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Sem dinheiro para seguir na faculdade, estudante interrompeu Engenharia várias vezes, fez protótipos para pagar os estudos e aos 27 anos criou material com resíduos agrícolas capaz de aproveitar radiação ultravioleta até em dias nublados
Escrito por Flavia Marinho
Publicado em 08/08/2026 às 15:12
Atualizado em 08/08/2026 às 15:13
Ciência e Tecnologia
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Depois de chegar ao décimo ano de Engenharia por causa das interrupções financeiras, Carvey Ehren Maigue transformou resíduos agrícolas em parte do AuREUS, material criado para captar radiação ultravioleta, aproveitar superfícies como janelas e ampliar as possibilidades de geração de energia solar mesmo quando não há luz direta intensa.
Carvey Ehren Maigue queria se tornar engenheiro, mas manter os estudos por anos seguidos não era uma possibilidade garantida. A falta de dinheiro fez o estudante interromper a graduação várias vezes, enquanto trabalhos de prototipagem e fabricação ajudavam a financiar seu retorno à universidade.
Aos 27 anos, o filipino chegou ao reconhecimento internacional com o AuREUS, um material desenvolvido para aproveitar radiação ultravioleta e convertê-la em energia por meio de células fotovoltaicas. Parte da solução utiliza compostos obtidos de resíduos agrícolas, enquanto sua estrutura permite pensar em aplicações que vão além dos painéis solares instalados sobre telhados.
A trajetória foi publicada pela Dyson, empresa internacional de tecnologia e desenvolvimento de produtos, após Carvey vencer o prêmio de sustentabilidade do James Dyson Award em 2020. Naquele momento, ele estava no décimo ano de sua passagem pela Mapúa University, nas Filipinas, e esperava finalmente concluir a graduação.
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Falta de dinheiro fazia o estudante parar Engenharia e depois tentar voltar para a universidade
Chegar ao décimo ano de graduação não significava que Carvey havia passado uma década estudando continuamente. Os recursos financeiros acabavam e ele precisava interromper a formação antes de conseguir retornar.
Para pagar os estudos, começou a aceitar projetos de prototipagem e fabricação feitos para outros estudantes. Também ajudava universitários que precisavam de apoio em projetos acadêmicos e trabalhos de conclusão.
A necessidade de trabalhar acabou colocando o jovem diante de diferentes problemas de criação. Cada projeto exigia pensar não apenas em como fabricar alguma coisa, mas também em desenho, funcionamento e na maneira como uma pessoa utilizaria aquele produto.
Carvey enxergou um ganho inesperado nesse percurso. Passar por projetos de estudantes de diferentes instituições ampliou sua experiência em áreas que ultrapassavam aquilo que encontrava dentro da sala de aula.
Aos 13 anos, uma cena sobre engenheiros despertou o interesse que ele levaria para a vida adulta
O interesse pela Engenharia havia começado muitos anos antes das dificuldades financeiras da universidade. Carvey tinha 13 anos quando assistiu a um filme durante uma aula de ciências.
A cena mostrava engenheiros realizando cálculos relacionados ao pouso de um ônibus espacial. O professor comentou que esperava vê lo fazendo algo parecido no futuro.
Aquele momento aproximou Carvey da física e das ciências. Mais tarde, o interesse avançaria para a ideia de transformar conhecimento científico em produtos capazes de funcionar no mundo real.
O caminho até fazer isso, porém, seria bem menos linear do que ele poderia imaginar aos 13 anos. Entre as interrupções da faculdade e os trabalhos necessários para financiá la, passaram se anos antes de uma de suas ideias ganhar reconhecimento internacional.
Primeira tentativa era criar uma janela capaz de aproveitar radiação ultravioleta da luz solar
Em 2018, Carvey já trabalhava em uma ideia ligada à energia solar. O projeto inicial consistia em uma janela que pudesse aproveitar a radiação ultravioleta presente na luz do Sol e convertê-la em eletricidade.
Ele não conseguiu produzir o vidro da maneira que havia imaginado. Em vez de abandonar completamente o projeto, continuou desenvolvendo a tecnologia e mudou a forma de pensar sobre a invenção.
A janela deixou de ser o centro da solução. Carvey passou a trabalhar no AuREUS como um material, o que permitia imaginar sua aplicação em outros produtos e superfícies.
Essa mudança ampliava as possibilidades porque o AuREUS utiliza uma base plástica capaz de assumir formatos diferentes. Assim, a tecnologia não precisava ficar limitada ao formato rígido de uma janela ou de um painel convencional.
Resíduos agrícolas ajudam material a captar radiação ultravioleta e permitir geração de energia
Uma das características que diferenciam o AuREUS está nos materiais utilizados em sua composição. O projeto aproveita compostos provenientes de resíduos agrícolas, incluindo cultivos atingidos por desastres naturais, como tufões.
