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Pesquisadores brasileiros criam fogão movido a energia solar capaz de cozinhar alimentos sem botijão de gás, usando apenas a energia do sol e muda o cenário para pessoas de baixa renda
Escrito por Valdemar Medeiros
Publicado em 18/08/2026 às 10:12
Atualizado em 18/08/2026 às 10:27
Ciência e Tecnologia
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Pesquisadores da UFRN desenvolveram fogões e fornos solares de baixo custo capazes de cozinhar, assar e aquecer alimentos usando somente a radiação do sol, sem consumir gás de cozinha. Protótipos feitos com sucata, espelhos, MDF e outros materiais chegaram a assar nove bolos simultaneamente e mostram uma alternativa que volta a chamar atenção diante do botijão de 13 kg custando, em média, cerca de R$ 114 no Brasil em agosto de 2026.
Um equipamento coberto por espelhos, parecido à primeira vista com uma antena parabólica, consegue concentrar a luz do sol até produzir calor suficiente para preparar alimentos sem usar uma única grama de gás de cozinha. Segundo a Folha de S.Paulo, pesquisadores ligados à Universidade Federal do Rio Grande do Norte, a UFRN, desenvolveram diferentes protótipos de fogões, fornos e secadores solares utilizando espelhos, sucata e materiais de baixo custo.
A tecnologia foi divulgada em 2018, depois de décadas de estudos realizados na universidade, mas ganha nova relevância diante do peso do gás de cozinha no orçamento doméstico. Na semana de 9 a 15 de agosto de 2026, o botijão de GLP de 13 kg custava em média R$ 113,89 no país, segundo dados da ANP reproduzidos pela Federação Nacional do Comércio de Combustíveis e Lubrificantes. A própria ANP mantém levantamento semanal específico para o GLP P13.
Fogão solar da UFRN transforma luz do sol diretamente em calor
A lógica utilizada pelos pesquisadores é relativamente simples. Os espelhos recebem a radiação solar e redirecionam essa energia para uma região específica do equipamento, elevando a temperatura necessária para cozinhar ou aquecer alimentos. Não é preciso painel fotovoltaico, tomada nem geração intermediária de eletricidade.
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Nos modelos estudados pela UFRN, a energia solar pode ser usada para aquecer água, cozinhar, secar e assar alimentos. Dependendo do projeto, os pesquisadores empregam superfícies refletoras para concentrar a radiação ou estruturas fechadas que retêm o calor e produzem um efeito semelhante ao de uma estufa.
A vantagem central aparece justamente no combustível: enquanto um fogão convencional depende continuamente de GLP, gás natural ou eletricidade, o solar utiliza uma fonte que chega gratuitamente ao equipamento. A limitação é igualmente clara: sua capacidade depende diretamente das condições de insolação.
Um dos protótipos custou apenas R$ 150 para ser construído
Entre os equipamentos apresentados pelos pesquisadores estava um forno solar cujo custo total de fabricação foi estimado em R$ 150 na época do desenvolvimento. O valor correspondia, em 2018, aproximadamente ao preço de duas recargas de botijão de gás mencionado pela reportagem.
O modelo foi idealizado pelo engenheiro Mário César de Oliveira Spinelli durante seu mestrado na UFRN. Para fabricá-lo, foram utilizados MDF, espelhos e uma placa metálica produzida com uma combinação de resina sintética e malha de ferro.
O objetivo não era criar um eletrodoméstico sofisticado, mas demonstrar que materiais simples e relativamente baratos poderiam ser organizados de forma a capturar e conservar energia solar suficiente para realizar tarefas normalmente dependentes do fogão ou do forno doméstico.
Forno solar conseguiu assar nove bolos ao mesmo tempo
O teste que melhor demonstra a capacidade do equipamento envolveu algo bastante concreto: nove bolos colocados simultaneamente dentro do forno solar. Segundo a reportagem, todos foram assados usando exclusivamente energia captada do sol.
O processo levou aproximadamente uma hora e meia. Um forno convencional conseguiria concluir a tarefa cerca de 20 minutos antes, segundo a comparação apresentada pelos pesquisadores, mas não necessariamente teria espaço interno para nove assadeiras simultâneas.
O experimento era importante justamente porque a grande quantidade de alimento poderia comprometer a temperatura interna. Spinelli explicou que havia dúvida sobre a capacidade de manter o desempenho térmico com uma carga tão elevada, mas o teste demonstrou a viabilidade da proposta.
Pesquisadores chegaram a transformar pneus descartados em forno solar
Outro projeto desenvolvido dentro dessa linha de pesquisa mostrou que o equipamento poderia ser construído com materiais ainda mais inesperados.
O engenheiro Pedro Henrique de Almeida Varela estudou a viabilidade térmica de um forno solar produzido com sucatas de pneus.
