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Relembre o pescador que tirou a esposa e os quatro filhos de casa durante a enchente, deixou a família em segurança, voltou com o próprio barco para buscar vizinhos e, após o casco ser furado pela correnteza, pegou um caiaque para continuar os resgates nas ruas alagadas

Relembre o pescador que tirou a esposa e os quatro filhos de casa durante a enchente, deixou a família em segurança, voltou com o próprio barco para buscar vizinhos e, após o casco ser furado pela correnteza, pegou um caiaque para continuar os resgates nas ruas alagadas

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Relembre o pescador que tirou a esposa e os quatro filhos de casa durante a enchente, deixou a família em segurança, voltou com o próprio barco para buscar vizinhos e, após o casco ser furado pela correnteza, pegou um caiaque para continuar os resgates nas ruas alagadas

Escrito por Valdemar Medeiros

Publicado em 28/08/2026 às 15:10

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Região Central de Porto Alegre ficou completamente alagada. (Foto: Gustavo Garbino/PMPA)

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Após salvar a esposa e os quatro filhos da enchente em Porto Alegre, pescador volta para resgatar vizinhos, tem o barco furado pela correnteza e continua a operação usando um caiaque.

O pescador Rubens Ribeiro conseguiu retirar a esposa e os quatro filhos de casa quando a água já cobria o telhado na Ilha da Pintada, em Porto Alegre, mas sua fuga da enchente não terminou quando a família chegou a um lugar seguro. Depois de deixá-los em uma ponte sob os cuidados dos bombeiros, ele virou o barco e retornou à área inundada para buscar vizinhos que ainda não tinham conseguido sair. Segundo a Reuters, em reportagem publicada pelo UOL em 5 de maio de 2024, a correnteza acabou furando o casco da embarcação, mas Rubens simplesmente trocou o barco por um caiaque e continuou os resgates.

A decisão ocorreu no momento em que Porto Alegre enfrentava a maior cheia já registrada no Guaíba. A água havia tomado ruas, avenidas e bairros inteiros, e milhares de pessoas dependiam de barcos, jet skis e pequenas embarcações para deixar suas casas. Rubens passou então a entrar com o caiaque em vielas onde barcos maiores tinham dificuldade de chegar, retirando moradores individualmente e levando-os até embarcações capazes de transportá-los para locais seguros.

Rubens primeiro precisou salvar a própria família

A história começou na Ilha da Pintada, uma das áreas de Porto Alegre diretamente atingidas pela subida do Guaíba. Rubens vivia ali com a esposa e os quatro filhos quando a dimensão da enchente tornou impossível permanecer na residência.

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De acordo com a Reuters, a água chegou ao ponto de cobrir o telhado da casa. Diante da situação, o pescador colocou a família em sua embarcação e saiu da ilha. Ele conseguiu chegar até uma ponte onde bombeiros atuavam no atendimento às vítimas.

Ali, esposa e filhos ficaram sob os cuidados das equipes de emergência. Rubens, porém, sabia que outras pessoas ainda estavam cercadas pela água no lugar de onde ele acabara de sair.

Em vez de seguir com a família para longe da enchente, tomou outra decisão: voltou.

Depois de deixar os quatro filhos seguros, ele retornou para buscar os vizinhos

Rubens conhecia a região, estava acostumado à água e possuía uma embarcação. Em uma situação em que os acessos terrestres estavam desaparecendo sob a cheia, essas três condições transformaram o pescador em alguém capaz de chegar onde carros e caminhões já não conseguiam passar.

Ele retornou à Ilha da Pintada e começou a retirar moradores.

O cenário enfrentado pelos voluntários naquele domingo era extremo. A Reuters relatou que o rápido aumento do nível do Guaíba e de seus afluentes havia provocado uma corrida por resgates em Porto Alegre, Canoas, Eldorado do Sul e outras localidades da região metropolitana.

