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Salamandra cega vive na escuridão absoluta, pode superar 100 anos e passar até uma década sem comer: o misterioso olm mantém olhos atrofiados sob a pele e desenvolveu sentidos capazes de funcionar onde a luz nunca chega

Salamandra cega vive na escuridão absoluta, pode superar 100 anos e passar até uma década sem comer: o misterioso olm mantém olhos atrofiados sob a pele e desenvolveu sentidos capazes de funcionar onde a luz nunca chega

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Salamandra cega vive na escuridão absoluta, pode superar 100 anos e passar até uma década sem comer: o misterioso olm mantém olhos atrofiados sob a pele e desenvolveu sentidos capazes de funcionar onde a luz nunca chega

Escrito por Valdemar Medeiros

Publicado em 21/08/2026 às 13:34

Ciência e Tecnologia

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Salamandra cega vive na escuridão absoluta, pode superar 100 anos e passar até uma década sem comer: o misterioso olm mantém olhos atrofiados sob a pele e desenvolveu sentidos capazes de funcionar onde a luz nunca chega

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Olm vive em cavernas dos Bálcãs, tem olhos atrofiados, metabolismo adaptado à escassez, pode superar 100 anos e sobreviver durante anos praticamente sem alimento.

Nas águas subterrâneas do carste Dinárico, na Europa, vive um vertebrado tão adaptado à escuridão que seus olhos permanecem reduzidos e recobertos pela pele, enquanto brânquias externas continuam presentes durante toda a vida. O animal é o olm (Proteus anguinus), uma salamandra aquática que mede aproximadamente 20 a 30 centímetros, passa a existência dentro de cavernas e desenvolveu uma estratégia biológica extraordinária para sobreviver onde alimento e luz são permanentemente escassos.

O dado mais impressionante está em sua longevidade. Um estudo publicado na Biology Letters, da Royal Society, calculou vida adulta média de 68,5 anos e longevidade máxima potencial acima dos 100 anos, número excepcional para um anfíbio de apenas 15 a 20 gramas.

Olm passa a vida inteira em um mundo onde praticamente não existe luz

O Proteus anguinus é um animal especializado em águas subterrâneas. Na Eslovênia, é considerado o único vertebrado europeu que vive permanentemente em cavernas, ocorrendo em rios, fissuras e sistemas aquíferos subterrâneos do carste Dinárico.

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Proteus anguinus

Esse ambiente é radicalmente diferente de um lago ou rio de superfície. Não existem plantas realizando fotossíntese no interior profundo das cavernas e a quantidade de matéria orgânica disponível pode variar drasticamente.

Para sobreviver nesse cenário, a salamandra evoluiu para gastar muito pouco e esperar muito.

Seus olhos praticamente desapareceram sob a pele

O aspecto do olm revela imediatamente sua adaptação. A cabeça alongada apresenta olhos extremamente reduzidos, que ficam recobertos pela pele nos indivíduos adultos. A ausência de visão convencional não significa, porém, que o animal seja incapaz de detectar estímulos luminosos.

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A própria superfície corporal possui sensibilidade à luz, segundo pesquisadores e instituições que estudam a espécie. Como a visão deixou de ser decisiva no ambiente subterrâneo, outros sistemas sensoriais ganharam importância.

A transformação ocorreu ao longo de milhões de anos de evolução em ambientes cavernícolas.

Corpo rosado e quase translúcido aumenta aparência de criatura extraterrestre

Outra adaptação marcante está na pele. Como não existe necessidade de pigmentação para proteção contra a radiação solar ou camuflagem visual convencional, a forma branca do olm apresenta pele extremamente pálida, frequentemente descrita como rosada ou semelhante à pele humana.

É justamente daí que surgiu um de seus nomes populares europeus: “peixe humano”, apesar de o animal não ser um peixe, mas um anfíbio.

Atrás da cabeça aparecem grandes brânquias externas avermelhadas, mantidas durante toda a vida. A espécie também possui pulmões simples e pode realizar trocas gasosas pela pele.

Olm praticamente nunca “cresce” para fora da fase larval

O fenômeno é conhecido como neotenia. Ao contrário de muitos anfíbios, que passam por transformações profundas entre a fase larval e a adulta, o olm conserva características juvenis mesmo depois de atingir maturidade sexual.

