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Primeira do mundo a ser declarada “pessoa não humana” pela Justiça argentina, orangotango Sandra deixou o zoológico de Buenos Aires depois de mais de 20 anos e embarcou para um santuário de primatas na Flórida, onde vive entre outros resgatados de circos e zoológicos

Primeira do mundo a ser declarada “pessoa não humana” pela Justiça argentina, orangotango Sandra deixou o zoológico de Buenos Aires depois de mais de 20 anos e embarcou para um santuário de primatas na Flórida, onde vive entre outros resgatados de circos e zoológicos

8 min de leitura

Primeira do mundo a ser declarada “pessoa não humana” pela Justiça argentina, orangotango Sandra deixou o zoológico de Buenos Aires depois de mais de 20 anos e embarcou para um santuário de primatas na Flórida, onde vive entre outros resgatados de circos e zoológicos

Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges

Publicado em 24/08/2026 às 11:43

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Orangotango Sandra foi reconhecida como sujeito de direito não humano na Argentina e deixou Buenos Aires em 2019 rumo a um santuário de grandes primatas na Flórida.
imagem: Mariana Eliano

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Sandra, orangotango nascida em 1986 na Alemanha, teve reconhecida pela Justiça argentina a condição de sujeito de direito não humano. Após décadas em cativeiro, deixou Buenos Aires em 2019 rumo ao Center for Great Apes, na Flórida, após anos de disputas judiciais, exames médicos e preparação internacional para a transferência.

Sandra, orangotango nascida em 14 de fevereiro de 1986 no zoológico de Rostock, na então República Democrática Alemã, deixou Buenos Aires em 26 de setembro de 2019 rumo aos Estados Unidos. O embarque encerrou mais de duas décadas de permanência no zoológico argentino e ocorreu depois de uma longa disputa judicial que resultou no reconhecimento de sua condição como sujeito de direito não humano.

As informações sobre o embarque foram publicadas pela IstoÉ Dinheiro em 26 de setembro de 2019, com a AFP, e os detalhes complementares de sua trajetória foram apresentados em reportagem do El País. Sandra seguiu acompanhada por veterinários para o Center for Great Apes, na Flórida, santuário onde vivem outros grandes primatas resgatados de circos e zoológicos.

Sandra nasceu em 14 de fevereiro de 1986 no zoológico de Rostock

Sandra, fotografada no Ecoparque, antigo zoológico de Buenos Aires.
imagem: Mariana Eliano

Sandra nasceu no zoológico de Rostock, na então Alemanha Oriental. Pouco se conhece sobre os primeiros anos de sua vida, mas sua mãe a rejeitou ainda jovem.

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Depois, a orangotango foi enviada ao zoológico de Gelsenkirchen, também na Alemanha, antes da transferência para a Argentina.

Registros divergem sobre a data exata da chegada a Buenos Aires

Os materiais fornecidos apresentam uma diferença cronológica sobre a transferência. Um registro situa a chegada de Sandra a Buenos Aires em 1994, enquanto o relato complementar aponta setembro de 1995, quando ela tinha 9 anos.

Em qualquer das cronologias, Sandra permaneceu por mais de duas décadas no zoológico da capital argentina antes de embarcar para os Estados Unidos em 2019.

Sandra teve uma filha chamada Sheinbira durante o cativeiro

No zoológico de Buenos Aires, Sandra teve temporariamente um companheiro e gerou uma fêmea chamada Sheinbira.

Sandra rejeitou a cria, repetindo uma situação semelhante à que havia vivido com a própria mãe. Posteriormente, Sheinbira foi comprada por um intermediário, e acreditava-se que estivesse em algum lugar da Ásia.

Orangotango permaneceu como único exemplar da espécie na Argentina

O olhar da orangotango impressiona; o cativeiro a deprime: se não a estimulam, permanece inativa metade do dia.
imagem: Natacha Pisarenko (AP)

Depois dessas mudanças, Sandra continuou sozinha em Buenos Aires.

