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Pescadores mergulharam 40 metros e encontraram estátuas, bronzes e dezenas de colunas de mármore, revelando um navio de 2 mil anos carregado com obras de arte destinadas à elite romana
Escrito por Valdemar Medeiros
Publicado em 22/08/2026 às 22:48
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Pescadores de esponjas encontraram a 40 metros de profundidade o naufrágio de Mahdia, navio de mais de 2 mil anos carregado com esculturas, bronzes e dezenas de colunas de mármore.
Em junho de 1907, mergulhadores gregos que procuravam esponjas naturais diante da costa da Tunísia desceram aproximadamente 40 metros e encontraram no fundo do Mediterrâneo algo muito maior do que uma peça antiga isolada. A poucos quilômetros de Mahdia havia dezenas de colunas de mármore, esculturas de bronze, estátuas, mobiliário e objetos cotidianos espalhados sobre os restos de um enorme navio mercante que havia afundado por volta de 80 a 70 a.C.
O chamado naufrágio de Mahdia acabaria se tornando uma das descobertas subaquáticas mais importantes da arqueologia mediterrânea. O Ministério da Cultura da França chega a tratar 1907 como uma espécie de “ano zero da arqueologia subaquática”, porque as escavações realizadas posteriormente no sítio ajudaram a abrir caminho para uma disciplina que ainda praticamente não existia. Hoje, grande parte dos objetos retirados do fundo do mar está preservada no Museu Nacional do Bardo, em Túnis.
Tudo começou com homens que mergulhavam para procurar esponjas
Os responsáveis pela descoberta não eram arqueólogos. Eram pescadores gregos especializados na coleta de esponjas, atividade que no começo do século XX exigia mergulhos extremamente arriscados. Eles utilizavam os chamados equipamentos de “pés pesados”, formados por traje, capacete metálico e botas com solas de chumbo que podiam pesar entre 10 e 20 kg.
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O ar era fornecido da superfície enquanto o mergulhador caminhava praticamente ereto sobre o leito marinho.
Foi usando esse equipamento rudimentar que, em 1907, os homens alcançaram aproximadamente 40 metros de profundidade diante de Mahdia e perceberam que havia antiguidades espalhadas pelo fundo.
Primeiros relatos falavam em enormes pilhas de colunas
Um documento publicado em 1908 por Alfred Merlin, então diretor do serviço de antiguidades da Tunísia, revela como os primeiros mergulhadores descreveram o cenário.
Segundo o relato original, havia grupos inteiros de colunas de mármore. Algumas chegavam a aproximadamente 5 metros de comprimento e 70 centímetros de diâmetro. Um dos agrupamentos teria entre 60 e 80 peças.
Entre essas colunas também apareciam objetos de bronze. Uma campanha posterior, em 1909, confirmou aproximadamente 60 colunas organizadas em seis fileiras sobre o sítio, a cerca de 39 metros de profundidade.
Aquilo não era uma ruína construída no fundo do mar. Era a carga de um navio.
Navio havia afundado há mais de 2 mil anos
As pesquisas situam o naufrágio aproximadamente entre 80 e 70 a.C., no final da República Romana.
O que restou da embarcação e sua carga indicava um grande navio mercante mediterrâneo. Uma base europeia de patrimônio marítimo atribui à embarcação dimensões estimadas de aproximadamente 40 metros de comprimento por 14 metros de largura, embora reconstruções precisas de navios tão antigos sempre envolvam algum grau de incerteza.
A carga, porém, não deixa dúvidas quanto à dimensão da operação comercial.
Ela incluía esculturas, elementos arquitetônicos, peças de mobiliário, objetos domésticos, bronzes e uma enorme quantidade de pedra trabalhada.
Mais de 60 colunas poderiam representar centenas de toneladas
O levantamento do patrimônio marítimo europeu registra mais de 60 colunas de mármore, atribuindo ao conjunto um peso aproximado de 200 toneladas.
Inventários arqueológicos mais detalhados mencionam cerca de 70 fustes de colunas, além de três capitéis dóricos, mais de 20 capitéis jônicos, bases arquitetônicas e 18 elementos ornamentados com cabeças de grifos e leões.
Havia também grandes vasos e candelabros de mármore. O navio, portanto, transportava praticamente os componentes necessários para decorar propriedades monumentais.
Entre a carga apareceram esculturas gregas extraordinárias
O tesouro não estava apenas no peso do mármore. Diversas esculturas de bronze sobreviveram ao naufrágio.
Entre as peças mais importantes está uma figura de jovem alado, geralmente identificada como Eros ou Agon, com aproximadamente 1,40 metro de altura e datada do final do século II a.C.
Outro achado foi uma herma de bronze associada ao escultor Boethos de Calcedônia, importante artista helenístico cujo nome aparece inscrito na obra.