Moradores isolados utilizavam redes sociais e grupos de WhatsApp para compartilhar endereços e pedir socorro. Ao mesmo tempo, pessoas que possuíam experiência com pesca ou esportes náuticos começaram a colocar suas próprias embarcações na água para ajudar as forças oficiais.

Rubens estava entre elas.

A correnteza furou o casco do barco no meio dos resgates

O retorno à área inundada quase terminou quando a própria enchente atingiu o equipamento usado pelo pescador.

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Segundo o relato dado à Reuters, a correnteza furou o casco de seu barco enquanto ele participava dos resgates. Perder aquela embarcação poderia ter encerrado sua participação na operação.

Mas havia outra disponível.

Rubens pegou um caiaque.

A embarcação menor tinha uma desvantagem evidente: conseguia transportar muito menos gente. Por outro lado, tornou possível penetrar em espaços mais apertados das comunidades atingidas.

O pescador passou então a navegar pelas vielas inundadas e retirar moradores um a um, conduzindo-os até barcos maiores que aguardavam para completar o transporte.

O caiaque permitiu entrar onde barcos maiores não chegavam

A troca de embarcação acabou modificando a função de Rubens no resgate.

Em vez de simplesmente transportar grupos maiores, ele conseguia alcançar áreas estreitas tomadas pela água. O caiaque funcionava como uma ponte entre moradores presos nas vielas e embarcações de maior porte posicionadas em locais acessíveis.

Cada retirada precisava ser feita individualmente.

O cenário descrito pela Reuters ajuda a compreender a dimensão do risco. Em outras áreas inundadas de Porto Alegre, voluntários em jet skis navegavam praticamente na altura dos fios de postes, enquanto carros permaneciam completamente submersos sob a água.

Não havia ruas no sentido tradicional. Onde antes existiam trajetos feitos a pé, de bicicleta ou de automóvel, formou-se um labirinto de água com correnteza.

Rubens ainda nadou 90 metros para buscar o próprio cachorro

Mesmo depois de retirar a família e voltar para ajudar os moradores da ilha, havia outro resgate esperando por Rubens.

Segundo o pescador contou à Reuters, ele precisou nadar aproximadamente 90 metros para conseguir chegar até o animal.

O episódio mostra até que ponto a enchente havia alterado o território. Uma distância normalmente percorrida em poucos instantes por terra exigia agora uma travessia a nado em meio a uma inundação histórica.

E o cachorro não foi o único animal pelo qual Rubens entrou novamente na água.

“Enquanto a gente não tirar todo o pessoal da ilha, a gente não vai parar”

A Reuters encontrou Rubens na Usina do Gasômetro, tradicional ponto de Porto Alegre que naquele momento havia se transformado em uma central para operações de resgate.

Foi ali que o pescador resumiu sua decisão: “Enquanto a gente não tirar todo o pessoal da ilha, a gente não vai parar.”

A frase foi pronunciada enquanto o desastre ainda avançava.

Naquele momento, não havia perspectiva de normalidade para grande parte da capital. Os principais acessos estavam comprometidos, áreas que anteriormente não eram alcançadas pelas cheias haviam sido inundadas e milhares de moradores ainda precisavam ser retirados.

O barco de Rubens havia sido danificado, sua própria residência estava tomada pela água e a família acabara de ser retirada de casa. Mesmo assim, ele permanecia envolvido na operação.

Guaíba chegou ao maior nível já registrado em Porto Alegre

A dimensão da enchente ajuda a entender por que pescadores e proprietários de embarcações se tornaram tão importantes durante aqueles dias.

Dados oficiais divulgados posteriormente pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico, a ANA, mostram que a estação Cais Mauá C6 registrou 5,35 metros às 5h30 de 5 de maio de 2024.

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Era o maior nível registrado naquele ponto. A marca superou os 4,76 metros da histórica enchente de 1941, que durante décadas funcionou como referência para grandes inundações em Porto Alegre.

A diferença foi de quase 60 centímetros.

Quando Rubens navegava para retirar moradores, portanto, não enfrentava uma cheia comum da região. Ele estava dentro de um evento que havia acabado de ultrapassar um recorde mantido por mais de oito décadas.

