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Presos sob o gelo por centenas de milhares de anos, descendentes de organismos do mar continuam vivos dentro de uma geleira que sangra na Antártica, revela um novo estudo que ainda os encontrou fazendo fotossíntese e se reparando

Presos sob o gelo por centenas de milhares de anos, descendentes de organismos do mar continuam vivos dentro de uma geleira que sangra na Antártica, revela um novo estudo que ainda os encontrou fazendo fotossíntese e se reparando

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Presos sob o gelo por centenas de milhares de anos, descendentes de organismos do mar continuam vivos dentro de uma geleira que sangra na Antártica, revela um novo estudo que ainda os encontrou fazendo fotossíntese e se reparando

Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges

Publicado em 05/08/2026 às 13:04

Atualizado em 05/08/2026 às 13:05

Ciência e Tecnologia

Canal

Antártica guarda microrganismos marinhos vivos há centenas de milhares de anos sob geleira que escorre água vermelha, segundo estudo com 167 amostras.

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O estudo saiu na revista Nature Geoscience e reuniu 11 pesquisadores de universidades dos Estados Unidos e da Suécia. Foram analisadas 167 amostras de água, sedimento, gelo e ar, e o sequenciamento genético identificou milhares de microrganismos diferentes no local.

A geleira Taylor, na Antártica, expele uma salmoura de tom avermelhado que corre até o Lago Bonney e é conhecida como Cascatas de Sangue. Um novo estudo apontou que essa água abriga descendentes de antigas comunidades marinhas, conforme reportagem publicada pelo jornal Extra.

Os autores descreveram o local como um raro refúgio marinho no deserto polar. A salmoura rica em ferro que emerge debaixo do gelo hospeda uma comunidade de microrganismos marinhos que permaneceram presos ali por centenas de milhares de anos, isolados do oceano quando o gelo avançou sobre a área.

Por que a água é vermelha

‘Cascata de Sangue’ da Antártica — Foto: Reprodução/Wikimedia Commons

A aparência que dá nome ao fenômeno tem explicação química conhecida antes deste estudo. A água que escorre é salgada e rica em ferro, e ao entrar em contato com o ar, esse ferro oxida.

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A oxidação produz a mancha vermelha característica sobre o gelo branco, com aparência que remete a sangue. É o mesmo processo que enferruja um objeto metálico deixado ao relento, ocorrendo em escala visível na paisagem antártica.

O que faltava não era a explicação da cor. Faltava a comprovação da origem daquela água, e é justamente isso que o novo trabalho traz.

A hipótese que existia há décadas

Cientistas já suspeitavam há bastante tempo que a salmoura fosse originalmente água do mar. A hipótese sustentava que o oceano teria inundado o Vale Taylor durante um período mais quente, e que a água ficou presa quando o nível do mar baixou e o gelo avançou sobre a região.

O problema é que se tratava de uma explicação plausível, sem confirmação biológica. Havia poucas provas de que a água aprisionada tivesse mesmo origem marinha.

A diferença que este estudo introduz é o tipo de evidência apresentada. Em vez de analisar apenas a composição química da água, os pesquisadores foram atrás de quem vive dentro dela, e a assinatura biológica encontrada aponta para o mar.

Como a pesquisa foi conduzida

O trabalho analisou 167 amostras coletadas nos Vales Secos de McMurdo e em áreas adjacentes, incluindo água, sedimento, gelo e ar.

A técnica empregada foi o sequenciamento de DNA, que permite identificar organismos presentes em uma amostra a partir do material genético, sem necessidade de cultivá los em laboratório. Por esse método, a equipe identificou milhares de microrganismos diferentes vivendo no local e no entorno.

O resultado apontou uma concentração incomum de espécies marinhas. O gelo vermelho, a lama e os sedimentos onde a cachoeira emerge estavam repletos de espécies normalmente encontradas em ambientes marinhos, e não em terra firme ou em água doce.

O número que sustenta a conclusão

A comparação estatística é o dado central do estudo. Entre os microrganismos encontrados nas Cascatas de Sangue, 9,34% eram compartilhados com amostras oceânicas próximas.

