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Quilombola cearense de 24 anos, filho de agricultor que estudou só até o 3º ano, deixou a comunidade aos 5, entrou em Medicina pela Lei de Cotas, dependeu do restaurante universitário e da Bolsa Permanência e se tornou o primeiro médico quilombola formado pela UFC desde a criação do curso, em 1948

Quilombola cearense de 24 anos, filho de agricultor que estudou só até o 3º ano, deixou a comunidade aos 5, entrou em Medicina pela Lei de Cotas, dependeu do restaurante universitário e da Bolsa Permanência e se tornou o primeiro médico quilombola formado pela UFC desde a criação do curso, em 1948

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Quilombola cearense de 24 anos, filho de agricultor que estudou só até o 3º ano, deixou a comunidade aos 5, entrou em Medicina pela Lei de Cotas, dependeu do restaurante universitário e da Bolsa Permanência e se tornou o primeiro médico quilombola formado pela UFC desde a criação do curso, em 1948

Escrito por Carla Teles

Publicado em 03/08/2026 às 12:36

Atualizado em 03/08/2026 às 12:37

Curiosidades

Quilombola cearense entra em Medicina, conta com restaurante universitário, conclui o curso na UFC e volta sua carreira à comunidade. Imagem: Reprodução

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Diogo Augusto, quilombola cearense de 24 anos, saiu da comunidade ainda criança, ingressou em Medicina pela Lei de Cotas, contou com restaurante universitário e Bolsa Permanência para concluir o curso e se tornou o primeiro médico quilombola formado pela UFC desde 1948, marco que ele atribui às políticas públicas educacionais.

O quilombola cearense Diogo Augusto de Araújo dos Santos, de 24 anos, tornou-se o primeiro remanescente de quilombo do Ceará a concluir Medicina na Universidade Federal do Ceará desde a criação do curso, em 1948. Ele colou grau em 8 de dezembro de 2025, cinco anos depois de conquistar uma vaga pela Lei de Cotas.

A trajetória foi publicada pelo Diário do Nordeste em 17 de dezembro de 2025. Natural da Comunidade Quilombola Serra da Rajada, no distrito de Tucunduba, em Caucaia, Diogo afirmou que sua entrada e permanência na universidade dependeram diretamente de políticas públicas de acesso e assistência estudantil.

Família deixou a comunidade quando Diogo tinha 5 anos

Diogo, a mãe e os irmãos deixaram a Serra da Rajada quando ele tinha 5 anos. Segundo o médico, a mudança ocorreu porque a família precisava buscar acesso a serviços básicos, como educação, trabalho e saúde.

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A saída do território não rompeu o vínculo do quilombola cearense com sua comunidade de origem. Mesmo distante, ele continuou ligado aos familiares, à ancestralidade e às dificuldades enfrentadas pela população quilombola de Caucaia.

Morte do pai influenciou a escolha pela Medicina

O pai de Diogo, José Augusto Furtado dos Santos, era agricultor, cultivava inhame e banana e havia estudado somente até o terceiro ano do ensino fundamental. Ele morreu aos 42 anos, com a causa do óbito registrada como mal definida.

A ausência de um diagnóstico preciso permaneceu como uma inquietação para o filho. Diogo relacionou a morte do pai e outras perdas por falta de assistência à decisão de seguir a Medicina e trabalhar com populações historicamente afastadas dos serviços de saúde.

Caminho profissional parecia distante da realidade familiar

Embora desejasse contribuir com a saúde, Diogo inicialmente avaliou profissões que permitissem entrar mais rapidamente no mercado de trabalho. Ele considerou tornar-se bancário e também pensou em cursar Engenharia.

A Medicina parecia pouco acessível para alguém sem parentes médicos e vindo de uma família de baixa renda. A expectativa começou a mudar quando sua mãe, Sandra Alves, insistiu para que o filho estudasse em vez de abandonar a formação para trabalhar.

Lei de Cotas abriu a entrada na UFC

Quilombola cearense entra em Medicina, conta com restaurante universitário, conclui o curso na UFC e volta sua carreira à comunidade. Imagem: Reprodução

Diogo ingressou em Medicina na Universidade Federal do Ceará como homem negro, por meio da Lei de Cotas. A aprovação ocorreu cinco anos antes da colação de grau realizada em dezembro de 2025.

Para o quilombola cearense, a política de reserva de vagas foi determinante para que a universidade se tornasse uma possibilidade concreta. A fonte não informa sua nota de ingresso, a modalidade específica dentro das cotas ou o processo seletivo utilizado.

Permanecer no curso foi outro desafio

Entrar na UFC não eliminou as diferenças econômicas percebidas por Diogo. Ele relatou que utilizava transporte público sozinho desde os 11 anos, enquanto alguns colegas chegavam à faculdade acompanhados por motoristas particulares.

Essa distância social produziu momentos de isolamento e dúvida sobre seu pertencimento ao curso. A permanência em Medicina exigiu enfrentar não apenas a carga acadêmica, mas também a sensação de ocupar um espaço historicamente pouco acessível a estudantes quilombolas.

Restaurante universitário garantiu alimentação

O restaurante universitário da UFC teve papel direto na continuidade dos estudos. Diogo afirmou que não possuía dinheiro para comprar comida diariamente e encontrou no serviço uma garantia de segurança alimentar.

Sem o restaurante universitário, uma necessidade básica poderia ter comprometido a formação do futuro médico. A fonte não detalha quantas refeições ele fazia no local nem o valor que teria de gastar fora da universidade.

