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Rede de pesca puxou do mar uma colossal mulher de bronze a 120 metros de profundidade, estátua de quase 2 metros criada há cerca de 2.300 anos que desencadeou uma corrida por tesouros antigos no fundo do Egeu

Rede de pesca puxou do mar uma colossal mulher de bronze a 120 metros de profundidade, estátua de quase 2 metros criada há cerca de 2.300 anos que desencadeou uma corrida por tesouros antigos no fundo do Egeu

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Rede de pesca puxou do mar uma colossal mulher de bronze a 120 metros de profundidade, estátua de quase 2 metros criada há cerca de 2.300 anos que desencadeou uma corrida por tesouros antigos no fundo do Egeu

Escrito por Valdemar Medeiros

Publicado em 20/08/2026 às 23:51

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Rede de pesca puxou do mar uma colossal mulher de bronze a 120 metros de profundidade

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Pescadores encontraram a 120 metros de profundidade a Dama de Kalymnos, monumental estátua grega de bronze de 1,98 metro criada no século III a.C. e hoje preservada em museu.

Uma rede de pesca lançada nas águas profundas do mar Egeu trouxe à superfície em 1994 algo que ninguém esperava encontrar a cerca de 120 metros de profundidade: uma monumental mulher de bronze com 1,98 metro de altura, produzida aproximadamente no século III a.C. A peça, que passou a ser conhecida como Dama de Kalymnos, tornou-se uma das descobertas submarinas mais impressionantes da arqueologia grega recente e acabou provocando um efeito inesperado entre os pescadores da região.

Segundo o J. Paul Getty Museum, a estátua foi puxada por um barco de pesca a leste da ilha grega de Kalymnos e é considerada o bronze monumental mais importante recuperado do mar naquele conjunto de descobertas do Egeu. Depois que o governo grego recompensou os responsáveis pela entrega da peça, outros fragmentos de esculturas começaram a surgir das mesmas águas durante as duas décadas seguintes, transformando o fundo do mar ao redor da ilha em uma espécie de arquivo perdido da Antiguidade.

Rede de pesca alcançou uma estátua escondida a 120 metros

O primeiro número que transforma a história da Dama de Kalymnos em algo extraordinário é a profundidade.

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A escultura foi retirada de aproximadamente 120 metros abaixo da superfície, o equivalente a um prédio de cerca de 40 andares colocado verticalmente sob a água.

Não foi encontrada durante uma missão arqueológica previamente planejada nem identificada por equipamentos sofisticados de prospecção. O bronze simplesmente apareceu durante uma operação de pesca em 1994.

“The Lady of Kalymnos” is a magnificent well-preserved ancient Greek bronze statue of a woman whose body is covered with a tunic and a fringed robe.

Larger than life-size, 1.95m high, 3rd Century BC. The sculpture was found in the nets of a local fisherman in 1995. It’s bronze,… pic.twitter.com/Nw4kuWhTMh

— ArchaeoHistories (@histories_arch) February 8, 2025

Esse detalhe também explica um problema que acompanha a peça até hoje. Como ela foi retirada do fundo sem que arqueólogos pudessem documentar previamente todo o ambiente ao redor, seu contexto original permanece incompleto.

Mulher de bronze mede 1,98 metro e foi produzida no período helenístico

Quando retirada do mar, a peça revelou dimensões impressionantes. O estudo publicado pelo Getty registra uma altura de 198 centímetros, colocando a personagem praticamente em escala humana monumental.

O inventário identifica a obra como uma estátua feminina encontrada no mar a leste de Kalymnos em 1994 e atualmente registrada sob o número 3903.

A análise estilística situa a criação provavelmente no século III a.C., dentro do período helenístico. Isso significa que a escultura pode ter aproximadamente 2.300 anos.

Credit: Hellenic Ministry of Culture

A peça pertence, portanto, a uma época em que o mundo grego havia se expandido enormemente depois das conquistas de Alexandre, o Grande, e diferentes reinos helenísticos disputavam poder, prestígio e influência pelo Mediterrâneo oriental.

Manto de bronze parece tecido e deixa roupas aparecerem por baixo

A mulher aparece usando um longo quíton pregueado, uma espécie de túnica, coberto por um grande manto com franjas que envolve o corpo e também passa sobre sua cabeça. O trabalho do bronze é tão detalhado que o manto foi modelado para transmitir a impressão de um tecido fino.

