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Pescador passa anos entre redes, barcos e venda de camarão para sustentar 7 filhos, consegue ver todos formados no ensino superior e uma das filhas chegar ao comando de universidade pública após atravessar rios para estudar
Escrito por Alisson Ficher
Publicado em 04/08/2026 às 18:28
Atualizado em 04/08/2026 às 18:37
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Trajetória de uma família maranhense une trabalho na pesca, sete diplomas universitários e uma ascensão construída entre rios, mudanças de cidade e décadas de estudo, até que uma das filhas alcançou o comando de uma instituição pública de ensino superior no interior do estado.
O pescador Antônio Clemente sustentou sete filhos com a renda obtida na pesca e na venda de camarão na Ilha de Peru, comunidade pertencente ao município de Cururupu, no litoral do Maranhão, onde a família construiu sua rotina em torno do trabalho e dos estudos.
Mesmo tendo cursado apenas parte do ensino fundamental, ele transformou a educação em prioridade doméstica e conseguiu acompanhar todos os filhos até o ensino superior, enquanto uma das filhas, Luciléa Ferreira Lopes Gonçalves, avançou ainda mais e chegou ao comando de uma universidade pública.
Reunidos na mesma trajetória, esses dois resultados revelam a dimensão do esforço familiar: os sete filhos de um trabalhador da pesca conquistaram diplomas universitários, e uma menina criada em comunidade insular tornou-se a primeira reitora eleita da Universidade Estadual da Região Tocantina do Maranhão.
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Acostumada desde cedo a enfrentar temporais, rios e mar revolto nos deslocamentos para estudar, Luciléa percorreu um caminho marcado por mudanças geográficas e responsabilidades pessoais, até alcançar o posto mais alto de uma instituição pública instalada no interior do estado.
Pescador transformou a educação dos filhos em prioridade
Segundo reportagem do Correio Braziliense, Antônio Clemente vendia camarão no Pará e percebeu, durante as viagens de trabalho, que a escolarização poderia ampliar as possibilidades dos filhos, razão pela qual passou a direcionar parte essencial do esforço familiar à permanência das crianças na escola.
Mais do que garantir matrícula, o incentivo aparecia na rotina diária, pois Luciléa estudava literatura e tabuada desde pequena, conteúdos valorizados pelo pai tanto pela formação escolar quanto pela utilidade prática no comércio de pescados mantido pela família.
Ao aprender a calcular vendas e dividir lucros, a menina aproximava o conteúdo escolar das tarefas econômicas vividas dentro de casa, enquanto o pai reforçava a ideia de que o conhecimento poderia abrir caminhos além daqueles oferecidos pela atividade pesqueira.
Nascida na Ilha de Peru e quarta entre sete irmãos, Luciléa viveu na comunidade até os 10 anos, período em que parte do trajeto para a escola era feita pelos rios da região, sempre sujeita às mudanças do tempo e às condições do mar.
Antes mesmo de se tornar sua área profissional, a geografia já fazia parte do cotidiano da futura professora, acompanhando os primeiros anos de escolarização por meio do ambiente insular, dos deslocamentos por água e das mudanças de território vividas ao longo da infância.
Quando deixou a ilha para continuar os estudos, Luciléa iniciou uma formação que a conduziria à docência, à pesquisa e à gestão universitária, sem romper a ligação com o ensino público maranhense nem com a origem familiar construída em uma comunidade pesqueira.
Da comunidade insular à formação acadêmica
A etapa universitária exigiu nova mudança, e em 1988 ela seguiu para Imperatriz a fim de cursar licenciatura plena em geografia, conciliando a graduação com o trabalho, a maternidade e as aulas ministradas na educação básica e no ensino superior.
Depois da graduação, a formação acadêmica avançou por diferentes instituições, com especialização em geografia na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, mestrado em educação ambiental em Cuba e outro mestrado em geografia realizado na Universidade Federal do Paraná.
Iniciada em 1990, a docência na Universidade Estadual do Maranhão foi acompanhada por 25 anos de atuação no ensino médio, período em que Luciléa acumulou jornadas na universidade, na escola e dentro de casa, mantendo atividades em diferentes etapas da educação.
Criada em 2016 após o desmembramento da Universidade Estadual do Maranhão, a Universidade Estadual da Região Tocantina do Maranhão passou a atender Imperatriz e municípios do entorno, ampliando a presença do ensino superior público no interior do estado.
Luciléa chegou ao comando de uma universidade pública
O caminho de Luciléa até a reitoria não começou como um projeto pessoal declarado, porque seu nome surgiu durante uma reunião e, inicialmente, ela seria candidata a vice-reitora na chapa formada com a professora Lílian Castelo Branco.
Convencida a assumir a liderança da candidatura, Luciléa disputou a votação e saiu vencedora, tornando-se a primeira reitora eleita da Uemasul e acrescentando um novo capítulo à história iniciada entre barcos, redes de pesca e viagens para estudar.
A posse ganhou repercussão nas redes sociais depois que João Paulo, filho da professora, publicou uma fotografia da cerimônia, aproximando simbolicamente a origem em uma família sustentada pela pesca da chegada ao comando de uma instituição pública de ensino superior.
Durante a gestão universitária, Luciléa assumiu projetos voltados à expansão acadêmica e à reorganização administrativa, incluindo áreas dedicadas à extensão e aos assuntos estudantis, a implantação de uma editora, a melhoria de espaços de pesquisa e a ampliação de cursos e vagas.
Também passaram a integrar essa atuação iniciativas relacionadas à formação avançada, com a criação de cursos de mestrado e doutorado e a ampliação de áreas como direito e medicina, mantendo o acesso ao ensino superior como um dos pontos centrais da administração.
Por trás da trajetória da reitora, permanece o trabalho de Antônio Clemente, que continuou ligado à pesca e à venda de camarão enquanto direcionava recursos, disciplina e incentivo para que os sete filhos mantivessem os estudos e alcançassem a formação universitária.
Sete filhos conquistaram diplomas universitários
Embora não tivesse completado a própria escolarização, o pescador tratou o ensino superior como uma possibilidade concreta para toda a família, e o resultado apareceu nos sete diplomas conquistados pelos filhos ao longo de anos de esforço compartilhado.
Entre todos os percursos, Luciléa construiu uma carreira que passou pela educação básica, pela pós-graduação, pela pesquisa, pela docência e pela administração acadêmica, sempre sustentada por décadas de estudo e trabalho em instituições de ensino público.
Ligando diferentes pontos do Maranhão, a história começa em uma comunidade pesqueira de Cururupu, atravessa rios usados nos deslocamentos escolares e segue até Imperatriz, onde Luciléa consolidou a carreira universitária e assumiu a liderança da Uemasul.
Redes, barcos, camarão, salas de aula e decisões administrativas passaram a ocupar a mesma narrativa familiar, mostrando como a prioridade dada aos estudos por Antônio Clemente acompanhou os sete filhos e alcançou, em uma geração, o comando de uma universidade pública.
Até que ponto histórias como a de Antônio Clemente mostram o impacto que uma família pode alcançar quando a educação recebe, desde os primeiros anos, prioridade constante mesmo diante de limitações financeiras, geográficas e profissionais?
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Alisson Ficher.

