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Ponte entre Paraguai e Argentina pode encurtar em quase 300 km o caminho do milho até Santa Catarina, criando a ‘Rota do Milho’ que promete baratear a ração de aves e suínos e, no fim das contas, a comida dos brasileiros
Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges
Publicado em 12/08/2026 às 09:42
Atualizado em 12/08/2026 às 09:48
Agronegócio
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O projeto prevê uma travessia sobre o Rio Paraná ligando Mayor Otaño, no Paraguai, a Eldorado, na Argentina. Dali, o grão seguiria por Misiones até entrar em Santa Catarina por Dionísio Cerqueira, no Extremo-Oeste, num trajeto quase reto entre a lavoura e a agroindústria.
Uma ponte internacional sobre o Rio Paraná, ligando Paraguai e Argentina, pode abrir um novo corredor de entrada de mercadorias em Santa Catarina e reduzir em quase 300 quilômetros o trajeto do milho paraguaio até o estado, segundo entrevista do secretário executivo de Articulação Internacional catarinense, Paulo Bornhausen, ao portal NSC Total, publicada em agosto de 2026. O projeto voltou à pauta durante missão do governo estadual ao país vizinho, na semana anterior.
O objetivo declarado é criar o que já vem sendo chamado de Rota do Milho, ligando a região produtora paraguaia diretamente à agroindústria catarinense. A conta que sustenta o projeto é de distância: da área produtora do Paraguai até Dionísio Cerqueira são cerca de 200 quilômetros, enquanto o milho vindo do Centro-Oeste brasileiro percorre mais de mil quilômetros até chegar ao mesmo destino.
O problema que Santa Catarina tenta resolver há décadas
Para entender por que uma ponte a centenas de quilômetros da fronteira brasileira interessa tanto ao governo catarinense, é preciso olhar um desequilíbrio que o estado carrega há mais de trinta anos. Santa Catarina é o maior produtor de suínos do Brasil e o segundo maior de aves, com um parque agroindustrial que movimenta mais de um bilhão de aves e cerca de 12 milhões de suínos por ano e sustenta mais de 150 mil empregos diretos e indiretos.
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O problema é que o estado não produz o que precisa para alimentar esse rebanho. A demanda anual de milho supera 6,5 milhões de toneladas, e a produção local fica bem abaixo disso, o que gera um déficit estrutural estimado em torno de 4 a 5 milhões de toneladas por ano. A diferença é coberta comprando grão de fora, principalmente do Paraná, do Centro-Oeste e, em menor escala, de Argentina e Paraguai.
Esse desequilíbrio tem consequência direta no custo. A ração representa mais de 70% dos gastos de produção em algumas criações, e o milho responde por cerca de 80% da dieta dos animais. Cada real a mais no frete do grão entra na conta antes mesmo de o animal nascer, e é isso que torna a distância uma variável tão sensível para o setor no estado.
Mil quilômetros contra duzentos
A comparação apresentada pelo governo catarinense é o ponto central do argumento. Enquanto parte do milho consumido pela agroindústria do estado precisa atravessar mais de mil quilômetros a partir das regiões produtoras do Centro-Oeste brasileiro, a área produtora paraguaia está a aproximadamente 200 quilômetros de Dionísio Cerqueira, na fronteira catarinense.
A diferença não é apenas de mapa, é de estrutura de custo. Frete rodoviário de longa distância acumula combustível, pedágio, tempo de motorista e desgaste de veículo, e em produto de baixo valor agregado por tonelada, como o milho, esse peso é proporcionalmente enorme. Quanto maior a distância, maior a parcela do preço final que corresponde apenas ao ato de mover o grão.
Segundo o ministro da Indústria e Comércio do Paraguai, Marcos Riquelme, a ligação permitiria traçar praticamente uma linha reta em direção a Santa Catarina, com economia de quase 300 quilômetros no transporte rodoviário de cargas. É essa redução que o governo aposta que se converterá em ração mais barata, e daí em custo menor para as cadeias de aves e suínos.
Por onde a carga passaria
O trajeto desenhado começa nas áreas produtoras paraguaias e atravessa três países antes de chegar ao destino. A ponte proposta ligaria Mayor Otaño, no departamento de Itapúa, no Paraguai, a Eldorado, na província de Misiones, na Argentina, cruzando o Rio Paraná.
Já em território argentino, as cargas seguiriam por parte da província de Misiones até a fronteira com o Brasil, entrando em Santa Catarina pela região de Dionísio Cerqueira, no Extremo-Oeste catarinense. É uma rota que aproveita a geografia de forma direta, em vez de contornar o Paraguai pelo norte ou descer pelo Paraná, que são os caminhos usados atualmente.
O Extremo-Oeste não foi escolhido por acaso como porta de entrada. É exatamente ali que se concentra o maior parque de abate de aves e suínos do estado, o que significa que o grão chegaria praticamente no ponto de consumo, sem necessidade de nova etapa de transporte interno.
As balsas que devem começar a rodar antes da obra
Aqui está a informação mais concreta de toda a articulação, e a que tem prazo definido. Enquanto a ponte não existe, o plano é colocar a rota em funcionamento por meio de balsas capazes de transportar caminhões entre Paraguai e Argentina.
