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Professora se aposentou depois de 28 anos de sala de aula, viu a pandemia fechar as escolas um mês depois, transformou a chácara que seria campo de futebol e quadra de bocha em três galpões de galinha e hoje colhe cerca de 650 ovos por dia

Professora se aposentou depois de 28 anos de sala de aula, viu a pandemia fechar as escolas um mês depois, transformou a chácara que seria campo de futebol e quadra de bocha em três galpões de galinha e hoje colhe cerca de 650 ovos por dia

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Professora se aposentou depois de 28 anos de sala de aula, viu a pandemia fechar as escolas um mês depois, transformou a chácara que seria campo de futebol e quadra de bocha em três galpões de galinha e hoje colhe cerca de 650 ovos por dia

Escrito por Bruno Teles

Publicado em 11/08/2026 às 21:42

Atualizado em 11/08/2026 às 21:51

Agronegócio, Curiosidades

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Professora aposentada trocou o projeto de campo de futebol por três galpões de galinha em Sinop e hoje colhe cerca de 650 ovos caipiras por dia

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Rosângela deixou a direção de escola em 3 de fevereiro de 2020 e planejava dar aulas como interina para complementar a renda. Em março veio a pandemia e o plano acabou. Com o marido, ela virou a chácara de lazer comprada em 2018 em uma granja com cerca de mil aves.

Ela deu entrada no processo de aposentadoria torcendo para que demorasse. Não demorou: em fevereiro de 2020, a professora Rosângela recebeu a mensagem avisando que voltaria ao trabalho no dia 2 e no dia 3 já estaria aposentada, encerrando 28 anos de magistério em Sinop, no norte do Mato Grosso.

O plano B estava pronto e durou pouco. Ela montou um currículo para pegar aulas como interina e complementar a renda, mas em março veio a pandemia, as escolas fecharam e os professores efetivos foram para casa. Sem sala de aula disponível, sobrou a chácara de dois hectares comprada em 2018 para lazer, que se transformou na Granja São Luís e hoje produz cerca de 650 ovos por dia.

Terreno seria campo de futebol e quadra de bocha

Professora aposentada trocou o projeto de campo de futebol por três galpões de galinha em Sinop e hoje colhe cerca de 650 ovos caipiras por dia

O projeto original da propriedade não tinha nada a ver com galinha. O casal comprou a área em 2018 pensando em lazer e ia usá-la nos fins de semana, com um trecho de grama reservado para campo de futebol e outro espaço para uma quadra de bocha.

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A rotina era de bate e volta: iam no sábado, trabalhavam na limpeza do terreno, voltavam no domingo, e na segunda ela pegava a sala de aula até sexta. Quando compraram, o local era mato fechado, sem nenhuma estrutura. A área de lazer nunca saiu do papel, e o que ela resume em uma frase é o que aconteceu com o plano inteiro: tudo virou galinha.

Ideia veio de um aluno que falava das galinhas da mãe

O empurrão para a avicultura veio da sala de aula, e ela nem sabia disso na época. No último ano em que lecionou, um aluno costumava chegar comentando que mais uma galinha da mãe havia morrido, usando uma expressão local para dizer isso.

A repetição desses comentários ao longo do ano acabou virando curiosidade. Ela pediu para visitar a criação, e foi com o marido e o irmão conhecer o galpão da mãe do aluno, que criava 200 aves da linhagem Embrapa 051 em um projeto padrão da própria Embrapa, com divisória para pintinhos, área maior e piquete. Naquele momento não havia intenção nenhuma de criar galinha. A lembrança da visita só voltou quando o casal precisou decidir que negócio montar.

Embrapa 051 produz até 345 ovos por ciclo

A linhagem escolhida tem números públicos que ajudam a entender a decisão. A Poedeira Colonial Embrapa 051 é uma ave híbrida, resultado do cruzamento entre linhagens Rhode Island Red e Plymouth Rock Branca, selecionada pela Embrapa Suínos e Aves e voltada a sistemas semiconfinados.

O desempenho esperado é de até 345 ovos por ave alojada ao longo do ciclo produtivo, com início da postura por volta da 20ª semana e pico entre a 27ª e a 29ª. Para efeito de comparação, uma galinha comum produz cerca de 80 ovos. O ciclo previsto vai até a 90ª semana, e ao final a ave chega a aproximadamente 2,385 quilos, o que permite aproveitamento da carcaça. Os ovos são de casca marrom e pesam acima de 56 gramas.

Descarte acontece entre 85 e 90 semanas por causa da casca

Professora aposentada trocou o projeto de campo de futebol por três galpões de galinha em Sinop e hoje colhe cerca de 650 ovos caipiras por dia

Na prática da granja, o encerramento do lote não é decidido pela queda de produção, e sim pela qualidade do produto. Rosângela costuma encerrar entre 85 e 90 semanas, faixa que coincide com o limite indicado pela Embrapa.