As brânquias externas são o exemplo mais evidente.

Isso significa que um olm capaz de se reproduzir ainda mantém características anatômicas normalmente associadas às larvas de outros anfíbios.

Postojna Cave, um dos principais centros de observação da espécie, descreve essa manutenção de traços juvenis como uma das características mais extraordinárias do animal.

Animal de 20 gramas pode chegar a uma expectativa extrema para um anfíbio

A longevidade tornou o olm objeto de pesquisas sobre envelhecimento. Em trabalho publicado na Biology Letters, cientistas analisaram dados demográficos de uma população mantida há décadas e encontraram um resultado fora do padrão esperado para um anfíbio desse tamanho.

Os animais analisados pesavam aproximadamente 15 a 20 gramas, mas apresentavam expectativa adulta média estimada em 68,5 anos.

Usando dados de sobrevivência e modelos empregados para estimar longevidade, os pesquisadores calcularam um potencial máximo próximo de 102 anos.

Portanto, “mais de 100 anos” deve ser entendido como longevidade máxima estimada cientificamente, e não como um registro individual documentado de nascimento à morte em um animal selvagem.

Só chega à maturidade sexual por volta dos 15 anos

A vida lenta do olm aparece também na reprodução. O mesmo estudo calculou maturidade sexual média em aproximadamente 15,6 anos. Uma fêmea produz, em média, cerca de 35 ovos por postura, mas os eventos reprodutivos são extraordinariamente espaçados.

A estimativa indica uma postura, em média, a cada 12,5 anos.

É uma estratégia radicalmente diferente daquela encontrada em pequenos animais que vivem pouco e se reproduzem rapidamente. No olm, praticamente tudo acontece devagar: crescimento, maturação, metabolismo e reprodução.

Pode passar anos sem comer porque muda completamente a forma de gastar energia

Em cavernas profundas, não existe garantia de que alimento chegará regularmente. O olm se alimenta de pequenos crustáceos, caracóis, vermes, insetos e outros organismos encontrados nas águas subterrâneas. Mas períodos de escassez podem durar muito tempo.

Experimentos publicados no Journal of Experimental Biology mostraram que o animal responde ao jejum prolongado reduzindo atividade e metabolismo e alterando progressivamente quais reservas energéticas utiliza.

Inicialmente entram carboidratos. Depois predominam lipídios e, apenas mais tarde, ocorre maior utilização de proteínas.

Essa capacidade de preservar proteínas durante períodos prolongados ajuda a explicar por que o animal resiste tão bem à falta de alimento.

Experimentos já acompanharam olms durante 18 meses sem alimentação

A resistência não é apenas inferida de observações ocasionais. Outro estudo científico analisou alterações no fígado de Proteus anguinus após períodos de um mês e 18 meses de privação de alimento. Mesmo depois de um ano e meio, os pesquisadores ainda conseguiam observar respostas metabólicas organizadas no organismo.

Há referências divulgadas pelo governo esloveno de que o animal pode permanecer até aproximadamente dez anos sem comer. Postojna Cave cita pelo menos oito anos, enquanto a National Geographic menciona relatos de até cerca de 12 anos.

Como os limites máximos são difíceis de testar experimentalmente por razões óbvias, a formulação mais conservadora é afirmar que o olm pode sobreviver durante muitos anos sem alimentação e há registros institucionais que colocam essa capacidade próxima de uma década.

Sem enxergar, consegue encontrar alimento pelo cheiro

A escuridão absoluta criou outro problema evolutivo: como encontrar uma presa sem vê-la?

Experimentos publicados na revista Behavioural Processes demonstraram que o olm possui olfato altamente desenvolvido. Pesquisadores testaram sua capacidade de localizar pequenas quantidades de larvas utilizadas como alimento e observaram sensibilidade suficiente para orientar o animal em direção à presa.

O cheiro não é seu único recurso. A pele e outros sistemas sensoriais ajudam a perceber o ambiente, incluindo vibrações e alterações físicas na água.

Para um animal vivendo num universo sem luz, informação química e mecânica passa a ser mais importante que imagem.

Olm consegue até perceber campos elétricos extremamente fracos

Talvez uma das capacidades menos conhecidas da espécie seja a eletrossensibilidade.