Ruas desapareceram e milhares de pessoas precisaram ser retiradas

A Reuters relatou naquele 5 de maio que a água cobria ruas e avenidas de norte a sul de Porto Alegre, atingindo inclusive o Centro Histórico e pontos que não haviam sido alcançados por enchentes anteriores.

O aeroporto Salgado Filho teve suas atividades interrompidas, enquanto os sistemas de energia elétrica, água e saúde também sofriam impactos.

Naquele domingo, a cidade já contabilizava mais de 4 mil resgates, segundo a reportagem.

O número ajuda a colocar a atuação de Rubens em perspectiva. O pescador não estava conduzindo uma operação isolada. Ele fazia parte de uma mobilização formada por bombeiros, militares, agentes públicos e centenas de cidadãos que colocaram seus próprios equipamentos na água.

Cada barco adicional significava a possibilidade de chegar a outra casa.

Pescadores e praticantes de esportes náuticos viraram equipes de resgate

A reportagem da Reuters registrou que dezenas de voluntários acostumados a pescar ou praticar esportes no Guaíba se juntaram às equipes oficiais. Alguns utilizaram barcos. Outros colocaram jet skis na água.

O voluntário Fabiano Saldanha, por exemplo, tinha seu próprio jet ski submerso em uma garagem. Ele pegou emprestada outra moto aquática e afirmou que o grupo formado por ele e três amigos havia socorrido cerca de 50 moradores das ilhas desde a sexta-feira anterior.

Em determinados trechos, os voluntários ouviam pedidos de socorro enquanto passavam pelas ruas transformadas em canais.

Era nesse cenário que o pequeno caiaque de Rubens entrava pelas vielas.

A tragédia já atingia centenas de municípios naquele domingo

O drama vivido na Ilha da Pintada era apenas uma parte de um desastre estadual.

No momento da reportagem da Reuters, em 5 de maio, o balanço citado indicava 75 mortes, 103 desaparecidos e mais de 780 mil pessoas afetadas, com 334 dos 497 municípios gaúchos atingidos. Mais de 104 mil pessoas estavam desabrigadas ou desalojadas.

As rodovias também estavam severamente comprometidas. A reportagem registrava 177 trechos com bloqueios totais ou parciais provocados por pontes rompidas, água acumulada ou deslizamentos.

No boletim oficial divulgado às 9h da manhã seguinte, 6 de maio, a Defesa Civil já contabilizava 850.422 pessoas afetadas em 345 municípios, além de 121.957 desalojados e 19.368 moradores em abrigos.

Os números mudavam rapidamente porque equipes ainda buscavam vítimas e novos municípios continuavam registrando impactos.

Para Rubens, a viagem de volta começou quando sua própria família já estava salva

A história do pescador chama atenção justamente porque possui um ponto em que sua obrigação mais imediata parecia encerrada.

Ele havia conseguido retirar esposa e quatro filhos de uma casa cujo telhado já estava tomado pela enchente. A família havia chegado a uma ponte e estava sob os cuidados de bombeiros.

Rubens poderia ter permanecido ali.

Em vez disso, retornou à ilha porque sabia que outras pessoas não tinham conseguido sair.

Quando o barco deixou de funcionar, utilizou o caiaque. Quando precisou alcançar locais estreitos, transportou moradores um de cada vez. Quando o cachorro ficou preso, nadou cerca de 90 metros. Quando descobriu três gatos na casa do sobrinho, entrou novamente na água.

O que transformou sua história em algo maior do que um resgate familiar aconteceu justamente depois que seus quatro filhos já estavam em segurança.

Na manhã em que o Guaíba atingiu o maior nível registrado em Porto Alegre, Rubens Ribeiro perdeu temporariamente a função mais óbvia de seu barco, salvar a própria família, e deu à embarcação uma segunda missão. Quando até ela foi interrompida pela força da água, restou um caiaque.

E ele voltou mais uma vez.


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Valdemar Medeiros.

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