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Sem estudo, terra, dinheiro e sem apoio do pai da criança para alimentar o próprio filho, mãe entrou em grupo de manutenção de estradas no Nepal, passou a receber salário, reformou a casa e fez parte de programa com 2.870 equipes e mais de 70% de mulheres
Escrito por Flavia Marinho
Publicado em 13/08/2026 às 21:18
Atualizado em 13/08/2026 às 21:19
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Aos 25 anos, Binita Biswokarma passou a caminhar até uma estrada rural no distrito de Kaski, no oeste do Nepal, para realizar o trabalho que mudaria a vida de sua família. Sem escolaridade, qualificação profissional, terra ou renda, ela não tinha dinheiro suficiente para alimentar e vestir o próprio filho.
O marido havia migrado para trabalhar em outro país, mas estava sem contato com a família. Binita encontrou uma oportunidade em um grupo de manutenção de estradas rurais, começou a receber salário e conseguiu manter o filho na escola, reformar o telhado de casa e comprar animais.
A história foi publicada pelo Banco Mundial, instituição internacional que financiou parte do projeto. Os resultados divulgados em 14 de novembro de 2018 mostravam um programa com 2.870 grupos, atuação em 36 distritos e mais de 70% de participação feminina.
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Da falta de dinheiro ao primeiro salário na estrada rural
Antes de entrar no programa, Binita não tinha formação, experiência profissional nem terras para garantir o sustento da família. A ausência de uma fonte de renda deixava mãe e filho em uma situação de grande vulnerabilidade.
A oportunidade surgiu no Programa de Fortalecimento do Transporte Rural Nacional. Binita passou a trabalhar na estrada Rakhi Mijure Gahate Poshi, uma das vias atendidas pela iniciativa no oeste do Nepal.
O serviço lhe rendia 14.092 rupias nepalesas por mês. Com o dinheiro, ela conseguiu comprar alimentos e roupas para o filho, pagar os estudos da criança, guardar uma parte em uma cooperativa e substituir o telhado de sua casa.
A renda também permitiu a compra de duas cabras e porcos. Assim, o trabalho na estrada abriu espaço para outras formas de sustento e reduziu a dependência de uma única atividade.
Nepal decidiu cuidar das estradas antes que os danos exigissem reconstrução
A base do programa era uma ideia chamada manutenção primeiro. Em vez de abandonar as vias até que os danos exigissem grandes obras, os grupos faziam pequenos serviços de maneira contínua.
Essa rotina incluía cuidados simples para preservar a passagem e impedir que problemas menores se transformassem em danos mais difíceis e caros de corrigir. Antes da implantação do programa, em 2013, as estradas rurais e suas estruturas de travessia não tinham uma manutenção rotineira organizada pelo sistema público.
O princípio é fácil de compreender. Corrigir um dano no começo ajuda a preservar a estrada. Esperar que a situação piore pode exigir mais trabalhadores, máquinas, materiais e recursos para recuperar o mesmo caminho.
A manutenção também ajuda a conservar o investimento já feito na construção. Em regiões rurais, uma estrada em boas condições interfere diretamente no transporte de pessoas, alimentos, produtos agrícolas e outros itens essenciais.
Programa de manutenção alcançou 5.500 km em 36 distritos
A meta original previa serviços rotineiros em 3.067 km de estradas. Esse objetivo já havia sido superado na revisão realizada em setembro de 2015, e a atividade foi ampliada para 5.500 km.
O trabalho chegou a 36 dos 77 distritos do Nepal. A dimensão era relevante porque cerca de 83% da população do país vivia em áreas rurais, enquanto o relevo e as condições do solo dificultavam a existência de caminhos utilizáveis durante todas as épocas do ano.
Quando uma estrada rural fica bloqueada ou muito danificada, o efeito não se limita aos veículos. Comunidades podem enfrentar mais dificuldade para transportar a produção, chegar a escolas, buscar atendimento e acessar outros serviços.
Por isso, os 5.500 km atendidos representavam mais do que um número de infraestrutura. Eles faziam parte de uma tentativa de manter comunidades rurais conectadas e, ao mesmo tempo, criar trabalho próximo aos locais onde essas pessoas viviam.