Em outros pontos dos Vales Secos, essa proporção caía para apenas 1,15%. A diferença é de aproximadamente oito vezes entre um local e outro.

Os pesquisadores argumentam que essa forte assinatura marinha seria difícil de explicar apenas pelo transporte de micróbios do litoral para o interior do continente pela ação do vento. Vento carrega micro-organismo, mas carregaria em toda a região, e não concentrado em um único ponto, que é justamente o padrão observado.

Quem são esses organismos

As espécies identificadas pertencem a grupos que habitam normalmente o oceano. Entre elas estão diatomáceas marinhas, haptófitas, dinoflagelados e ciliados.

São organismos minúsculos, invisíveis a olho nu, e vários desses grupos formam a base da cadeia alimentar oceânica. Diatomáceas, por exemplo, são algas unicelulares com carapaça de sílica, responsáveis por parcela significativa da produção de oxigênio nos oceanos.

Encontrar esse conjunto sob uma geleira, longe de qualquer contato com o mar, é o que torna o achado relevante. Não se trata de uma espécie isolada, e sim de uma comunidade com perfil oceânico reconhecível.

Vivos, e não apenas preservados

‘Cascatas de Sangue’ da Antártica abrigam descendentes de antigas criaturas marinhas, diz estudo — Foto: Reprodução

O ponto que diferencia esse estudo de um achado paleontológico é a atividade biológica. Muitos dos microrganismos permanecem biologicamente ativos, apesar de sobreviverem em um dos ambientes mais hostis do planeta.

As evidências genéticas mostraram que esses organismos realizavam fotossíntese, reparavam células danificadas e ativavam sistemas de resposta ao estresse para lidar com o frio intenso e a alta salinidade sob o gelo.

Algumas espécies adotam outra estratégia. Elas podem entrar em estados de dormência, aguardando até que as condições voltem a ser favoráveis, mecanismo que permite atravessar longos períodos sem atividade metabólica plena.

O que isso significa para a ciência

A conclusão apresentada pelos autores é de que o sistema subglacial alimentado por salmoura, na extremidade da geleira, preserva assinaturas biológicas de origem marinha muito tempo depois da separação física do oceano.

Os pesquisadores apontam duas frentes de aplicação para o achado. A primeira é entender como a vida sobrevive a mudanças climáticas drásticas ao longo de centenas de milhares de anos, questão que ganha relevância no contexto atual.

A segunda é histórica. As descobertas podem ajudar a reconstruir a história antiga da Antártica, indicando quando a água do mar ficou aprisionada sob a camada de gelo em expansão.

Um lugar que quase ninguém visita

A visitação ao local é possível, mas rara. O acesso aos Vales Secos é altamente regulado e costuma ocorrer por helicóptero, a partir de bases antárticas, principalmente em missões de pesquisa.

Existem expedições civis especializadas que oferecem sobrevoos ou aproximações pontuais, com custo elevado e logística complexa.

Essa restrição não é burocracia excessiva. Os Vales Secos estão entre os ambientes mais preservados e mais sensíveis do planeta, e a própria pesquisa depende de que o local permaneça com o mínimo de interferência externa, já que contaminação por material trazido de fora comprometeria qualquer análise genética.

Uma paisagem que virou evidência

O que esse caso mostra é como um fenômeno conhecido há muito tempo pode ainda guardar informação nova. A cor vermelha da cachoeira já era explicada, o local já era estudado e a hipótese sobre a origem marinha da água já existia.

O que mudou foi a ferramenta. O sequenciamento genético permitiu perguntar quem vive naquela água, e a resposta acabou confirmando de onde ela veio.

E você, sabia que existe uma cachoeira de aparência sangrenta escorrendo de uma geleira na Antártica? Acha que ambientes extremos assim ajudam a entender como a vida poderia existir em outros planetas? Conta nos comentários o fenômeno natural mais estranho que você já viu.

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Antárticacascata de sangue


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Maria Heloisa Barbosa Borges.

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