Ícone do site Portal Estado do Acre Notícias

Por que uma barra de aço completamente escondida dentro do concreto pode começar a destruir uma coluna ou uma viga de dentro para fora sem que ninguém encoste na estrutura?

Por que uma barra de aço completamente escondida dentro do concreto pode começar a destruir uma coluna ou uma viga de dentro para fora sem que ninguém encoste na estrutura?

7 min de leitura

Por que uma barra de aço completamente escondida dentro do concreto pode começar a destruir uma coluna ou uma viga de dentro para fora sem que ninguém encoste na estrutura?

Escrito por Valdemar Medeiros

Publicado em 12/08/2026 às 00:24

Construção

Assista o vídeo
Por que uma barra de aço completamente escondida dentro do concreto pode começar a destruir uma coluna ou uma viga de dentro para fora sem que ninguém encoste na estrutura?

Seja o primeiro a reagir!

Prefira o CPG no Google

O aço parece totalmente protegido quando fica enterrado dentro do concreto, mas água, oxigênio, dióxido de carbono e cloretos conseguem atravessar seus poros e iniciar uma corrosão capaz de rachar, destacar e expulsar o concreto de dentro para fora.

Uma coluna de concreto armado pode parecer perfeitamente sólida do lado de fora enquanto uma transformação química ocorre silenciosamente alguns centímetros abaixo da superfície. A barra de aço que deveria reforçar a estrutura começa a corroer e os produtos dessa corrosão ocupam um volume maior do que o metal original, pressionando o concreto ao redor até surgirem fissuras, destacamentos e pedaços soltos.

O detalhe surpreendente é que a água não precisa tocar diretamente em uma barra exposta para que isso aconteça. O concreto possui uma rede de poros e pode absorver umidade; quando determinadas condições permitem a chegada de água, oxigênio, dióxido de carbono ou cloretos até a armadura, a proteção química natural do aço pode desaparecer e a deterioração começa escondida dentro da peça.

O concreto não isola completamente o aço do mundo exterior

À primeira vista, uma barra envolvida por vários centímetros de concreto parece estar completamente selada.

ARTIGO CONTINUA ABAIXO

Veja também

Na realidade, o concreto endurecido possui poros microscópicos e sua capacidade de transportar água, gases e íons depende de características como permeabilidade, fissuração e qualidade do material.

O NIST compara esse comportamento ao de uma espécie de esponja: dependendo das condições, a estrutura consegue absorver água. Se ela permanecer úmida ou receber repetidamente água contendo determinados íons, essa umidade pode avançar através da matriz de concreto e alcançar as barras de aço posicionadas internamente.

O concreto não isola completamente o aço do mundo exterior

Isso não significa que toda peça de concreto armado inevitavelmente terá corrosão rápida. Quando bem projetado e executado, o próprio concreto cria um ambiente extremamente favorável à conservação da armadura, e é justamente essa característica que permitiu que concreto e aço se tornassem uma das combinações estruturais mais utilizadas na construção civil.

O próprio concreto cria uma película microscópica que protege a barra

Uma das maiores curiosidades está na química existente junto à armadura. A água presente nos poros do concreto novo é altamente alcalina: estudos compilados pela Federal Highway Administration indicam valores de pH aproximadamente entre 13 e 13,8.

Nesse ambiente alcalino, forma-se sobre a superfície do aço uma película passiva extremamente fina, com espessura indicada pela FHWA na ordem de 10 nanômetros. Embora praticamente invisível, essa camada reduz drasticamente a tendência do aço de continuar reagindo e corroendo enquanto permanece estável.

Portanto, o concreto protege a armadura de duas maneiras diferentes. Há uma barreira física formada pela espessura de concreto entre o aço e o ambiente e existe também uma barreira química criada pela elevada alcalinidade ao redor da barra. O problema aparece quando uma dessas linhas de defesa começa a ser perdida.

Dióxido de carbono do próprio ar pode avançar lentamente pelo concreto

Mesmo um elemento que não esteja diretamente exposto à água do mar pode sofrer outra transformação chamada carbonatação. O dióxido de carbono presente no ar consegue penetrar gradualmente pelos poros do concreto e reagir com componentes alcalinos existentes no material.

Dióxido de carbono do próprio ar pode avançar lentamente pelo concreto

O resultado é uma redução progressiva da alcalinidade. Enquanto a frente de carbonatação ainda está distante da armadura, o aço pode permanecer protegido; quando ela alcança a região das barras, as condições químicas que sustentavam aquela película passiva podem deixar de existir.

Fissuras tornam esse cenário especialmente importante porque criam caminhos muito mais diretos para o ambiente alcançar regiões profundas.

A FHWA observa que a carbonatação deve ser considerada junto às fissuras porque, nesses pontos, o ar pode ter acesso praticamente direto à proximidade da armadura, independentemente da qualidade do restante do cobrimento.

