Quase 300 lojas fechadas e cerca de 2 mil funcionários demitidos: em meio à crise bilionária da Casas Bahia, trabalhador que dedicou 21 anos à empresa recebe o desligamento, grava adeus emocionado e não consegue conter o choro ao encerrar um dos capítulos mais importantes de sua vida
Escrito por Ana Alice
Publicado em 17/08/2026 às 06:10
Economia
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A demissão de um funcionário após 21 anos na Casas Bahia expõe o impacto humano de uma reestruturação marcada por fechamento de lojas, milhares de desligamentos, prejuízo bilionário e incertezas sobre o futuro da varejista.
Depois de 21 anos entrando praticamente pela mesma porta para trabalhar, Edson Silva deixou a unidade da Casas Bahia de Ponta Porã, em Mato Grosso do Sul, na sexta-feira (14) em uma situação que ele provavelmente não imaginava viver daquela forma.
O funcionário recebeu a informação sobre o desligamento durante uma reunião, enquanto a loja encerrava as atividades em meio a uma ampla redução da estrutura física da varejista no país.
Na despedida gravada em vídeo, Edson chorou ao falar da empresa onde trabalhou por mais de duas décadas e ajudou a sustentar a família.
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O caso ganhou repercussão justamente quando a crise da Casas Bahia entrou em uma fase ainda mais delicada.
A companhia fechou 298 lojas e cerca de 1,9 mil trabalhadores foram desligados entre os dias 13 e 14 de agosto, segundo informações divulgadas após os cortes.
A redução atingiu quase 30% da rede física que estava em operação.
Pouco depois, surgiu uma atualização que ampliou o peso do cenário.
No resultado do segundo trimestre de 2026, a Casas Bahia informou prejuízo líquido de R$ 10,1 bilhões e admitiu avaliar alternativas para reorganizar suas obrigações, incluindo uma nova recuperação extrajudicial ou até uma recuperação judicial.
Por trás desses números, a despedida de Edson mostra como uma reestruturação empresarial que aparece em balanços, comunicados e planilhas também alcança profissionais que passaram décadas construindo a própria vida dentro da companhia.
Funcionário trabalhou 21 anos na mesma loja da Casas Bahia
Edson trabalhava na unidade de Ponta Porã quando recebeu a notícia de que sua trajetória na rede havia chegado ao fim.
Segundo relato reproduzido pela Folha Regional, ele soube do desligamento durante uma reunião na sexta-feira (14), data em que centenas de lojas tiveram as atividades encerradas pelo país.
No vídeo que passou a circular nas redes sociais, o ex-funcionário agradeceu aos gestores, colegas e clientes que conheceu durante os 21 anos de empresa.
Mais do que falar sobre o emprego, ele associou aquele período à construção da própria família.
“Foi daqui que eu criei meus filhos”, afirmou ao recordar o que o trabalho representou ao longo dessas duas décadas.
A emoção aumentou no momento em que Edson falou diretamente sobre o desligamento.
“Hoje o coração está partido mesmo, mas com sentimento de dever cumprido.”
Apesar da demissão, ele manteve um discurso de agradecimento à empresa e às pessoas com quem conviveu.
A despedida ocorreu no mesmo período em que trabalhadores de diferentes cidades começaram a relatar fechamentos de unidades e desligamentos relacionados à reorganização da companhia.
Casas Bahia fecha 298 lojas e reduz quase 30% da rede
A dimensão da reestruturação ajuda a entender por que o vídeo ultrapassou a história individual de um funcionário.
A Casas Bahia decidiu fechar 298 lojas, quantidade equivalente a aproximadamente 28,7% da rede de pouco mais de mil pontos físicos que mantinha antes da rodada de cortes.
Segundo informações atribuídas inicialmente ao Valor Econômico e posteriormente reproduzidas por outros veículos, cerca de 600 funcionários foram desligados na quinta-feira (13), enquanto aproximadamente 1,3 mil cortes ocorreram ou estavam previstos para a sexta-feira (14).
O total divulgado ficou em torno de 1,9 mil demissões em dois dias.
Houve ainda estimativas de que a redução do quadro poderia alcançar números maiores, mas não há confirmação pública segura de que 3 mil desligamentos tenham efetivamente ocorrido.
A própria companhia informou que está redimensionando seu quadro de funcionários para adequá-lo à nova escala da operação.
Além das lojas e da força de trabalho, a revisão envolve contratos, investimentos, despesas e a estratégia dos canais digitais, com maior atenção à margem e à geração de caixa.
Essa mudança representa uma redução relevante de uma rede que construiu sua presença nacional justamente com lojas físicas e forte relacionamento com consumidores.
Prejuízo de R$ 10,1 bilhões aumenta pressão sobre a Casas Bahia
O fechamento das unidades aconteceu praticamente ao mesmo tempo em que a Casas Bahia preparava a divulgação de seu balanço do segundo trimestre.
Os números mostraram um cenário financeiro mais grave do que aquele apresentado no início do ano.
A companhia registrou prejuízo líquido de R$ 10,1 bilhões no segundo trimestre de 2026, comparado a uma perda de R$ 555 milhões no mesmo período de 2025.
O número, porém, precisa de contexto.
Segundo a empresa, aproximadamente R$ 9,1 bilhões do resultado foram influenciados por efeitos contábeis não recorrentes, sem impacto imediato equivalente no caixa naquele trimestre.