Os escultores conseguiram criar no metal a sensação de diferentes camadas de roupa. Em algumas regiões, as pregas da túnica parecem perceptíveis sob o tecido representado pelo manto.

Apenas pequenas partes do corpo permanecem visualmente expostas, entre elas o rosto, parte de uma das mãos e uma região do pé.

A atenção se concentra, portanto, muito menos na anatomia nua tão conhecida da escultura grega e muito mais na capacidade de transformar bronze rígido em algo que parece tecido dobrado sobre uma pessoa real.

Dama de Kalymnos pode representar uma mulher poderosa, rainha ou até deusa

Apesar de mais de três décadas de estudos, ninguém pode afirmar com certeza quem é a mulher representada.

Pesquisadores relacionam a escultura ao tipo conhecido como Grande Mulher de Herculano, modelo utilizado durante o período helenístico para representar mulheres respeitáveis das classes média e alta, integrantes de famílias importantes, rainhas e até divindades.

Pescadores encontraram a 120 metros de profundidade a Dama de Kalymnos, monumental estátua grega de bronze de 1,98 metro criada no século III a.C. e hoje preservada em museu.

A composição transmite uma imagem deliberadamente solene. O corpo está envolvido pelo manto, a cabeça coberta e os traços faciais seguem um padrão idealizado.

Essa combinação tornou possível uma hipótese ainda mais fascinante: a personagem poderia representar alguém pertencente à própria elite dos grandes reinos helenísticos.

Véu semelhante ao de rainhas abriu caminho para hipótese envolvendo Arsinoe III

Um detalhe específico da cabeça aumentou o mistério. Segundo o estudo publicado pelo Getty, a maneira como o véu cobre a cabeça e os cabelos possui forte semelhança com representações de rainhas da dinastia ptolemaica encontradas em moedas.

A arqueóloga Olga Palagia chegou a propor que a Dama de Kalymnos poderia representar Arsinoe III, rainha do Egito ptolemaico entre os séculos III e II a.C. A hipótese se baseia também em semelhanças entre o rosto da escultura e outro retrato de bronze conservado em Mântua.

O rosto apresenta características suficientemente idealizadas para impedir uma conclusão segura. A estátua pode ter representado uma rainha, uma mulher rica ou mesmo uma divindade.

O mistério de sua identidade permanece intacto.

Descoberta provocou uma reação inesperada entre pescadores da ilha

O Serviço Arqueológico Helênico concedeu uma recompensa considerada extraordinária pela entrega da escultura. Segundo o Getty, a notícia se espalhou pela comunidade pesqueira de Kalymnos e desencadeou uma reação inesperada.

Nos 20 anos seguintes, diversos fragmentos de estátuas foram entregues às autoridades.

Alguns haviam acabado de ser encontrados. Outros aparentemente permaneciam havia anos guardados em depósitos e porões na própria ilha. Por algum tempo, arrastar redes em busca de bronzes antigos tornou-se potencialmente muito mais lucrativo do que encontrar apenas peixes.

O fenômeno colocou nas mãos dos arqueólogos uma coleção extraordinária, mas também criou um enorme problema científico.

Cabeça de homem, cavaleiros e pernas de bronze começaram a emergir do mesmo mar

Depois da Dama de Kalymnos, as águas próximas continuaram entregando peças surpreendentes. Em 1997, apareceu uma cabeça de bronze ligeiramente maior que o tamanho natural representando um homem maduro e barbado.

Ele usa uma kausia, espécie de chapéu de feltro associado à corte da Macedônia e aos sucessores de Alexandre, o Grande.

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No mesmo período começaram a aparecer pernas de bronze associadas a estátuas equestres. Outras partes foram encontradas em anos diferentes e a vários quilômetros umas das outras.

Em 2006, pescadores retiraram do mar parte do corpo de um cavaleiro usando armadura. Em 2009 surgiu outro torso equestre ainda mais completo, decorado com figuras, pássaros, motivos em espiral e até um grifo.

Os achados revelaram que a Dama provavelmente não era o único grande bronze antigo transportado por aquelas águas.

Um possível navio carregado de esculturas pode continuar perdido no fundo

A sequência de descobertas levantou uma possibilidade extraordinária: os diferentes bronzes poderiam ter pertencido à carga de um ou mais navios antigos.