Experimentos realizados com diferentes populações de Proteus anguinus demonstraram respostas comportamentais a campos elétricos de intensidade muito baixa.

Em determinados testes, os animais responderam a estímulos na faixa de apenas 0,3 milivolt por centímetro.

Pesquisadores estudam como essa sensibilidade pode ajudar na orientação dentro de redes subterrâneas. É outro exemplo de como a perda da visão não deixou o olm indefeso. A evolução simplesmente deslocou a importância para sistemas sensoriais mais úteis naquele ambiente.

Durante séculos, habitantes acreditavam que eram filhotes de dragões

A aparência incomum provocou interpretações muito antes de a biologia explicar a espécie.

Em 1689, o naturalista e polímata esloveno Janez Vajkard Valvasor registrou relatos associados a criaturas que habitantes locais acreditavam serem descendentes de dragões subterrâneos.

A explicação provavelmente estava relacionada a um fenômeno natural.

Depois de chuvas fortes, águas subterrâneas podem carregar olms para cursos d’água na superfície. Para populações que desconheciam os ecossistemas ocultos das cavernas, encontrar aquela criatura branca, alongada, com pequenas pernas e brânquias vermelhas parecia algo completamente fora do mundo conhecido.

A associação permanece até hoje. Na Eslovênia, eles continuam sendo promovidos popularmente como “baby dragons”, os filhotes de dragão das cavernas.

Em 2016, cientistas acompanharam um nascimento raríssimo dentro de Postojna

A reprodução da espécie é tão lenta que acompanhar uma geração desde o ovo representa uma oportunidade científica excepcional.

Em 2016, uma fêmea mantida na Caverna de Postojna colocou ovos sob observação direta. Vinte e um filhotes sobreviveram ao processo de nascimento, permitindo que pesquisadores acompanhassem seu desenvolvimento de maneira inédita naquele sistema. Os animais cresceram lentamente.

Quatro anos depois, os jovens tinham aproximadamente 14 centímetros e começavam a apresentar aparência semelhante à dos adultos.

A reprodução controlada também trouxe novas oportunidades para investigar genética, metabolismo, regeneração e envelhecimento.

Genoma gigantesco pode guardar respostas para longevidade e regeneração

O olm passou a chamar atenção também da pesquisa biomédica. Um trabalho publicado nos Annals of the New York Academy of Sciences destacou a espécie como modelo potencial para estudar longevidade, regeneração, resistência ao jejum e doenças metabólicas.

A razão é simples: reunir num animal pequeno uma vida potencialmente centenária, baixa incidência aparente de sinais de envelhecimento, capacidade regenerativa e extraordinária tolerância à falta de alimento cria uma combinação rara.

Os cientistas ainda não têm uma explicação definitiva para sua longevidade. O estudo da Biology Letters, inclusive, encontrou um paradoxo: apenas o metabolismo basal e as defesas antioxidantes conhecidas não parecem suficientes para explicar por que o olm vive tanto.

Um animal capaz de sobreviver quase sem comida ainda pode desaparecer por causa da água

O olm depende de água subterrânea limpa, e sistemas cársticos são especialmente vulneráveis porque substâncias presentes na superfície podem infiltrar rapidamente através do calcário.

Documentos ambientais da Eslovênia apontam poluição, nitratos, pesticidas, resíduos de medicamentos e alterações na qualidade das águas subterrâneas entre os riscos que precisam ser monitorados nos habitats da espécie.

A avaliação oficial eslovena ligada à Diretiva Habitats classificou seu estado de conservação como “desfavorável ruim” no relatório citado pelas autoridades ambientais.

O olm evoluiu para suportar escuridão total, escassez severa de alimento e uma vida que pode ultrapassar um século, mas continua dependente de um recurso muito mais simples: água subterrânea suficientemente limpa para manter seu ecossistema funcionando.

Depois de milhões de anos escondido sob as montanhas dos Bálcãs, o “filhote de dragão” das antigas lendas talvez seja extraordinário justamente por isso: praticamente tudo em seu organismo foi transformado para sobreviver onde a maioria dos vertebrados não conseguiria permanecer por muito tempo.


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Valdemar Medeiros.

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