Ela era apontada como o único animal de sua espécie na Argentina, condição que também dificultava a possibilidade de convivência com outros orangotangos durante os anos finais de permanência no antigo zoológico.

AFADA levou situação de Sandra aos tribunais em 2014

A trajetória jurídica começou a mudar em 2014, quando a Associação de Funcionários Públicos e Advogados pelos Direitos dos Animais, a AFADA, decidiu questionar judicialmente a condição de Sandra.

Representada pelo advogado constitucionalista Andrés Gil Domínguez, a entidade argumentou que a orangotango não deveria continuar juridicamente tratada apenas como “coisa” ou “objeto”.

Caso chegou à juíza Elena Liberatori em março de 2015

Em março de 2015, a discussão chegou ao Tribunal Contencioso, Administrativo e Tributário nº 4 da Cidade de Buenos Aires, comandado pela juíza Elena Liberatori.

O processo passou a analisar não apenas o local onde Sandra vivia, mas também sua condição jurídica e as necessidades relacionadas ao comportamento e à saúde do animal.

Sentença de outubro de 2015 reconheceu Sandra como sujeito de direito

Em 21 de outubro de 2015, a decisão reconheceu Sandra como “sujeito de direito”, e não como objeto.

O Governo da Cidade de Buenos Aires, responsável pelo zoológico, recebeu a determinação de garantir condições compatíveis com o habitat da orangotango e atividades necessárias para preservar suas habilidades cognitivas.

Decisão de 2016 reforçou condição de sujeito de direito não humano

O Ministério Público recorreu, e o Tribunal nº 15 da área penal considerou extinta a reivindicação em favor de Sandra.

Em 12 de dezembro de 2016, porém, a Terceira Sala do Penal concluiu que os direitos dos demandantes não haviam sido respeitados e afirmou que nada impedia considerar animais como Sandra sujeitos de direito não humanos.

Habeas corpus passou a integrar o caso da orangotango

Sandra teve reconhecida a condição de pessoa não humana e recebeu um habeas corpus, instrumento jurídico utilizado para discutir a legalidade de uma privação de liberdade.

O processo tornou o caso internacionalmente conhecido e colocou a permanência da orangotango em cativeiro no centro de um debate jurídico sobre os direitos de grandes primatas.

Zoológico fechou ao público e começou a virar ecoparque em 2016

Enquanto o processo avançava, o próprio zoológico de Buenos Aires passava por transformação.

Em 23 de junho de 2016, o chefe de Governo da Cidade Autônoma de Buenos Aires, Horacio Rodríguez Larreta, anunciou que o espaço seria convertido em um ecoparque.

As instalações foram fechadas ao público e vários animais começaram a ser transferidos. Sandra permaneceu no local enquanto se discutia um destino considerado adequado para sua condição.

Confinamento deixava Sandra inativa por grande parte do dia

Os cuidadores relatavam que Sandra sofria com o confinamento e apresentava um quadro descrito como depressão crônica.

Sem estímulos, ela podia permanecer inativa por mais da metade do dia. Para aumentar a atividade, os responsáveis ofereciam cordas, bolas, cestos, tecidos, revistas e diferentes formas de apresentar a comida.

Cordas, objetos e até trocas eram usados para estimulá-la

Em 2016, foram obtidas cordas para que Sandra pudesse brincar em seu espaço externo.

A alimentação também era apresentada de maneiras diferentes, e os cuidadores estimulavam pequenas trocas com a orangotango. Sandra era descrita como tímida e costumava permanecer mais afastada quando havia pessoas por perto.

Exame completo em 2018 envolveu equipe de especialistas

Em 3 de julho de 2018, Sandra passou por uma avaliação médica completa organizada antes da transferência.

A equipe incluía o veterinário-chefe do Ecoparque, Guillermo Wiemeyer; o cardiologista Guillermo Belerenian, do Instituto Pasteur; a ultrassonografista Laura Kocun; e a veterinária primatologista Susana Avellaneda.

