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Quando a promotoria pediu para tirá-la do júri por ser filha da ré, a advogada de 26 anos continuou na defesa da própria mãe, acusada de homicídio, e o júri decidiu pela absolvição

Quando a promotoria pediu para tirá-la do júri por ser filha da ré, a advogada de 26 anos continuou na defesa da própria mãe, acusada de homicídio, e o júri decidiu pela absolvição

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Quando a promotoria pediu para tirá-la do júri por ser filha da ré, a advogada de 26 anos continuou na defesa da própria mãe, acusada de homicídio, e o júri decidiu pela absolvição

Escrito por Bruno Teles

Publicado em 04/08/2026 às 12:30

Atualizado em 04/08/2026 às 12:48

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Ela tinha 14 anos quando a mãe foi acusada de homicídio. Doze anos depois, virou advogada e atuou na defesa no tribunal do júri que decidiu pela absolvição.

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Camila Pita tinha 14 anos quando policiais bateram na porta de casa em Valença, na Bahia, em março de 2012. Doze anos depois, já formada, integrou a equipe de sete defensores que atuou no tribunal do júri em setembro de 2024. A mãe aguardou o julgamento em liberdade.

Ela sabia o inquérito de cor. Cada palavra, cada frase. Camila Pita passou doze anos convivendo com o processo que acusava a mãe, Rosália Maria Negrão Pita, de homicídio, e em 24 de setembro de 2024 entrou no plenário do tribunal do júri como advogada de defesa, conforme reportagem de Naiana Andrade publicada pela Agência Pública em 10 de maio de 2025.

O julgamento começou às 8h30 e varou a madrugada, terminando por volta das 2h do dia seguinte. No meio da sustentação dela, a promotoria pediu que a filha da ré fosse retirada da equipe de defesa. O juiz Diogo Souza Costa indeferiu o pedido.

A madrugada que mudou tudo em 2012

Ela tinha 14 anos quando a mãe foi acusada de homicídio. Doze anos depois, virou advogada e atuou na defesa no tribunal do júri que decidiu pela absolvição.

O caso começou em 13 de março de 2012, em Valença, cidade do interior baiano com pouco mais de 90 mil habitantes. Camila, então com 14 anos, acordou com batidas na porta da casa onde morava com a mãe.

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Eram policiais perguntando pelo paradeiro de Rosália. Ela conta que ficou desesperada sem entender o que acontecia, imaginando que a mãe tivesse morrido ou sofrido acidente. Naquela mesma noite, o namorado de Rosália, José Antônio Silva Braga, havia morrido por disparo de arma de fogo, e ela foi levada à delegacia.

O que a perícia encontrou

O laudo do perito criminal registra que Rosália aparece primeiro como única testemunha da morte, apresentando a versão de suicídio, e que na mesma noite passou a ser ouvida na condição de suspeita.

A equipe fez exame residuográfico nas mãos da vítima, durante a necropsia, e nas mãos dela. O teste busca resíduos de chumbo em casos de disparo. Os dois resultados foram negativos. Durante a coleta, os peritos notaram manchas de aparência orgânica no vestido que ela usava e solicitaram a peça para exame. O resultado apontou presença de sangue.

A leitura da defesa sobre esse laudo

Parecer datado de 7 de novembro de 2013, assinado pelo médico legista aposentado e perito Luis Carlos Cavalcante Galvão, contratado pela defesa, tratou justamente desse ponto.

Segundo o documento, a presença de sangue no vestido era esperada, já que ela informou ter tido contato com a vítima no momento em que a socorria. Mesmo assim, o juiz Reinaldo Peixoto Marinho considerou suficientes os indícios de autoria e determinou que o caso fosse a júri popular, procedimento previsto para crimes dolosos contra a vida.

Os argumentos apresentados no plenário

A promotoria sustentou que Rosália matou o namorado em um relacionamento descrito como conturbado e que houve fraude processual, com alteração da cena. Segundo a acusação, ela teria disparado à queima roupa contra o coração da vítima, saído do carro, trancado a porta do lado esquerdo e deixado o revólver sobre o banco do passageiro, motivada por vingança ao suspeitar de traição.

