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Restos de comida que vão para o lixo podem reduzir em até 99% o impacto climático quando reciclados, mas cientistas encontraram um problema escondido no composto

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6 min de leitura

Restos de comida que vão para o lixo podem reduzir em até 99% o impacto climático quando reciclados, mas cientistas encontraram um problema escondido no composto

Escrito por Fabio Lucas Carvalho

Publicado em 12/08/2026 às 09:00

Atualizado em 12/08/2026 às 09:04

Ciência e Tecnologia

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Saiba como a reciclagem de comida pode reduzir o impacto climático nos Estados Unidos em um estudo recente.

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Estudo da Universidade de Vermont estima grandes ganhos climáticos ao retirar resíduos alimentares dos aterros dos EUA, mas alerta que compostos e digestatos contaminados podem transportar plástico para áreas agrícolas.

Uma expansão nacional da reciclagem de resíduos alimentares nos Estados Unidos poderia reduzir entre 89% e 99% o impacto climático associado ao gerenciamento desse lixo, segundo um estudo publicado em 2026 na Nature Food. O benefício, porém, viria acompanhado de um desafio: materiais produzidos a partir desses resíduos poderiam levar cerca de 20 mil toneladas de plástico por ano aos solos agrícolas.

A pesquisa foi conduzida por Katherine K. Porterfield, Micayla N. Schambura e Eric D. Roy, pesquisadores ligados à Universidade de Vermont. Em vez de testar fisicamente um sistema implantado em todo o país, a equipe utilizou modelagem para projetar o que aconteceria se os restos de comida fossem desviados dos aterros em larga escala.

Tirar comida dos aterros pode provocar uma queda expressiva no impacto climático

O estudo publicado na Nature Food comparou o sistema americano atual, ainda fortemente dependente de aterros, com cenários hipotéticos de expansão da reciclagem de resíduos orgânicos.

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Os pesquisadores analisaram principalmente duas alternativas: compostagem e digestão anaeróbica.

Na compostagem, os resíduos orgânicos são transformados em um material que pode ser aplicado ao solo. Na digestão anaeróbica, microrganismos decompõem a matéria orgânica sem oxigênio, permitindo a produção de biogás e de um material residual rico em nutrientes.

A modelagem combinou balanços de massa e avaliação de ciclo de vida para acompanhar os impactos ambientais das diferentes rotas adotadas para os resíduos.

Os resultados indicaram que uma adoção nacional dessas formas de reciclagem poderia reduzir entre 89% e 99% o impacto climático relacionado ao gerenciamento dos resíduos alimentares, quando comparada às práticas atuais dominadas por aterros.

O número não significa uma redução de 99% nas emissões totais dos Estados Unidos nem nas emissões do sistema alimentar americano. Ele se refere especificamente ao impacto climático ligado ao destino e tratamento do alimento depois que ele se transforma em resíduo.

Comida ocupa cerca de um quarto do lixo nos aterros, mas pesa muito no metano

O tamanho do ganho climático projetado está ligado ao comportamento dos alimentos quando ficam enterrados.

Segundo a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos, a EPA, os resíduos alimentares representam aproximadamente 24% dos resíduos sólidos urbanos enviados para aterros no país.

Apesar de ocuparem aproximadamente um quarto desse fluxo, eles respondem por cerca de 58% das emissões fugitivas de metano dos aterros municipais, de acordo com estimativas da agência.

Isso acontece porque os alimentos se decompõem rapidamente em condições anaeróbicas e geram metano. A EPA afirma que, entre os materiais depositados em aterros, os restos alimentares são responsáveis por mais emissões de metano do que qualquer outra categoria.

A análise da agência sobre o período de 1990 a 2020 também mostrou um contraste: enquanto as emissões totais dos aterros municipais diminuíram, as emissões de metano relacionadas aos alimentos descartados aumentaram.

Por isso, retirar essa matéria orgânica dos aterros aparece como uma das formas de diminuir as emissões associadas ao tratamento do desperdício alimentar.

Nitrogênio e fósforo também poderiam cair

Os benefícios projetados pela equipe da Universidade de Vermont não ficaram restritos ao clima.

Nos cenários nacionais analisados, a carga de nitrogênio relacionada ao gerenciamento de resíduos alimentares que chega aos ambientes aquáticos poderia diminuir entre 49% e 54%.