Check-up avaliou coração, sangue, dentes e outras condições

Durante a avaliação foram realizados eletrocardiogramas, radiografias, ecocardiogramas e exames de sangue.

A equipe também examinou fossas nasais, amígdalas, laringe e arcada dentária e coletou uma amostra fecal. Os resultados do check-up foram considerados bons.

Sandra pesava aproximadamente 40 quilos, mas tinha força suficiente para exigir cuidados especiais durante os procedimentos médicos.

Devolução à natureza foi descartada pelos especialistas

A transferência não significava uma tentativa de devolver Sandra diretamente à vida selvagem.

Ela havia nascido em cativeiro e não teria condições de sobreviver sozinha na natureza. Outro fator era sua origem híbrida: Sandra é uma mistura de orangotango-de-sumatra com orangotango-de-bornéu.

A etóloga Maria Eugenia Dahlah, integrante da equipe de cuidadores, explicou que essa característica também dificultaria sua integração com grupos naturais de qualquer uma das duas origens.

Tribunal avaliou diferentes destinos antes de escolher a Flórida

Um parque ecológico brasileiro chegou a ser considerado como possível destino, mas não atendia às condições avaliadas para receber Sandra.

Especialistas consultados apontaram então o Center for Great Apes, localizado na Flórida entre Tampa e Orlando, como alternativa adequada.

A juíza Elena Liberatori visitou pessoalmente possíveis centros, pagando as viagens com recursos próprios, e também enviou o secretário do tribunal para examinar as instalações do santuário escolhido.

Transferência exigiu quarentena e autorização dos Estados Unidos

A operação dependia de uma série de exigências das autoridades norte-americanas.

Sandra precisava chegar em boas condições de saúde e passar por quarentena e novos exames clínicos antes da instalação definitiva. A complexidade dessas exigências ajudou a prolongar a preparação da viagem.

Mudança de clima também preocupava os veterinários

A diferença de temperatura entre Buenos Aires e a Flórida entrou no planejamento.

Agosto correspondia ao inverno argentino e ao verão quente na Flórida, o que levou veterinários a recomendar que a mudança não ocorresse em um período com contraste climático tão acentuado.

Governo de Buenos Aires aprovou 3 milhões de pesos para a viagem

O orçamento previsto para a transferência chegou a 3 milhões de pesos argentinos, valor equivalente a aproximadamente R$ 260 mil na época.

A operação exigia uma empresa capaz de oferecer garantias para o transporte e flexibilidade diante de eventuais atrasos ou novas exigências administrativas.

Embarque finalmente aconteceu em 26 de setembro de 2019

Sandra deixou a Argentina em 26 de setembro de 2019, embarcando em um avião comercial para os Estados Unidos.

Veterinários acompanharam o deslocamento para garantir os cuidados necessários durante a viagem até a Flórida.

Santuário reúne primatas resgatados de circos e zoológicos

O destino escolhido para Sandra abriga grandes primatas provenientes de diferentes situações de cativeiro.

No santuário da Flórida, ela passaria a conviver em um ambiente dedicado a animais resgatados de circos e zoológicos de vários países, depois de décadas vivendo no antigo zoológico de Buenos Aires.

Transferência encerrou longa disputa iniciada anos antes

A saída de Sandra marcou o resultado prático de um processo que começou anos antes com a discussão sobre sua condição jurídica, atravessou recursos judiciais, mudanças no zoológico, exames veterinários e avaliações de possíveis destinos.

Depois de viver mais de duas décadas em Buenos Aires, Sandra finalmente seguiu para a Flórida em 2019, reconhecida pela Justiça argentina como sujeito de direito não humano e destinada a um santuário preparado para receber grandes primatas resgatados.

Na sua opinião, o reconhecimento de animais como Sandra como sujeitos de direito pode transformar a maneira como zoológicos e autoridades tratam grandes primatas mantidos em cativeiro? Deixe sua opinião nos comentários.


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Maria Heloisa Barbosa Borges.

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