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Plataformas de petróleo trouxeram um coral invasor do Pacífico para a Bacia de Campos nos anos 1980, ele tomou 3 mil km da costa brasileira e catadores arrancaram 230 mil colônias do fundo com dinheiro de compensação de um vazamento

Plataformas de petróleo trouxeram um coral invasor do Pacífico para a Bacia de Campos nos anos 1980, ele tomou 3 mil km da costa brasileira e catadores arrancaram 230 mil colônias do fundo com dinheiro de compensação de um vazamento

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Plataformas de petróleo trouxeram um coral invasor do Pacífico para a Bacia de Campos nos anos 1980, ele tomou 3 mil km da costa brasileira e catadores arrancaram 230 mil colônias do fundo com dinheiro de compensação de um vazamento

Escrito por Bruno Teles

Publicado em 17/08/2026 às 12:36

Atualizado em 17/08/2026 às 12:43

Meio Ambiente

Coral invasor do Pacífico chegou em plataformas de petróleo nos anos 1980 e tomou 3 mil km da costa; catadores já arrancaram 230 mil colônias do coral-sol

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O coral invasor é o coral-sol, combatido desde 2006 pelo Projeto Coral-Sol do Instituto Brasileiro de Biodiversidade, que soma mais de 160 ações de manejo, 8,3 toneladas retiradas por mergulhadores e a erradicação total registrada numa ilha da Estação Ecológica de Tamoios, em Angra dos Reis, no litoral do Rio

Um coral invasor vindo do Oceano Pacífico pegou carona em plataformas de petróleo, apareceu na Bacia de Campos na década de 1980 e hoje ocupa mais de 3 mil quilômetros da costa brasileira, de Santa Catarina ao Ceará. O coral-sol, nome popular das espécies Tubastraea coccinea e Tubastraea tagusensis, virou alvo de uma operação de catadores subaquáticos que já arrancou mais de 230 mil colônias do fundo do mar, cerca de 8,3 toneladas. As informações são do Instituto Brasileiro de Biodiversidade, o BrBio, no relatório do subprojeto O Controle do Coral-Sol e a Conservação Marinha, executado de 2017 a 2019 dentro do TAC Frade, o acordo de compensação firmado pela Chevron com o Ministério Público Federal após o vazamento de petróleo de 2011 na Bacia de Campos.

O detalhe que dá o tom da história está no financiamento: a limpeza do estrago que chegou pelas plataformas é bancada, em boa parte, por dinheiro que a própria indústria do petróleo pagou em compensações ambientais. Faz a conta da ironia: o setor que trouxe o invasor sem querer virou o caixa da operação que tenta tirá-lo da água.

Carona nas plataformas dos anos 1980 espalhou o coral de SC ao CE

Coral invasor do Pacífico chegou em plataformas de petróleo nos anos 1980 e tomou 3 mil km da costa; catadores já arrancaram 230 mil colônias do coral-sol

O gênero Tubastraea foi registrado pela primeira vez no Brasil na década de 1980, grudado em plataformas de petróleo na Bacia de Campos, no litoral fluminense. As duas espécies encontradas por aqui são nativas do Pacífico e não tinham nenhum predador esperando por elas no Atlântico Sul, receita clássica de bioinvasão, o processo que os cientistas apontam como uma das maiores ameaças aos ecossistemas marinhos do planeta. De lá para cá, o coral se espalhou por mais de 20 municípios, num trecho de costa que passa de 3 mil quilômetros, o equivalente a cerca de 40% de todo o litoral brasileiro.

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Pensa no tamanho disso: uma espécie que chegou de carona em estruturas de aço hoje aparece de Santa Catarina ao Ceará, e segue em expansão, segundo o BrBio. O nome bonito engana, porque o coral-sol, de colônias alaranjadas que enfeitariam qualquer aquário, é comprovadamente nocivo às comunidades marinhas nativas, com impactos que o instituto classifica como ecológicos, econômicos e sociais ao mesmo tempo.

Invasor muda metade da vida do costão e expulsa até o mexilhão

Nos costões onde o coral-sol se instala, a composição e a abundância das espécies mudam em aproximadamente 50%, segundo os levantamentos do subprojeto. Em vez de uma comunidade variada de algas, esponjas e corais nativos dividindo espaço, o invasor forma tapetes que dominam a pedra e empurram os vizinhos para fora, ameaçando a sobrevivência das espécies locais e a cadeia produtiva que depende delas.

Na Baía da Ilha Grande, em Angra dos Reis, o mexilhão Perna perna, espécie da fauna local com valor direto para maricultores e pescadores, vem sendo substituído pelo coral-sol nos costões, exemplo citado pelo BrBio do prejuízo econômico da invasão. A densidade do invasor naquela baía chega a ser pelo menos 10 vezes maior que a registrada na Região dos Lagos, o que faz da Costa Verde fluminense o epicentro nacional do problema.