No caso dos dois cavaleiros recuperados posteriormente, semelhanças de tamanho, vestimenta, armadura e região de origem fazem pesquisadores considerar razoável que as peças tenham pertencido ao mesmo naufrágio.

Mas localizar o navio é outra história.

Profundidades elevadas aumentam drasticamente o custo e a complexidade de levantamentos arqueológicos submarinos.

Correntes também podem deslocar objetos depois do naufrágio, enquanto redes de pesca conseguem arrastar peças pesadas por grandes distâncias.

Por isso, encontrar uma escultura não significa necessariamente encontrar o ponto exato onde a embarcação naufragou.

No caso da Dama, o contexto arqueológico completo continua desconhecido.

Ânfora encontrada com um cavaleiro ajudou a reconstruir parte do mistério

Uma das melhores pistas apareceu muitos anos depois da descoberta da mulher de bronze. Quando um dos cavaleiros foi retirado do mar em 2006, uma ânfora intacta e estampada veio na mesma captura.

Depósitos calcários presentes no recipiente continham elevada concentração de óxidos de cobre, indicando que a ânfora e a escultura permaneceram durante muito tempo no mesmo ambiente submarino.

A cerâmica foi identificada como uma ânfora do tipo Knidos e datada aproximadamente entre 78 a.C. e o final do século I a.C.

Romanos transportavam esculturas gregas pelo Mediterrâneo

A possibilidade de uma obra do século III a.C. estar viajando em uma embarcação muito posterior não seria excepcional.

Durante os últimos séculos da República Romana, esculturas gregas circulavam intensamente pelo Mediterrâneo. Obras podiam ser compradas, encomendadas, transferidas entre propriedades ou levadas como resultado de conquistas e saques.

O estudo do Getty lembra inclusive correspondência de Cícero na qual o romano solicita a seu agente a aquisição e o envio de esculturas para ornamentar seus espaços.

Grandes obras de bronze poderiam, portanto, viajar em navios comuns ao lado de mercadorias muito mais corriqueiras, como ânforas.

Se uma embarcação desse tipo afundasse, obras produzidas séculos antes poderiam simplesmente desaparecer no fundo do mar.

Achado de 1994 hoje domina o Museu Arqueológico de Kalymnos

Depois de voltar à superfície, a mulher de bronze passou por conservação antes de retornar à ilha onde havia sido encontrada.

Atualmente, a Dama de Kalymnos é apresentada como a principal peça do Museu Arqueológico de Kalymnos, instituição inaugurada em 2009 para reunir objetos que contam a história da ilha desde os períodos pré-históricos até tempos posteriores ao Império Bizantino.

Durante séculos, a enorme mulher permaneceu invisível a cerca de 120 metros de profundidade. Hoje ocupa posição de destaque dentro de um museu, protegida e estudada como um dos grandes testemunhos da escultura helenística em bronze.

Mas parte de sua história permanece no fundo do mar.

Uma rede trouxe a mulher de volta, mas o naufrágio continua guardando respostas

Trinta e dois anos depois da descoberta de 1994, a arqueologia consegue explicar bastante sobre a Dama de Kalymnos.

A peça tem 1,98 metro, pertence provavelmente ao século III a.C., reproduz um tipo escultórico utilizado para mulheres importantes e pode ter ligações visuais com retratos da realeza ptolemaica. O que ninguém conseguiu reconstruir completamente é sua viagem.

Não se sabe de onde exatamente partiu, quem decidiu transportá-la, para onde estava indo ou qual desastre a levou a terminar a aproximadamente 120 metros de profundidade no Egeu.

A própria recompensa entregue aos pescadores após o achado acabou revelando que aquelas águas escondiam muito mais. Cabeças, pernas, cavaleiros e outros fragmentos começaram a emergir nas décadas seguintes, sugerindo um patrimônio arqueológico muito maior espalhado pelo fundo marinho.

Tudo começou, porém, com uma rede de pesca.

Ao ser puxada para a superfície em 1994, ela trouxe não apenas peixes, mas uma mulher de bronze quase dois metros de altura criada há cerca de 2.300 anos, dando à pequena ilha de Kalymnos uma das descobertas arqueológicas submarinas mais extraordinárias de sua história.


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Valdemar Medeiros.

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