Um dos lotes chegou a 94 semanas porque a procura por ovos estava alta e ela decidiu esticar. O resultado apareceu na casca, que ficou fina demais, com quebra frequente e perda de produto. As aves descartadas são vendidas vivas ou abatidas conforme o cliente pede, com preço entre R$ 25 e R$ 50 conforme a quantidade levada. Na região, há cultura de consumo de galinha caipira, e parte dos compradores prefere a ave ao ovo.

Três galpões operam em sequência para não faltar ovo

A estrutura atual é de galpões com dimensões diferentes, construídos em etapas. O primeiro tem 10 por 8 metros e 3 metros de pé-direito. O segundo tem 12 por 8, com 3,20 metros de altura, e foi dividido ao meio para abrigar dois lotes. O terceiro, de 10 por 4 metros, tinha sido feito para frango de corte e acabou convertido para postura.

O motivo da divisão é comercial, e ela aprendeu na prática. Com um único lote por galpão, a produção caía no fim do ciclo e o cliente simplesmente procurava outro fornecedor, sem querer saber do motivo. Depois, quando a produção voltava a subir, não havia mais comprador. A solução foi escalonar os lotes, mantendo alguns em produção enquanto outro cresce, para que a oferta não oscile.

Galpão mais alto se mostrou mais fresco

Uma comparação direta entre as próprias instalações mostrou o efeito da altura. O segundo galpão tem 20 centímetros a mais de pé-direito que o primeiro, e ela afirma que a diferença de temperatura interna é perceptível.

Ambos têm lanternim, a abertura elevada no telhado que permite a saída do ar quente. A região exige isso: a estiagem vai de maio a outubro, sem chuva, com poeira, vento e umidade baixa. Setembro e outubro são os piores meses, e ela já perdeu aves nesse período. A solução adotada foram ventiladores e bebedouros instalados na sombra do lado de fora, para que as aves não precisem entrar no galpão para beber.

Bebedouros sobre piso cimentado eliminam cama molhada

Um detalhe construtivo que ela aponta como o melhor acerto veio de um curso. Os bebedouros ficam sobre uma área cimentada levemente abaulada, com cano de escoamento no fundo.

O efeito prático é direto. A água derramada pelas aves escorre pelo declive e sai pelo cano em vez de encharcar a cama de casca de arroz. Cama molhada é problema recorrente em aviário porque favorece a proliferação de microrganismos e a formação de amônia, que irrita as vias respiratórias das aves. Com o piso cimentado, a cama permanece seca, e o trabalho de limpeza diminui bastante.

Estrutura teve que ser adaptada contra macacos

A propriedade fica em área de mata e enfrenta um problema pouco comum em granja urbana: fauna silvestre. Macacos passaram a entrar nos galpões e levar ovos.

As soluções foram sendo somadas. A parte superior dos galpões recebeu tela, e em alguns pontos foi instalado cerca elétrica. Houve também um erro de construção que gerou perda: no primeiro galpão ela usou tela comum, de malha larga, em vez da malha de dois centímetros. As frangas menores atravessavam a tela, passavam para o lado das galinhas adultas e eram atacadas. Cinco aves morreram assim antes de ela improvisar uma tela plástica sobreposta.

Ração pronta custa entre R$ 1,69 e R$ 1,81 o quilo

A alimentação vem pronta, e a decisão de não fabricar tem justificativa econômica clara. Mato Grosso é grande produtor de grãos, o que derruba o preço da ração industrializada na região.

Os valores citados por ela ficam entre R$ 1,69 e R$ 1,81 o quilo conforme a fase, com um dos tipos já tendo custado o dobro em outro momento. Ela compra volume para cerca de um mês e paga um frete simbólico. O cálculo que fez foi de tempo, não só de custo: comprar misturador e fabricar ração exigiria mão de obra e horas que ela prefere investir em outra parte do negócio.

Ovo claro vale mais que ovo escuro na região

A cor da casca virou variável comercial central. A principal cliente dela, que consome sete caixas por semana, recusa ovos de casca muito vermelha, e já reclamou quando recebeu um lote mais escuro.

Isso obrigou a uma reorganização do plantel. Ela investiu em 300 aves de linhagem que produz ovos creme, mais claros, e mantém também aves de ovos azuis e verdes para atender à demanda por ovo colorido. O ovo mais escuro, que não serve ao nicho caipira, é vendido como ovo comum, sem o valor agregado. Para o consumidor final, a bandeja de 30 sai por R$ 40, e para revendedores a dúzia custa R$ 11,50, preço reajustado na Páscoa do ano passado.