Catadores de coral-sol já arrancaram 8,3 toneladas do fundo

Coral invasor do Pacífico chegou em plataformas de petróleo nos anos 1980 e tomou 3 mil km da costa; catadores já arrancaram 230 mil colônias do coral-sol

O Projeto Coral-Sol, criado pelo BrBio em 2006, montou a resposta que virou referência: mergulhadores capacitados descem aos costões e arrancam as colônias uma a uma, na mão, seguindo protocolos desenvolvidos pelo próprio projeto. Os chamados catadores de coral-sol, atuando principalmente na Baía da Ilha Grande, já retiraram mais de 230 mil colônias do invasor em mais de 160 ações de manejo pelo litoral, um total de 8,3 toneladas arrancadas da pedra, mais que o peso de cinco picapes grandes.

Na Estação Ecológica de Tamoios, unidade de conservação federal na Baía da Ilha Grande, as remoções derrubaram a população do invasor e chegaram à erradicação total em uma das ilhas da unidade, prova de que o método funciona quando é repetido. Os estudos experimentais do projeto descobriram ainda uma fraqueza barata do inimigo: o coral-sol morre depois de mergulhado em água doce, o que simplifica o descarte das colônias arrancadas.

Pesquisa de 2017 a 2019 achou a receita que zera a praga

Entre 2017 e 2019, o subprojeto financiado pelo TAC Frade testou métodos de manejo em três pontos com condições diferentes: a Ilha Comprida, no Arquipélago das Cagarras, no Rio, a Ilha de Âncora, em Armação dos Búzios, e a Enseada do Bananal, na Ilha Grande. O método de remoção repetida, com os mergulhadores voltando ao mesmo costão em campanhas sucessivas, zerou a população do invasor nos três locais, enquanto as remoções únicas se mostraram úteis apenas onde a colonização ainda é recente e rala.

O mapeamento pela escala DAFOR mostrou o tamanho da diferença entre as regiões: na Baía da Ilha Grande, 100 dos 153 pontos avaliados estavam infestados, contra 19 de 45 na Região dos Lagos e apenas 3 de 34 pontos rasos no litoral do Rio e de Niterói, sempre em ilhas. A pesquisa também derrubou um medo antigo dos gestores: a quantidade de larvas no plâncton não aumentou durante as remoções, ou seja, arrancar as colônias não espalha a praga. Nos pontos monitorados, a espécie Tubastraea tagusensis apareceu com mais frequência que a Tubastraea coccinea, e o único local com dominância completa do invasor foi a Ilha de Âncora, em Búzios.

Dinheiro da Chevron banca a limpeza, e Petrobras e Vale entraram na conta

Coral invasor do Pacífico chegou em plataformas de petróleo nos anos 1980 e tomou 3 mil km da costa; catadores já arrancaram 230 mil colônias do coral-sol

Em novembro de 2011, um vazamento de mais de 3 mil barris de petróleo no Campo de Frade, na Bacia de Campos, abriu o caixa que hoje financia a caça ao coral invasor: o desastre levou a Chevron a assinar com o MPF um Termo de Ajustamento de Conduta, homologado pela Justiça em 2013, destinando R$ 95 milhões a projetos sociais e ambientais, com gestão do Fundo Brasileiro para a Biodiversidade, o Funbio, conforme registrado pela Câmara dos Deputados e pelo Estado de Minas na época. O Projeto Coral-Sol recebe recursos recorrentes desse acordo, segundo o portal Waves.

Em 2021, um segundo TAC ampliou a lista de pagadores: o MPF fechou acordo com Petrobras, Transpetro, o estaleiro Brasfels e a Vale para custear o monitoramento e o combate ao coral-sol na Baía da Ilha Grande, fruto da ação civil pública de 2015 que buscava os responsáveis pela introdução do invasor na região, conforme noticiou o portal de jornalismo ambiental O Eco. No mesmo período em que arrancava colônias do fundo, o subprojeto levou o assunto para fora d’água: palestras, oficinas, exposições no AquaRio e ações em escolas de Búzios e da Ilha Grande alcançaram 36.446 pessoas, uma oficina reuniu 30 gestores de unidades de conservação com equipes do Inea e do Ibama, mergulhadores voluntários registraram 65 ocorrências do coral e a plataforma bioinvasaobrasil.org.br entrou no ar para concentrar os dados.

Campo de Frade mudou de dono e a conta ambiental segue aberta

A petroleira Prio, que assumiu a operação do Campo de Frade, herdou também as medidas compensatórias do TAC, com R$ 40 milhões em investimentos em municípios da costa fluminense sob gestão do Funbio, conforme reportagem do site Plurale que acompanhou os projetos apoiados na Ilha Grande. O coral-sol, por sua vez, continua listado pelo BrBio como espécie em expansão na costa, o que mantém catadores, pesquisadores e gestores no mesmo ciclo de mapear, arrancar e vigiar.

Em quatro décadas, o coral invasor saiu das plataformas da Bacia de Campos para 40% do litoral do país, e a resposta brasileira virou caso de estudo: 230 mil colônias arrancadas na mão, uma ilha oficialmente limpa, um método validado pela ciência e duas rodadas de acordos judiciais fazendo a indústria pagar a fatura. O placar segue aberto, e cada costão limpo precisa de visita de reforço para não ser recolonizado.

E para você, faz sentido a indústria do petróleo bancar a limpeza de uma invasão que chegou pelas próprias plataformas? Conte nos comentários se você já viu o coral-sol alaranjado em algum mergulho ou costão do litoral brasileiro.

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Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Bruno Teles.

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