A defesa contestou ponto a ponto. O advogado Fabiano Pimentel afirmou que não havia testemunhas presenciais nem prova concreta de autoria, e destacou a ausência de pólvora nas mãos e no vestido. Argumentou também que o intervalo entre o disparo e o pedido de socorro foi de poucos minutos, segundo testemunhas, o que tornaria inviável executar toda a sequência atribuída a ela sem deixar vestígio e sem ser percebida.

A prova que a defesa levou ao júri

Um dos momentos mais marcantes da sessão envolveu vídeos e laudos médicos. A defesa buscou demonstrar que uma pessoa atingida no coração pode manter movimentos e permanecer consciente por alguns segundos ou minutos.

O objetivo era contestar a tese de morte instantânea sustentada pela acusação. Segundo essa linha, a vítima teria tentado sair do carro por conta própria e caído na calçada próxima depois do disparo, o que reforçaria a impossibilidade de o crime ter ocorrido como descrito na denúncia.

O pedido para retirar a filha da defesa

Foi durante a sustentação de Camila que veio a surpresa. Ela descrevia o sofrimento acumulado pela família ao longo de doze anos em uma cidade pequena, onde praticamente todos se conhecem, quando a promotoria pediu sua retirada da equipe por ser filha da ré.

Ela conta que entrou em desespero naquele momento. O juiz negou o pedido depois de verificar a inscrição dela no Cadastro Nacional dos Advogados, confirmar a regularidade junto à Ordem dos Advogados do Brasil e constatar que ela já havia atuado em júris de outros casos. Camila integrava uma equipe de sete defensores, e não atuava sozinha.

Como o júri decidiu

Ela tinha 14 anos quando a mãe foi acusada de homicídio. Doze anos depois, virou advogada e atuou na defesa no tribunal do júri que decidiu pela absolvição.

O conselho de sentença era formado por sete pessoas, quatro mulheres e três homens. A decisão saiu na madrugada de 25 de setembro de 2024.

Camila relata que se ajoelhou e rezou enquanto os jurados estavam na sala secreta, e que a resposta veio quando o advogado Fabiano Pimentel sinalizou com quatro dedos. Foram quatro votos pela absolvição. Vale registrar como funciona: desde 2019, a apuração é encerrada assim que se atinge a maioria de quatro votos, justamente para preservar o sigilo, o que significa que os três votos restantes não são revelados. Os jurados também absolveram Rosália da acusação de fraude processual, acolhendo a possibilidade de disparo acidental ou suicídio.

O que diz a promotoria

A promotora Rita de Cássia Pires Bezerra Cavalcanti, que atuou no júri, se manifestou por nota. Ela registrou que não participou da investigação, não fez a denúncia nem a instrução, e que atuou apenas na sessão plenária, tendo apresentado pedido diverso do entendimento dos promotores que a antecederam.

Segundo ela, a distância temporal afeta a memória de quem é ouvido em julgamento, e não caberia rediscutir a prova diante de uma absolvição. Comparou o caso ao filme Anatomia de uma Queda, observando que laudos nem sempre explicam tudo e que, sem testemunhas e com inconclusões periciais, apenas os presentes sabem o que ocorreu. Avaliou que o julgamento pacificou uma ferida aberta havia anos nas famílias da vítima e da ré, e afirmou acatar a decisão popular.

O que o caso expõe sobre a Justiça

A demora é o elemento que atravessa toda a história. Doze anos separam o fato do julgamento, tempo suficiente para uma menina de 14 anos concluir o ensino médio, cursar Direito, se inscrever na Ordem e atuar em júris antes de defender a própria mãe.

A advogada criminalista Carla Silene Lisboa, diretora de prerrogativas da seccional mineira da Ordem, observou que casos com maior repercussão social tendem a receber atenção mais imediata dos órgãos de apuração, o que pode explicar a rapidez do trabalho pericial em uma cidade do interior. Ela apontou também o baixo investimento do país em polícia investigativa equipada e tecnicamente preparada, e a demora habitual dos resultados de perícia quando ela é realizada.

E você, acha que uma advogada deveria poder defender a própria mãe em um tribunal do júri? Conta aqui nos comentários o que pensa sobre isso, e diga também o que mais te chama atenção nessa história, o desfecho ou os doze anos que ele levou para chegar.

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Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Bruno Teles.

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