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Quase 6 mil litros de água do ar-condicionado por dia foram registrados em um prédio universitário com 113 aparelhos, mostrando como um gotejamento aparentemente pequeno pode se transformar em grande volume para irrigação, limpeza e outros usos que não exigem água potável
Escrito por Fabio Lucas Carvalho
Publicado em 12/08/2026 às 10:42
Ciência e Tecnologia
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Pesquisas publicadas em 2026 mostram que o condensado dos aparelhos pode ser reaproveitado em irrigação, limpeza e outros usos não potáveis, mas análises encontraram diferenças importantes de qualidade e até contaminação microbiológica.
Aquela água que pinga da mangueira do ar-condicionado e normalmente termina no chão ou no ralo está ganhando nova atenção da ciência em 2026. Estudos recentes mostram que o líquido pode representar uma fonte complementar de água, principalmente quando dezenas ou centenas de aparelhos funcionam juntos.
O potencial, porém, vem acompanhado de um alerta. Apesar da aparência transparente, a água do ar-condicionado não deve ser tratada automaticamente como água pura ou própria para beber.
Pesquisadores encontraram diferenças importantes na composição das amostras, além de contaminação microbiológica em determinados casos. Ao mesmo tempo, levantamentos mostram que grandes instalações podem deixar escapar milhares de litros todos os dias.
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A água não é produzida pelo aparelho
O ar-condicionado não cria água. O líquido aparece porque o aparelho retira parte da umidade presente no ar durante o processo de refrigeração.
Quando o ar úmido entra em contato com a superfície fria do evaporador, parte do vapor de água se condensa. As gotas são direcionadas para uma bandeja e depois eliminadas por uma tubulação de drenagem.
Por isso, a quantidade de água não é igual em todos os lugares.
Umidade do ar, temperatura, capacidade do equipamento, tempo de funcionamento e características do sistema interferem diretamente no volume que pode ser recuperado.
Isso explica por que estudos realizados em diferentes regiões encontraram resultados tão distintos e por que não existe um número único de litros que possa ser atribuído a qualquer aparelho residencial.
Estudo de 2026 encontrou contaminação em parte das amostras
Uma pesquisa publicada em 2026 na revista Desalination and Water Treatment analisou o condensado produzido por aparelhos instalados em edifícios administrativos de Saveh, no Irã.
O estudo disponível na ScienceDirect concluiu que a água apresentava características físico-químicas favoráveis, incluindo baixo conteúdo mineral, baixa salinidade e baixa dureza.
Mas a análise revelou um detalhe que muda completamente a forma como esse líquido deve ser encarado.
Os pesquisadores encontraram contaminação microbiológica em parte das amostras, incluindo presença de coliformes. Segundo o trabalho, os resultados impedem que o condensado coletado seja simplesmente classificado como água adequada para consumo humano sem tratamento.
Na prática, uma água aparentemente transparente pode carregar microrganismos adquiridos durante o contato com componentes do aparelho, sistema de drenagem, recipiente de armazenamento ou ambiente.
O resultado reforça que aparência não é sinônimo de potabilidade.
Outro trabalho analisou 30 aparelhos diferentes
Uma segunda pesquisa de 2026 mostra ainda por que é arriscado afirmar que toda água de ar-condicionado possui exatamente as mesmas características.
Pesquisadores ligados à Universidade de Ciências Médicas de Iranshahr coletaram amostras em triplicata de 30 aparelhos de ar-condicionado e avaliaram diferentes parâmetros químicos.
O estudo publicado no Journal of Advances in Environmental Health Research encontrou pH médio de 7,13, sólidos dissolvidos totais de 196,15 mg/L e condutividade elétrica de 296,74 µS/cm.
A dureza total chegou, em média, a 305,62 mg/L como CaCO₃.
Também foram medidos sódio, cálcio, magnésio e cloreto. O índice de qualidade calculado pelos pesquisadores variou de 32,14 a 126,6, intervalo classificado no trabalho entre qualidade moderada e ruim.
Os pesquisadores, entretanto, não descartaram o aproveitamento.
A conclusão apontou alto potencial de reúso, especialmente para finalidades não potáveis, como irrigação, mas ressaltou que estudos adicionais são necessários para avaliar segurança, tratamento necessário e utilização em maior escala.