Linhagem colorida decepcionou e não será recomprada

A busca por ovo verde levou a um teste que ela considera fracassado. Comprou 100 aves de uma linhagem colorida, do mesmo fornecedor da Embrapa, para conseguir ovos coloridos que não encontrava em outra genética.

Os problemas foram três. Vieram 12 machos no lote de 100, o que reduz o plantel produtivo. As aves são pesadas, o que dificulta a subida ao ninho e ao poleiro e as torna mais sensíveis ao calor da região. E houve mortalidade após o início da postura, ao contrário das Embrapa, que não morreram. O manual da linhagem também indica produção menor e ciclo mais curto, de 75 semanas. A conclusão dela é direta: foi a primeira e a última vez.

Agroindústria de 9,5 por 7 metros nasceu de um Natal sem espaço

A decisão de construir o entreposto veio de um episódio doméstico. No Natal, a casa estava tão tomada por ovos, empilhados sobre as mesas da área onde ela fazia limpeza e embalagem, que não havia onde receber visita nem servir a ceia.

A construção tem 9,5 por 7 metros e segue exigências sanitárias: banheiro para troca de roupa, lava-botas, pia na entrada, depósito de embalagens com guichê de passagem, sala de limpeza dos ovos, área de manipulação climatizada e expedição separada. Tudo foi feito com recursos próprios, sem financiamento, porque ela só conseguiu o documento que permitiria empréstimo rural em outubro do ano passado, quando a estrutura já estava construída.

Sem selo, a produção não entra na chamada pública

O entreposto existe justamente por causa de uma barreira comercial. Ela já tentou duas vezes participar de chamada pública e não conseguiu por não ter selo de inspeção.

O objetivo é entregar para a cooperativa, que buscaria os ovos na propriedade em vez de ela precisar fazer as entregas na cidade. Isso reduziria custo e tempo de logística. A obra está na fase final de regularização, faltando itens como tela nas janelas e cortina sanitária, e a fiscalização ainda não fez a vistoria final. Enquanto isso, ela vende porta a porta e para quitandas de Sinop, sem sair do município.

Concorrente com rótulo fez ela correr atrás da própria embalagem

O empurrão para profissionalizar a apresentação veio de um susto comercial. Ela entrega ovos para o mesmo cliente há seis anos, sempre sozinha, sem concorrência.

Na semana anterior à entrevista, apareceu outro fornecedor no mesmo estabelecimento, com embalagem nova e rótulo. A reação dela foi imediata: encomendou os próprios rótulos, que chegaram no dia anterior à gravação, em versões para bandejas de 20 e de 30 ovos, com espaço reservado para inserir o selo quando sair. Comprou também uma seladora usada de um produtor que desativou uma granja de gaiolas, calculando que bandeja de papel reciclável mais plástico sai mais barato que bandeja plástica com tampa vinda de outro estado.

Aves ornamentais viraram a terceira fonte de renda

Além dos ovos de mesa e do descarte, a propriedade abriu outra frente. A funcionária que mora no local trabalhava em criatório de aves ornamentais, e o conhecimento dela foi aproveitado.

Os números desse nicho surpreendem pela margem. O pintinho de galinha sedosa sai por R$ 50 e a dúzia de ovos por R$ 120. Ela pagou R$ 250 em um galo matriz vindo de Cuiabá, a 600 quilômetros, e já teve três chocadas com 27 a 28 pintinhos cada. Há compradores que percorrem quase 100 quilômetros para buscar um único pintinho. A propriedade também produz açafrão e molho de pimenta, e o casal revende polpa de fruta de outro produtor da região.

Rotina hoje é dividida entre três pessoas

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A operação começou com ela, o marido Luiz e o cunhado. Há um ano, em 9 de maio, contrataram uma funcionária, que passou a morar na propriedade.

A mudança foi motivada por saúde. O marido teve problemas e precisa de cuidados, e a mãe dela, que mora com o casal, também não anda bem. Com a funcionária cuidando do manejo diário, ela consegue acompanhar consultas e hospital sem deixar as aves sozinhas. A divisão de trabalho atual coloca ela nas vendas e na gestão, o marido nas entregas junto com ela, e a funcionária no manejo dos galpões. O sonho declarado é automatizar os comedouros, já que os bebedouros pendulares já reduzem parte do serviço.

Conta nos comentários: você largaria uma aposentadoria tranquila para montar um negócio do zero depois dos 50, como ela fez quando a pandemia fechou as escolas? E quem cria galinha, já perdeu cliente porque a produção caiu no fim do ciclo do lote?

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Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Bruno Teles.

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