Desconsiderando esses efeitos extraordinários, o prejuízo ajustado ficou em R$ 978 milhões.
Ainda assim, a perda permaneceu acima daquela registrada um ano antes.
Entre os ajustes realizados está uma baixa de aproximadamente R$ 5,7 bilhões relacionada a créditos tributários contabilizados anteriormente.
Também pesaram revisões contratuais, reorganização de pessoal, fechamento de lojas e mudanças nas expectativas de resultados futuros da empresa.
Ao fim do período, a companhia apresentava patrimônio líquido negativo em cerca de R$ 8,1 bilhões.
Casas Bahia avalia nova recuperação extrajudicial ou judicial
Outro ponto que mudou desde os primeiros relatos sobre as demissões foi a posição da própria empresa sobre os próximos passos financeiros.
Ao divulgar os resultados, a Casas Bahia afirmou que avalia diferentes medidas para reorganizar seus passivos e obrigações.
Entre as alternativas citadas estão uma possível nova recuperação extrajudicial e uma recuperação judicial.
Até o momento da divulgação, isso representava uma avaliação da companhia, e não a confirmação de que um novo pedido já havia sido apresentado.
A diferença é importante.
A Casas Bahia já recorreu à recuperação extrajudicial em 2024, quando negociou aproximadamente R$ 4,1 bilhões em dívidas com credores.
O processo foi iniciado em abril daquele ano e concluído alguns meses depois.
Agora, a companhia enfrenta novamente a necessidade de ajustar sua estrutura em um ambiente de juros elevados, crédito mais restritivo e consumidores endividados.
A varejista afirmou ainda que uma tentativa de captação junto a investidores internacionais não foi concluída.
Segundo a empresa, um investidor que demonstrava interesse acabou não levando a operação adiante, o que contribuiu para acelerar novas medidas de redimensionamento.
Casas Bahia acumula oito trimestres consecutivos de prejuízo
A dificuldade financeira não começou com o fechamento das 298 lojas.
Com o resultado mais recente, a Casas Bahia chegou ao oitavo trimestre consecutivo de prejuízo, segundo levantamento publicado pela Folha de S.Paulo.
No primeiro trimestre de 2026, a empresa já havia informado prejuízo de aproximadamente R$ 1,1 bilhão.
Em 2025, o grupo acumulou perdas próximas de R$ 3 bilhões, depois de registrar resultados negativos em diferentes trimestres.
O varejo de móveis e eletrodomésticos é particularmente sensível ao crédito.
Geladeiras, televisores, máquinas de lavar, móveis e outros itens de maior valor costumam depender de parcelamento, crediário ou financiamento.
Quando os juros permanecem altos e parte das famílias já está endividada, a decisão de comprar ou trocar esses produtos tende a enfrentar maior resistência.
A companhia também opera em um ambiente de competição intensa, tanto com redes tradicionais quanto com grandes plataformas digitais.
Nesse cenário, a estratégia apresentada pela Casas Bahia passou a priorizar uma operação menor e mais voltada à geração de caixa, mesmo que isso represente redução no número de lojas e no volume de compras de estoque.
Sindicato reage às demissões e cobra direitos dos trabalhadores
Enquanto a empresa tenta reorganizar as contas, parte da discussão saiu do campo financeiro e chegou às relações trabalhistas.
O Sindicato dos Empregados no Comércio de Osasco e Região, o Secor, informou em 14 de agosto que recebeu relatos de trabalhadores surpreendidos com o fechamento de unidades na região.
Segundo a entidade, alguns funcionários buscavam esclarecimentos sobre verbas rescisórias, liberação do FGTS, seguro-desemprego e outros direitos relacionados ao fim do contrato.
O Secor informou inicialmente que estava prestando orientação jurídica e cobrando explicações da empresa.
No dia seguinte, a entidade anunciou que pretendia ingressar com uma ação coletiva relacionada às demissões, alegando ausência de diálogo prévio.
O sindicato afirmou que pediria reintegração e indenização por dano moral.
A Casas Bahia não havia apresentado manifestação sobre essa ação sindical na publicação consultada.
O caso do Secor diz respeito à área de representação da entidade em Osasco e municípios da região de São Paulo e não significa que o sindicato represente diretamente Edson Silva, que trabalhava em Ponta Porã, no Mato Grosso do Sul.
Despedida de Edson Silva mostra impacto humano da crise
Grandes processos de reestruturação normalmente aparecem acompanhados de números: centenas de lojas, milhares de funcionários, bilhões de reais e percentuais de redução de custos.
No vídeo de Edson, esses números assumem outra dimensão.
Foram 21 anos em uma mesma empresa, tempo suficiente para acompanhar mudanças de gestores, colegas, clientes, estratégias comerciais e até transformações profundas na maneira como os brasileiros compram móveis e eletrodomésticos.
A loja onde ele trabalhava encerrou as atividades, enquanto a companhia tenta definir qual será o tamanho necessário para continuar operando e como reorganizar suas obrigações financeiras.
Para Edson, porém, a conta daqueles 21 anos não apareceu em um balanço.
Ela surgiu na lembrança do emprego com o qual criou os filhos, formou a família e construiu uma parte importante da própria história profissional.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Ana Alice.