A diferença entre os resultados obtidos em Iranshahr e os encontrados em outros locais demonstra justamente que não existe uma composição universal para o condensado.
113 aparelhos produziram quase 6 mil litros por dia
Se a quantidade produzida por apenas um ar-condicionado pode parecer pequena, a situação muda radicalmente quando o líquido de dezenas de unidades é reunido.
Uma grande revisão publicada em abril de 2026 na revista Discover Water analisou 21 estudos sobre recuperação e aproveitamento da água condensada por sistemas de ar-condicionado.
O trabalho publicado pela Springer Nature reuniu experiências realizadas em diferentes países e mostrou o tamanho que esse recurso aparentemente insignificante pode alcançar.
Em um dos casos avaliados, edifícios universitários no Egito equipados com 113 aparelhos produziram aproximadamente 5.977,7 litros de água por dia.
São quase 6 mil litros diariamente provenientes de algo que normalmente seria simplesmente descartado pelos drenos.
Outro estudo citado na revisão encontrou produção entre 10 e 30 litros por dia em aparelhos de duas toneladas de refrigeração no Bahrein, com forte relação entre a quantidade coletada e a umidade relativa do ar.
Na China, uma pesquisa revisada pelos autores calculou aproximadamente 1,6 kg de condensado por hora e 52,99 kg por dia por unidade durante condições de pico.
Esses valores não significam que qualquer aparelho residencial produzirá dezenas de litros todos os dias.
São resultados obtidos em equipamentos, climas, capacidades e condições de funcionamento diferentes. Justamente por isso, os números não devem ser usados como uma promessa de produção doméstica.
Sistema de coleta também pode ter retorno financeiro
A revisão de 2026 analisou ainda se instalar um sistema destinado especificamente à recuperação dessa água poderia fazer sentido financeiramente.
Em uma modelagem voltada para instituições em Gana, estruturas com aproximadamente 10 aparelhos apresentaram retorno estimado do investimento em 6,41 anos.
Com cerca de 20 aparelhos, o período calculado caiu para aproximadamente 3,21 anos.
O sistema proposto reúne a água dos drenos, conduz o líquido por tubulações, utiliza filtragem e direciona o condensado para reservatórios.
Dependendo da finalidade, bombas, filtros adicionais, sensores e outros componentes podem ser incorporados.
A ideia ganha escala principalmente em universidades, escritórios, hotéis, hospitais e outras instalações onde muitos aparelhos permanecem funcionando durante várias horas.
Irrigação, limpeza e descargas aparecem entre as possibilidades
Os estudos apontam que a aplicação mais direta está nos usos que não necessitam de água potável.
A revisão de 2026 reúne trabalhos que consideraram aplicações como irrigação de jardins, lavagem de pisos, descargas sanitárias e outras atividades domésticas ou institucionais não potáveis.
O estudo feito com 30 aparelhos em Iranshahr também apontou a irrigação como uma das possibilidades de reaproveitamento, embora ressalte a necessidade de avaliação da qualidade antes da utilização.
Isso significa que simplesmente colocar um balde embaixo da mangueira e usar a água para qualquer finalidade não reproduz necessariamente as condições estudadas pelos pesquisadores.
Coleta, armazenamento, manutenção do equipamento e destino final interferem na segurança.
Água transparente não significa água potável
A principal novidade trazida pelos estudos de 2026 é justamente esse contraste.
De um lado existe um recurso que normalmente é tratado como descarte e que, reunido em grandes instalações, pode alcançar milhares de litros.
Do outro, as pesquisas mostram que não é correto considerar a água do ar-condicionado automaticamente destilada, esterilizada ou própria para beber.
A composição varia e pode haver contaminação.
Por isso, o maior potencial demonstrado atualmente está no aproveitamento controlado para finalidades não potáveis, especialmente onde vários aparelhos permitem concentrar volumes suficientes para justificar um sistema de coleta.
O pequeno gotejamento que passa despercebido na parede de uma casa pode parecer irrelevante. Multiplicado por dezenas ou centenas de aparelhos funcionando durante meses, porém, ele revela uma fonte de água que a ciência está tentando deixar de tratar simplesmente como desperdício.
Fonte
https://jaehr.muk.ac.ir/a
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Fabio Lucas Carvalho.