Segundo o secretário catarinense, as obras de infraestrutura necessárias para essa operação já estão em andamento nos dois países, e as balsas que farão o transporte já foram entregues. A expectativa do governo estadual é que os primeiros caminhões carregados com milho paraguaio comecem a usar o corredor ainda em dezembro de 2026. A travessia por balsa é a versão provisória da mesma rota, com capacidade menor, mas disponível em prazo muito mais curto.
Há uma condição que o próprio secretário fez questão de registrar. A previsão depende da implantação das estruturas necessárias para fiscalização e desembaraço aduaneiro das cargas, ou seja, de todo o aparato de controle que precisa existir em qualquer travessia internacional de mercadoria. Caso o fluxo por balsas se consolide, a futura ponte substituiria essa etapa e ampliaria a capacidade do corredor.
A ponte que se discute há mais de uma década
Convém separar o que é novo do que já vinha sendo negociado. A ligação entre Mayor Otaño e Eldorado não é uma proposta recente: Argentina e Paraguai discutem há mais de dez anos a possibilidade de construir essa ponte, com estudos de viabilidade já realizados.
O elemento novo é a entrada de Santa Catarina nas articulações, com interesse específico em transformar a travessia em parte de um corredor logístico até o território catarinense. O projeto voltou à mesa durante missão do governo estadual ao Paraguai, e na sexta-feira, 7 de agosto de 2026, o governador Jorginho Mello se reuniu em Assunção com o vice-presidente e presidente em exercício do país, Pedro Alliana.
O governo catarinense se colocou à disposição para participar das discussões junto ao Paraguai e ao governo da província argentina de Misiones, e ficou marcada para novembro uma reunião com o governador de Misiones e o presidente paraguaio. Apesar da movimentação diplomática, a construção da ponte não está confirmada e não há prazo para início nem para conclusão das obras.
A burocracia que trava o milho paraguaio hoje
Existe um obstáculo que nenhuma ponte resolve sozinha e que ajuda a dimensionar o potencial da rota. Levantamento do setor produtivo do oeste do Paraná estimou que o Brasil poderia importar cerca de 4,5 milhões de toneladas de milho paraguaio por ano, com economia aproximada de R$ 8 por saca e redução anual de custo de produção na casa de R$ 600 milhões.
O volume que efetivamente entra, porém, é bem menor. Segundo esse mesmo levantamento, apenas cerca de um terço desse total cruza a fronteira, e o motivo apontado é a burocracia nos trâmites fronteiriços. Cooperativas do oeste paranaense e de Santa Catarina, próximas à divisa e portanto beneficiadas pelo frete curto, tentaram ampliar as compras do país vizinho e esbarraram justamente nesses entraves.
O dado explica por que o secretário condicionou o início da operação por balsas à estrutura de fiscalização e desembaraço. Encurtar a estrada não adianta se a carga parar na aduana, e é por isso que o desenho do corredor depende tanto da infraestrutura física quanto do arranjo administrativo entre os três países envolvidos.
O interesse que vai além do milho
A articulação com o Paraguai não se limita a trazer grão para dentro do estado. Há uma segunda frente voltada a atrair carga paraguaia para os portos catarinenses, e ela responde a um cenário em que Santa Catarina hoje praticamente não participa desse fluxo.
Atualmente, o Paraguai usa principalmente os portos de Santos, em São Paulo, e de Paranaguá, no Paraná, para as operações de importação e exportação, sem presença relevante dos terminais catarinenses. A aproximação busca redirecionar parte desse comércio exterior, o que significaria movimento adicional para a estrutura portuária do estado sem depender de aumento da produção local.
As conversas incluíram ainda outros temas. Há interesse declarado em aproximar indústrias paraguaias e catarinenses, com produção repartida entre os dois lados, além de cooperação tecnológica com participação da Epagri, empresa estadual de pesquisa agropecuária, e a possibilidade de estender ao Paraguai a infraestrutura de conectividade ligada a um futuro cabo submarino de internet previsto para chegar a Santa Catarina.
Da ração ao supermercado: o que separa uma coisa da outra
A promessa de que o corredor baratearia a comida do brasileiro merece ser lida com o cuidado que a cadeia produtiva exige. O raciocínio tem lógica: ração mais barata reduz o custo de produção de frango e carne suína, e custo menor abre espaço para preço menor na ponta.
Mas há várias etapas entre uma coisa e outra. Entre o milho que chega à fábrica de ração e o pacote no supermercado existem abate, processamento, embalagem, distribuição, tributação, margem do varejo e a própria dinâmica de oferta e demanda do mercado de carnes, que responde a exportação, câmbio e consumo interno. Uma queda no frete do grão é uma variável dentro de um conjunto grande, e não determina sozinha o preço final.
O que se pode afirmar com segurança é o efeito na origem da cadeia. Reduzir em quase 300 quilômetros o trajeto de um insumo que representa a maior parte do custo de alimentação animal melhora a competitividade das indústrias catarinenses de proteína, que hoje pagam mais caro pelo mesmo grão que concorrentes de outros estados compram mais perto de casa. Se isso chega ao consumidor, e em que proporção, depende de tudo o que vem depois.
E você, acredita que encurtar a rota do milho realmente chega ao preço do frango e da carne suína no supermercado, ou a economia fica pelo caminho? Conta nos comentários o que você acha desse tipo de projeto.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Maria Heloisa Barbosa Borges.