Esses compostos participam do processo de aproveitamento da radiação ultravioleta. De maneira simples, o material recebe essa radiação e a transforma em uma luz que pode ser aproveitada por células fotovoltaicas responsáveis pela produção de eletricidade.
A proposta foi detalhada pela Dyson, empresa internacional de tecnologia e desenvolvimento de produtos, que apresentou o AuREUS como uma tecnologia capaz de permitir que diferentes dispositivos aproveitem radiação ultravioleta e a convertam em eletricidade.
Isso ajuda a entender por que a engenharia pode aproveitar a presença de radiação ultravioleta mesmo quando o Sol não aparece diretamente com toda a intensidade, como ocorre em condições de céu nublado. Não significa, porém, que o AuREUS produza a mesma potência de um painel solar convencional.
Janelas e fachadas poderiam transformar áreas verticais em espaços para captar energia solar
A possibilidade de moldar o AuREUS abre uma diferença importante em relação à imagem tradicional da energia solar. Normalmente, quando se pensa em geração fotovoltaica, a primeira referência são grandes painéis instalados em telhados ou áreas abertas.
Em edifícios, porém, existe uma enorme quantidade de superfície também nas paredes, janelas e fachadas. A proposta de Carvey permite imaginar justamente o aproveitamento dessas áreas verticais que normalmente não participam da captação solar.
Foi por isso que uma janela apareceu na origem do projeto. Em vez de depender apenas da área disponível no topo de um prédio, materiais capazes de captar radiação ultravioleta poderiam ser incorporados a outras partes da construção.
A tecnologia não deve ser entendida como simples substituta de um painel solar tradicional. O objetivo está em ampliar os locais nos quais a energia solar pode ser captada, aproveitando superfícies e formatos que apresentam limitações para a instalação dos módulos convencionais.
Aos 27 anos, estudante venceu prêmio internacional enquanto ainda buscava terminar a faculdade de engenharia
O desenvolvimento do AuREUS levou Carvey novamente ao James Dyson Award. Ele já havia participado da premiação em 2018, mas não venceu naquele ano.
A persistência trouxe outro resultado em 2020. Aos 27 anos, Carvey venceu o primeiro prêmio de sustentabilidade criado dentro do James Dyson Award com a tecnologia que vinha desenvolvendo havia aproximadamente dois anos.
A conquista ocorreu enquanto uma parte básica de sua própria trajetória ainda estava incompleta. O jovem continuava ligado à universidade e esperava finalmente terminar a graduação depois de anos marcados por pausas causadas pelas dificuldades financeiras.
O prêmio também permitiria comprar equipamentos para continuar o processo de fabricação e desenvolvimento do material. Parte dos recursos ainda ajudaria Carvey a encerrar sua longa passagem pela universidade.
AuREUS ainda precisava de pesquisa antes de chegar às aplicações imaginadas pelo inventor
Ganhar um prêmio internacional não significava que o AuREUS já estivesse sendo instalado em edifícios ou vendido em grande escala. Em 2020, Carvey ainda falava em continuar a pesquisa, melhorar o desenvolvimento e encontrar caminhos para levar a tecnologia ao mercado.
Suas ideias iam além das janelas. O estudante pretendia pesquisar fios, tecidos e placas curvas, explorando a possibilidade de adaptar o princípio do AuREUS a diferentes objetos.
Entre as aplicações imaginadas estavam roupas, carros elétricos, aviões e barcos. Eram possibilidades de desenvolvimento, não produtos já comercializados com a tecnologia.
A diferença é importante. O AuREUS ganhou reconhecimento por apresentar uma nova maneira de pensar o aproveitamento da radiação ultravioleta, enquanto sua disseminação comercial ainda dependia de novas etapas de pesquisa e desenvolvimento.
A história de Carvey conecta duas trajetórias que avançaram ao mesmo tempo. Enquanto ele tentava reunir dinheiro para permanecer na faculdade, os trabalhos de prototipagem aumentavam sua experiência prática. Anos depois, esse estudante chegaria ao décimo ano de Engenharia com uma tecnologia reconhecida internacionalmente.
O AuREUS também apresenta uma proposta diferente para a energia solar: aproveitar resíduos agrícolas, radiação ultravioleta e superfícies que normalmente não são usadas para geração, sem prometer substituir aquilo que os painéis fotovoltaicos tradicionais já fazem.
Se uma tecnologia pudesse transformar janelas e fachadas em áreas de geração de energia enquanto reaproveita resíduos agrícolas, você acredita que isso mudaria a forma como projetamos os prédios das cidades?
Fonte
Dyson
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Flavia Marinho.