Também foram encontrados sátiros, figuras de atores, pequenos dançarinos, representações de Hermes, Eros, Atena e outros elementos decorativos.
Uma parte da carga parecia mobiliário de luxo
O navio carregava muito mais que estátuas destinadas à exibição. Inventários arqueológicos incluem componentes de camas ou divãs ornamentados em bronze, candelabros, luminárias, recipientes metálicos e peças decorativas destinadas a móveis.
Foram identificados ainda 17 recipientes de bronze e diferentes tipos de lâmpadas.
Esse conjunto é fundamental para os arqueólogos porque revela como as elites do Mediterrâneo romano importavam não apenas esculturas monumentais gregas, mas praticamente um universo completo de decoração e mobiliário sofisticado.
Arqueólogos acreditam que carga saiu da região de Atenas
A interpretação mais difundida é que o navio teria partido do Pireu, porto de Atenas, em direção ao oeste do Mediterrâneo.
O Ministério da Cultura francês considera que a carga sugere uma viagem entre Pireu e Roma, possivelmente destinada a um comprador rico interessado em mobiliário e arte grega.
O Instituto Nacional do Patrimônio da Tunísia apresenta a mesma hipótese geral: obras e elementos arquitetônicos gregos seriam levados para uma residência da elite romana.
Carga pode ter relação com o saque romano de Atenas
Existe uma hipótese ainda mais dramática. Em 86 a.C., o general romano Lúcio Cornélio Sula conquistou e saqueou Atenas durante a guerra contra Mitrídates VI.
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Como o naufrágio aconteceu poucas décadas ou anos depois e transportava grande quantidade de obras gregas, pesquisadores levantaram a possibilidade de que parte da carga tivesse relação com espólios retirados da Grécia após as campanhas romanas.
Outra possibilidade é mais comercial: empresários estariam simplesmente transportando obras gregas antigas e contemporâneas para atender à enorme procura da aristocracia romana por arte helenística.
Uma tempestade pode ter lançado o navio contra a costa africana
A posição do naufrágio também criou outra pergunta. Se o navio navegava da Grécia para a Itália, por que terminou no fundo do mar diante da Tunísia?
A hipótese mais comum é que uma tempestade tenha desviado a embarcação para o sul, empurrando-a em direção à costa norte-africana.
O navio teria então afundado com praticamente toda sua preciosa carga. O resultado, porém, foi a criação involuntária de uma cápsula arqueológica preservada por cerca de dois milênios.
Alfred Merlin iniciou as escavações ainda em 1907
A descoberta rapidamente chegou às autoridades. Um telegrama enviado em 21 de junho de 1907 por Alfred Merlin anunciava a identificação subaquática de estátuas e fragmentos arquitetônicos de bronze perto de Mahdia.
Merlin assumiu os trabalhos arqueológicos e conduziu campanhas entre 1907 e 1913. As condições eram extremamente diferentes da arqueologia subaquática atual.
O arqueólogo permanecia em grande parte dependente dos mergulhadores que desciam usando os pesados escafandros e relatavam aquilo que conseguiam enxergar e recuperar.
Escavação de 1910 encontrou bronzes debaixo das colunas
À medida que os trabalhos avançavam, ficou claro que parte do navio continuava preservada sob toneladas de carga.
Durante a campanha de 1910, os pesquisadores abriram áreas entre e sob as grandes colunas. Primeiro encontraram uma camada de madeira decomposta correspondente à estrutura da embarcação. Abaixo dela apareceram novos objetos de bronze.
Somente em uma das áreas foram recuperadas cinco pequenas esculturas de bronze em excelente estado de conservação. O cenário mostrava que as enormes colunas haviam funcionado, em determinados pontos, como uma espécie de tampa sobre partes da carga.
Tesouro hoje pode ser visto no Museu Nacional do Bardo
Grande parte das obras recuperadas foi enviada ao atual Museu Nacional do Bardo, em Túnis.
O museu mantém uma seção específica dedicada ao naufrágio, incluindo esculturas, objetos arquitetônicos e uma reconstrução da embarcação.
Mais de um século depois da descoberta, o conjunto continua permitindo aos pesquisadores estudar a circulação de arte grega durante a expansão romana.
E tudo começou sem que ninguém estivesse procurando um navio antigo. Em 1907, pescadores gregos mergulharam cerca de 40 metros na costa tunisiana atrás de esponjas.
No lugar delas, encontraram colunas gigantescas e bronzes espalhados na escuridão. O que emergiu nos anos seguintes revelou um navio afundado há mais de dois mil anos carregando tamanha quantidade de obras de arte, móveis e arquitetura que sua perda no Mediterrâneo acabou preservando um retrato extraordinário da obsessão da elite romana pela cultura grega.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Valdemar Medeiros.