Cloretos podem romper a proteção mesmo quando o concreto continua alcalino

Há ainda outro agressor particularmente importante: os íons cloreto. Eles podem chegar ao concreto em ambientes marinhos, pela névoa salina, por respingos de água salgada e por outras fontes de contaminação, migrando lentamente através de poros e fissuras até alcançar a superfície do aço.

Quando a concentração junto à armadura se torna suficiente, os cloretos podem desestabilizar a película protetora que mantém o aço passivado.

Com umidade e oxigênio disponíveis, partes da barra passam então a participar de reações eletroquímicas e o ferro começa a se transformar em produtos de corrosão.

É por isso que regiões costeiras representam um ambiente especialmente agressivo para estruturas de concreto armado. O concreto pode continuar aparentemente intacto na superfície durante parte do processo, enquanto cloretos já avançaram internamente e começaram a criar condições para corrosão junto às barras.

A ferrugem ocupa mais espaço e começa a pressionar o concreto por dentro

É nesse ponto que acontece a parte mais contraintuitiva do fenômeno. O aço não simplesmente fica com uma camada marrom sobre sua superfície: os produtos formados durante a corrosão ocupam um volume maior do que o aço que lhes deu origem.

Assista o vídeo

Como a barra está fortemente confinada dentro do concreto, esse material adicional não possui espaço livre para se expandir.

A pressão passa a ser aplicada contra o concreto que envolve a armadura, e estimativas citadas pela FHWA para as tensões expansivas associadas à transformação do aço em produtos de corrosão variam amplamente, chegando a valores de dezenas ou centenas de megapascais dependendo das condições consideradas.

O resultado pode começar com microfissuras invisíveis, evoluir para rachaduras acompanhando o alinhamento das barras e terminar em delaminação e desplacamento, quando uma camada do cobrimento se separa ou se desprende. Assim, o agente que aparentemente “quebra” a superfície pode estar localizado vários centímetros abaixo dela.

Uma pequena rachadura pode criar um ciclo que acelera o problema

Quando a corrosão abre a primeira fissura, surge um efeito adicional. A rachadura cria um caminho mais fácil para entrada de água, oxigênio, dióxido de carbono e cloretos, reduzindo a capacidade do cobrimento de funcionar como barreira.

Com maior acesso desses agentes à armadura, novas regiões podem começar a corroer ou regiões já atacadas podem deteriorar-se mais rapidamente.

A corrosão produz mais material expansivo, que aumenta a abertura das fissuras e favorece ainda mais a entrada de elementos externos.

Forma-se, portanto, um mecanismo de retroalimentação: corrosão gera fissuração, fissuração facilita a entrada de agentes agressivos e essa entrada pode intensificar a corrosão. O processo ajuda a explicar por que um problema inicialmente discreto pode avançar muito depois que os primeiros sinais aparecem na superfície.

O problema não é apenas o concreto que começa a cair

Os pedaços de concreto que eventualmente se desprendem são apenas a manifestação externa mais fácil de perceber.

Ao mesmo tempo em que a ferrugem pressiona o cobrimento, o próprio aço está sendo consumido pelas reações de corrosão, reduzindo sua seção transversal.

Essa perda de material também pode prejudicar a aderência entre a armadura e o concreto. Essa ligação é fundamental para que os dois materiais trabalhem conjuntamente: o concreto responde muito bem à compressão, enquanto as barras são colocadas estrategicamente para resistir principalmente aos esforços que o concreto sozinho não suporta tão eficientemente.

Por que uma barra de aço completamente escondida dentro do concreto pode começar a destruir uma coluna ou uma viga de dentro para fora sem que ninguém encoste na estrutura?

Por isso, corrosão de armaduras é tratada como problema de durabilidade e, quando suficientemente avançada, também pode ter implicações estruturais.

A gravidade real depende do elemento, extensão da corrosão, perda de seção, localização das barras, carregamentos e diversas outras condições que precisam ser avaliadas tecnicamente.

O cobrimento de concreto existe justamente para afastar a armadura desses agentes

As barras de aço não são posicionadas imediatamente junto à superfície de uma viga ou coluna. Existe uma camada de concreto entre a armadura e o ambiente externo, conhecida como cobrimento, que desempenha funções fundamentais de proteção e durabilidade.

Assista o vídeo

Quanto mais facilmente água, gases e íons conseguem atravessar esse caminho, menor é a eficiência dessa barreira ao longo do tempo.

Por isso, fissuração, permeabilidade do concreto, exposição ambiental e características do cobrimento têm influência direta sobre a velocidade com que agentes agressivos conseguem alcançar o aço.

No fim, a resposta para a pergunta do título está escondida em uma transformação microscópica: o aço pode estar completamente invisível, mas o concreto ao redor dele não é uma cápsula absolutamente impermeável.

Quando sua proteção química é rompida e existem condições para corrosão, a própria expansão dos produtos formados sobre a barra pode exercer pressão suficiente para iniciar a destruição do cobrimento de dentro para fora.


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Valdemar Medeiros.

Sair da versão mobile