Para o fósforo, a redução estimada foi ainda maior, variando entre 78% e 98%.

Parte desses nutrientes permanece no composto ou no digestato produzido durante a reciclagem e pode retornar às áreas agrícolas.

Mas o potencial de substituição dos fertilizantes minerais utilizados nos Estados Unidos seria limitado. Pelos cálculos do estudo, os nutrientes recuperados dos resíduos alimentares substituiriam menos de 2% do consumo anual americano de fertilizantes minerais de nitrogênio e fósforo.

Ou seja, reciclar alimentos desperdiçados recuperaria nutrientes que atualmente são perdidos, mas não eliminaria a necessidade de fertilizantes convencionais na agricultura.

Benefício ambiental esbarra em cerca de 20 mil toneladas de plástico

O principal contraponto identificado pelos pesquisadores está nas embalagens e em outros contaminantes plásticos que acompanham os alimentos descartados.

Parte dos resíduos chega às instalações de tratamento ainda dentro de embalagens. Outros fluxos de matéria orgânica também podem receber plástico por descarte inadequado e contaminação durante a coleta.

Mesmo depois de processos destinados a separar a comida desses materiais, partículas podem permanecer na fração orgânica que será transformada em composto ou digestato.

A Universidade de Vermont explica que, caso esses materiais recuperados fossem aplicados em áreas agrícolas na escala considerada pela pesquisa, poderiam transportar aproximadamente 20 mil toneladas de microplásticos ao solo todos os anos.

No artigo científico, os pesquisadores descrevem a estimativa como cerca de 20 mil toneladas de plástico por ano chegando aos solos agrícolas americanos caso não ocorram inovações no desenho das embalagens.

Esse valor é uma projeção do cenário modelado, não uma medição da quantidade que atualmente chega às fazendas americanas.

Embalagens passam a fazer parte do problema

Para Katherine Porterfield, autora principal do estudo e pesquisadora do Gund Institute for Environment, o plástico precisa ser considerado desde o começo de qualquer política de expansão da reciclagem de resíduos alimentares.

A pesquisadora afirmou na divulgação da Universidade de Vermont que, sem uma intervenção deliberada para reduzir a contaminação dos materiais recuperados, provavelmente haverá plástico nos produtos finais porque ele está amplamente presente no sistema de alimentos.

O estudo aponta, por isso, para medidas que começam antes mesmo de o alimento virar resíduo.

Uma delas envolve o próprio design das embalagens, diminuindo a possibilidade de fragmentos plásticos acompanharem a matéria orgânica durante a separação e o processamento.

Também existe a necessidade de controlar a contaminação ao longo da coleta, reciclagem, compostagem e digestão anaeróbica.

Estudo projeta cenários, não anuncia um programa nacional

Apesar de analisar o que aconteceria em escala nacional, a pesquisa não descreve um programa federal prestes a transformar todo o sistema americano.

Os cenários utilizados no artigo são explicitamente hipotéticos. A equipe reuniu dados de diferentes partes dos Estados Unidos para construir modelos de avaliação de ciclo de vida e comparar possíveis destinos para os resíduos.

Eric Roy, coautor do estudo, afirmou à própria Universidade de Vermont que não tinha conhecimento de um plano nacional iminente para obrigar o desvio de resíduos alimentares dos aterros. Existem iniciativas estaduais e municipais, mas com grandes diferenças entre regiões.

A pesquisa mostra, portanto, um cenário de forte contraste.

Por um lado, retirar restos de alimentos dos aterros e direcioná-los à compostagem e à digestão anaeróbica poderia reduzir drasticamente o impacto climático de seu gerenciamento e diminuir a poluição por nutrientes.

Por outro, fazer essa expansão sem enfrentar a contaminação das embalagens poderia deslocar parte do problema ambiental para outro lugar: dos aterros para os solos agrícolas.

O resultado reforça que ampliar a reciclagem de alimentos envolve mais do que simplesmente mudar o destino dos restos de comida. Para os pesquisadores, aproveitar os ganhos climáticos sem ampliar a presença de plástico no ambiente exige planejar também como os alimentos são embalados, separados e transformados depois do descarte.


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Fabio Lucas Carvalho.

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