Além dos pneus descartados, o protótipo utilizava latas vazias de cerveja e uma urupema, tipo de peneira tradicional. A ideia era unir aproveitamento de resíduos e energia renovável dentro de um único equipamento de cocção.
Nos testes, o forno foi utilizado para preparar pizza, bolo, lasanha e empanados, com resultados considerados satisfatórios pelo pesquisador. O trabalho mostrou que a aplicação não precisava ficar restrita ao simples aquecimento de água ou a preparações muito específicas.
Fogão com quatro focos consegue preparar vários alimentos simultaneamente
O laboratório da UFRN também avançou para uma questão importante dentro de qualquer cozinha: preparar diferentes pratos ao mesmo tempo. Entre os projetos desenvolvidos apareceu um fogão solar multifocal com quatro pontos de cocção.
Segundo Luiz Guilherme Meira de Souza, professor que coordenava o Laboratório de Máquinas Hidráulicas do curso de Engenharia Mecânica, o sistema permitia cozinhar quatro tipos de alimentos simultaneamente. Sua construção utilizava resíduos industriais e fibras de juta.
Essa evolução é relevante porque um fogão solar com apenas um ponto de concentração pode limitar a rotina de uma família. A existência de diferentes focos aproxima o conceito da lógica de um fogão doméstico convencional, embora o modo de operação e a dependência do clima continuem diferentes.
Botijão de gás custa hoje quase o valor total do antigo protótipo
Quando o forno de R$ 150 foi apresentado pela reportagem, esse custo equivalia aproximadamente a duas recargas de GLP. O cenário nominal mudou bastante. Na pesquisa mais recente disponível da ANP, referente à semana de 9 a 15 de agosto de 2026, o GLP P13 registrou preço médio nacional em torno de R$ 113,89.
Isso significa que um único botijão hoje custa nominalmente quase três quartos dos R$ 150 usados para construir aquele protótipo experimental anos atrás.
A comparação não representa o preço atual necessário para reproduzir o equipamento, pois materiais, mão de obra e demais custos também mudaram desde então.
Nordeste possui uma vantagem natural para o uso da energia solar
A localização dos experimentos também favorece esse tipo de tecnologia. A Empresa de Pesquisa Energética informa que as regiões brasileiras com melhores níveis de incidência de radiação solar estão no Nordeste, condição importante para qualquer equipamento que dependa diretamente do Sol.
Natal, onde está instalada a Universidade Federal do Rio Grande do Norte, oferece justamente o tipo de ambiente em que pesquisadores podem avaliar com frequência sistemas térmicos baseados em radiação solar. A disponibilidade de sol, contudo, não significa funcionamento contínuo durante todas as horas do dia.
Nos testes descritos pela equipe, fogões e fornos apresentavam funcionamento satisfatório em condições solares adequadas principalmente entre 9h e 14h. Nuvens, chuva, baixa incidência solar e horários menos favoráveis reduzem o desempenho e representam uma diferença fundamental em relação ao fogão a gás.
Tecnologia pode reduzir consumo de gás, mas depende do clima
A expressão “substituir o botijão” usada pelos pesquisadores está relacionada à capacidade técnica de realizar cocção sem GLP durante períodos favoráveis. Um equipamento solar não oferece, porém, a mesma disponibilidade de uma chama a gás durante 24 horas por dia.
Isso significa que seu impacto mais realista pode aparecer na redução do consumo do botijão, especialmente em regiões de alta insolação.
Preparações feitas durante o período mais ensolarado poderiam deixar de consumir GLP, prolongando a duração de uma carga convencional mantida como alternativa para noites ou dias nublados.
Há também cuidados específicos durante o uso. Como os sistemas refletores concentram luz intensa, a reportagem registrou recomendação de proteção dos olhos durante o manuseio, evitando exposição direta ao reflexo produzido pelas superfícies espelhadas.
Fogão solar mostra como uma fonte gratuita pode chegar diretamente à cozinha
A característica mais surpreendente da tecnologia está na simplicidade de sua fonte energética. A radiação do Sol chega ao equipamento, é direcionada ou aprisionada na forma de calor e termina realizando uma tarefa que milhões de residências brasileiras executam diariamente queimando GLP.
O projeto da UFRN mostrou que isso pode ser feito inclusive com sucata, espelhos, MDF, pneus descartados, latas e fibras vegetais, dependendo do protótipo. Em um dos testes, R$ 150 em materiais foram suficientes para construir um forno capaz de assar nove bolos simultaneamente em 90 minutos.
Oito anos depois da reportagem que tornou esses experimentos conhecidos nacionalmente, o botijão de 13 kg permanece como item essencial e custava em média quase R$ 114 no Brasil em agosto de 2026.
Entre a dependência do clima e a vantagem de não consumir combustível durante o uso, o fogão solar brasileiro continua mostrando uma possibilidade incomum: transformar o sol que chega gratuitamente ao quintal em calor suficiente para colocar comida na mesa.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Valdemar Medeiros.

