Tudo o que foi resgatado está reunido no Museu do Naufrágio, instalado no canto direito da praia dos Ingleses, em um espaço de aproximadamente 40 metros quadrados cedido pelo Costão do Santinho Resort, que também fornece material para conservação do acervo.

A visitação é gratuita e acontece de terça a domingo, das 14h às 20h, com exceção do último domingo de cada mês. Quem recebe o público e conta a história é Daniel Rian, funcionário do resort e curador do espaço desde a fundação, responsável também pela catalogação, pela dessalinização e pela secagem das peças. O museu recebe turistas, moradores e estudantes ao longo de todo o ano, e o balanço apresentado em 2019 registrava quase 3,5 mil visitantes no ano anterior e mais de 27 mil pessoas acumuladas em 14 anos de funcionamento.

A limitação de espaço é evidente para qualquer visitante. As peças ocupam balcão, prateleiras e caixas empilhadas, e a reivindicação da equipe é por um local climatizado, com condições adequadas de conservação e de recepção de público.

A escavação que parou por falta de dinheiro

Os trabalhos de campo estão suspensos desde 2010, e o motivo é orçamentário. Sem recurso novo depois do aporte inicial da fundação estadual de pesquisa, a escavação foi interrompida com 70% do sítio ainda intocado.

O plano apresentado pela organização é montar um novo projeto para captar verba por meio de leis de incentivo à cultura, retomar as escavações, equipar o laboratório e construir uma estrutura adequada para o museu. É uma agenda que depende inteiramente de financiamento externo, e que segue pendente desde então.

E você, sabia que existe um navio pirata do século 17 enterrado no fundo do mar de Florianópolis, com 70% da carga ainda lá embaixo? Conta nos comentários se você já visitou o museu ou se conhece alguma história parecida na sua região.


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Maria Heloisa Barbosa Borges.

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