Bolsa Permanência ajudou a concluir o curso

Outro suporte decisivo foi a Bolsa Permanência, oferecida pela UFC ao estudante a partir de 2022. Diogo classificou o benefício como fundamental para que conseguisse chegar à formatura.

O auxílio permitiu reduzir parte da pressão financeira durante uma graduação em período integral. Ao resumir sua trajetória, o quilombola cearense afirmou ser fruto de políticas públicas, reunindo nessa avaliação as cotas, a alimentação universitária e o apoio financeiro.

Formatura criou um marco desde 1948

A Faculdade de Medicina da UFC foi criada em 1948 e, segundo a reportagem, já havia formado mais de 9 mil médicos. Diogo tornou-se o primeiro quilombola cearense identificado entre esses profissionais.

A conquista foi recebida por ele com sentimentos diferentes. Ao mesmo tempo que comemorou a formatura, o novo médico questionou por que foram necessárias quase oito décadas para que um quilombola do estado alcançasse esse lugar.

Dados revelam desigualdade educacional no Ceará

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística citados pela reportagem indicam que 26,4% dos quilombolas cearenses com 15 anos ou mais não sabiam ler e escrever. Na população geral do estado, a taxa era de 14,1%.

O Censo de 2022 também registrou quase 24 mil quilombolas no Ceará, a décima maior população desse grupo no país. Os números ajudam a explicar por que a formação de Diogo representa um avanço individual inserido em um cenário coletivo de acesso desigual à educação.

Registro médico chegou quatro dias depois

Diogo assinou a ata da colação de grau em 8 de dezembro de 2025. Quatro dias depois, em 12 de dezembro, recebeu o registro no Conselho Regional de Medicina.

Com a documentação profissional, ele poderia iniciar o atendimento como médico. A rapidez entre a formatura e o recebimento do registro abriu caminho para que começasse a trabalhar próximo das comunidades que orientaram sua escolha profissional.

Primeiro trabalho foi planejado para área quilombola

Diogo afirmou que pretendia começar a trabalhar em um posto de saúde da zona rural de Caucaia, na região das Porteiras, identificada como quilombola. A decisão mantinha sua atuação próxima do território e das necessidades que conhecia desde a infância.

O objetivo não era apenas exercer Medicina, mas devolver à comunidade parte do suporte recebido durante sua trajetória. Ele atribuiu a conclusão do curso à força do avô, à ancestralidade familiar e às pessoas que o ajudaram a não desistir.

Saúde coletiva passou a orientar novos projetos

Além do atendimento médico, Diogo integra o Grupo de Trabalho de Saúde Quilombola Graça Epifânio, ligado ao Ministério da Saúde. Ele participa da elaboração da Política Nacional de Saúde Quilombola.

O médico também declarou interesse em seguir a área de saúde coletiva e tornar-se sanitarista. Sua formação passou a ser usada não apenas no atendimento individual, mas na discussão de políticas voltadas às condições de vida e saúde das comunidades quilombolas.

Psiquiatria tornou-se objetivo para a residência

Embora tenha forte interesse por pesquisa e saúde coletiva, Diogo afirmou que sua principal paixão clínica é a psiquiatria. Ele havia realizado uma prova para tentar ingressar na residência médica da especialidade.

O objetivo é estudar saúde mental quilombola e políticas públicas de saúde. Diogo relaciona esse interesse ao adoecimento de lideranças que enfrentam ameaças e conflitos durante a luta pelo direito à terra.

Mãe transformou educação em trabalho comunitário

Sandra Alves, mãe de Diogo, teve participação decisiva ao impedir que ele abandonasse os estudos para trabalhar. Pedagoga, ela ensinava moradores da comunidade quilombola a ler e escrever no quintal de casa.

Mais tarde, o espaço deu origem à Escola Quilombola Yara Guerra, que se tornou municipal. A formação de Diogo também reflete uma história familiar na qual a educação foi tratada como instrumento de permanência, autonomia e defesa de direitos.

Irmãos também seguiram caminhos acadêmicos

A irmã mais nova de Diogo concluiu Letras e Espanhol na Universidade Estadual do Ceará. O irmão mais velho formou-se em Direito, tornou-se bombeiro militar e também passou a estudar Medicina.

Diogo acredita que sua aprovação ajudou o irmão a perceber que o curso era possível. A conquista individual ampliou as perspectivas dentro da própria família e produziu referências que não estavam disponíveis para a geração de seu pai.

Diploma passou a representar uma conquista coletiva

Ao assinar a ata de colação, Diogo recordou o percurso vivido com a mãe e os irmãos. Ele afirmou que pessoas de origem pobre muitas vezes tratam grandes conquistas apenas como obrigação e têm dificuldade para reconhecer o próprio resultado.

O novo médico decidiu valorizar mais esse momento, sem atribuí-lo apenas ao esforço individual. Para o quilombola cearense, o diploma reúne ancestralidade, apoio familiar, políticas públicas e recursos de permanência que impediram a interrupção do curso.

Primeiro médico abre uma porta que ainda era estreita

A formatura de Diogo cria um marco na história da UFC, mas também expõe o atraso no acesso de quilombolas a cursos de alta concorrência. Ser o primeiro após mais de 9 mil médicos formados representa avanço e, simultaneamente, evidencia uma ausência prolongada.

Agora, ele pretende atuar na saúde quilombola, aprofundar pesquisas e buscar formação em psiquiatria. Na sua opinião, cotas, restaurantes universitários e bolsas de permanência deveriam ser ampliados para garantir que mais estudantes de baixa renda consigam não apenas entrar, mas concluir Medicina? Conte nos comentários.


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Carla Teles.

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