Mulheres ocuparam mais de 70% dos grupos de manutenção
O recrutamento priorizava as pessoas mais pobres e marginalizadas que moravam nas áreas próximas aos trechos atendidos. A seleção dava preferência às mulheres e previa grupos inteiramente femininos quando isso fosse possível.
Mais de 70% dos trabalhadores recrutados eram mulheres. Entre todos os participantes, 34% eram Dalits, grupo socialmente desfavorecido no contexto do Nepal, e 35% pertenciam a minorias étnicas.
O Banco Mundial, instituição internacional que financiou parte do projeto, registrou 2,5 milhões de dias de trabalho remunerado. A iniciativa reuniu 2.870 grupos responsáveis pela conservação das vias rurais.
Todos os trabalhadores selecionados pertenciam a grupos vulneráveis ou marginalizados. Dessa maneira, a manutenção das estradas também funcionava como uma porta de entrada para pessoas com poucas oportunidades de emprego formal.
Trabalho nas estradas trouxe renda e segurança para as famílias
O programa não se limitava ao pagamento pelos serviços realizados nas vias. Os participantes também recebiam capacitação, orientação financeira e apoio para criar outras fontes de renda.
Entre os trabalhadores, 68% foram ligados a cooperativas locais. Esse acesso possibilitou guardar dinheiro, buscar crédito e investir em atividades que poderiam continuar gerando renda com a participação de outros integrantes da família.
Ao todo, 70% dos trabalhadores e familiares começaram atividades como criação de animais, cultivo de vegetais, comércio e costura. Outros reformaram moradias atingidas por terremotos ou instalaram sanitários conectados a sistemas de biogás.
A segurança no trabalho também recebeu atenção. O programa introduziu regras de saúde e proteção, com planos de segurança, registros das condições oferecidas e cláusulas aplicadas aos contratos de trabalho.
De trabalhadoras das estradas a representantes das comunidades
O salário trouxe mudanças que ultrapassaram a renda mensal. As capacitações ajudaram as participantes a desenvolver habilidades de negociação, organização financeira e liderança dentro das comunidades.
Algumas mulheres decidiram concorrer na eleição local realizada em 14 de maio de 2017. Quatro delas foram eleitas como representantes de suas áreas e passaram do trabalho de conservação das estradas para espaços de decisão comunitária.
Esse resultado mostra como uma vaga em um serviço de infraestrutura pode produzir efeitos em outras partes da vida. Ao conquistar renda e experiência, as trabalhadoras ampliaram sua participação dentro de casa e nos lugares onde viviam.
No caso de Binita, o salário significou comida, roupas e escola para o filho. Também permitiu reformar a casa, criar uma reserva financeira e comprar animais para fortalecer o sustento familiar.
O que a experiência do Nepal ensina às regiões rurais
As estradas vicinais também têm grande importância no Brasil. Elas conectam propriedades, comunidades, escolas, postos de saúde e áreas de produção, embora os modelos administrativos dos dois países não sejam iguais e não possam ser comparados de forma automática.
A experiência do Nepal mostra que manutenção viária também pode ser política econômica. O mesmo recurso usado para conservar uma estrada pode gerar trabalho local, movimentar a renda das famílias e evitar que a infraestrutura existente se deteriore.
Ao reunir 2.870 grupos, atender 5.500 km e colocar mulheres em mais de 70% das vagas, o programa transformou pequenos serviços contínuos em uma ação de grande alcance. As estradas permaneceram cuidadas enquanto moradores vulneráveis recebiam trabalho remunerado.
Para Binita, a mudança começou em um trecho rural e chegou até sua casa. Para as comunidades atendidas, preservar os caminhos significou manter a circulação e criar oportunidades onde emprego e renda eram escassos.
Se a manutenção evita obras mais caras e ainda gera renda para quem vive perto das estradas, por que programas desse tipo não são mais comuns nas regiões rurais brasileiras?
Fonte
World Bank
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Flavia Marinho.

