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Sétima de sete irmãos e filha de pais analfabetos, foi alfabetizada só aos 8 anos, decidiu ser médica ao ver médicos militares em São Gabriel da Cachoeira, formou-se pela UEA e voltou para atender o próprio povo na língua baniwa como a primeira médica da etnia
Escrito por Bruno Teles
Publicado em 01/08/2026 às 23:27
Atualizado em 01/08/2026 às 23:35
Curiosidades
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Ilzinei da Silva nasceu em São Gabriel da Cachoeira, no noroeste do Amazonas, e precisou se mudar para Manaus em 2014 para cursar medicina. Recebeu o diploma em 2020, no auge da pandemia, e voltou para o Alto Rio Negro. Hoje atende em duas frentes na própria cidade natal.
Ela tinha 8 anos quando viu médicos militares atendendo em São Gabriel da Cachoeira e entendeu, ali, o que queria fazer da vida. Foi a mesma idade em que aprendeu a ler. Décadas depois, Ilzinei da Silva se tornou a primeira médica da etnia Baniwa, segundo reportagem publicada pelo Portal Amazônia em 8 de março de 2026, produzida pelo Grupo Rede Amazônica.
Ela conta que percebeu naquele momento o impacto que a medicina poderia ter na vida das pessoas e decidiu seguir esse caminho. A distância entre a decisão e o diploma foi de mais de vinte anos, atravessados por alfabetização tardia, deslocamento para outra cidade, gravidez no meio do curso e formatura durante a pandemia de covid.
A infância que ela mesma descreve como precária
Ilzinei é filha de pais analfabetos e cresceu com seis irmãos. A alfabetização veio só aos 8 anos, e não por escolha da família. Ela descreve a infância como muito difícil e precária, marcada pela falta de acesso à educação e aos serviços de saúde que atingia a comunidade inteira.
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Há um detalhe que ela faz questão de registrar sobre os pais. Mesmo sem saber ler, eles incentivavam os filhos a estudar, apesar de todas as limitações. É uma nuance que muda a leitura da história: o obstáculo não estava dentro de casa, estava na estrutura disponível ao redor. Escola pública em comunidade ribeirinha do Alto Rio Negro significa deslocamento por rio, material escasso e professores em número insuficiente, realidade que aparece nos diagnósticos oficiais sobre a região há décadas.
Onde fica o lugar em que ela nasceu
São Gabriel da Cachoeira não é uma cidade qualquer no mapa brasileiro. O município ocupa mais de 109 mil quilômetros quadrados no noroeste amazonense, área maior que a de vários países, com densidade demográfica de aproximadamente 0,35 habitante por quilômetro quadrado. Faz fronteira com a Colômbia e a Venezuela.
É também o município mais indígena do país. Levantamentos apontam que a maioria esmagadora da população local se autodeclara indígena, e a cidade abriga povos de quatro famílias linguísticas diferentes. A distância até Manaus supera 850 quilômetros em linha reta, e o acesso principal é fluvial ou aéreo, sem ligação rodoviária regular com a capital. Esse isolamento explica boa parte da dificuldade de acesso a serviços de saúde que ela viveu e hoje tenta reduzir.
Quem são os Baniwa
O povo ao qual ela pertence fala uma língua da família aruaque e vive na fronteira entre Brasil, Colômbia e Venezuela, em aldeias às margens do rio Içana e de seus afluentes Cuiari, Aiari e Cubate, além de comunidades no Alto Rio Negro e nos centros urbanos de São Gabriel da Cachoeira, Santa Isabel e Barcelos.
A ocupação se distribui por mais de 90 povoados entre comunidades e sítios. Os Kuripako, que falam um dialeto muito próximo, ocupam o alto Içana e a porção colombiana, e casamentos entre os dois grupos são frequentes. O contato com colonizadores europeus começou no início do século 18, e a população foi duramente reduzida por epidemias de sarampo e varíola, além da escravização e da exploração no ciclo da borracha a partir de 1870. Os Baniwa são conhecidos pela cestaria de arumã e, nas últimas décadas, pela participação ativa no movimento indígena da região.
O caminho até a universidade
O ingresso no curso de medicina da Universidade do Estado do Amazonas aconteceu em 2014. Para cursar, Ilzinei precisou deixar a comunidade em São Gabriel da Cachoeira e se mudar para Manaus.
A mudança não foi só de endereço. Ela relata ter precisado aprender a conviver com outras culturas e realidades, o que descreve como parte do desafio da graduação. Estudante indígena que sai do interior para a capital enfrenta simultaneamente o conteúdo do curso, o custo de vida urbano, a distância da família e um ambiente acadêmico que raramente foi pensado para recebê la. Medicina, com carga horária integral e seis anos de duração, torna esse arranjo ainda mais difícil de sustentar.
A gravidez no segundo período
O momento em que ela quase desistiu tem data e circunstância. Durante a graduação, Ilzinei conciliou os estudos com a vida familiar e o casamento com o químico Osvaldo Pontes.
Foi o marido quem contou publicamente esse trecho da história. Segundo ele, ela engravidou no segundo período e quase abandonou o curso, mas seguiu com apoio da família e dos amigos. Ele descreve o resultado como orgulho enorme para todos e a identifica como a primeira médica Baniwa da região. Abandono de curso superior por gravidez continua sendo um dos principais motivos de evasão feminina no ensino superior brasileiro, e o que sustentou a permanência dela foi rede de apoio, não política institucional.
Diploma no meio de uma pandemia
O diploma chegou em 2020, no pico da pandemia de covid. Não houve tempo de comemoração convencional, e a turma se formou já em contexto de emergência sanitária.
O relato dela sobre o período é direto e sem heroísmo. Perdeu colegas para o vírus e continuou na linha de frente, porque a saúde foi a categoria que nunca parou de trabalhar. Ilzinei avalia que a própria formação foi essencial para enfrentar uma situação como aquela. Vale lembrar o que a pandemia significou especificamente para populações indígenas no Amazonas: comunidades de difícil acesso, transporte de pacientes por rio até unidades de referência e taxas de letalidade que preocuparam autoridades sanitárias em todo o estado.
As duas frentes em que a médica atua hoje
O trabalho atual dela se divide em dois vínculos, ambos em São Gabriel da Cachoeira. O primeiro é na Casa de Apoio à Saúde Indígena da cidade natal, unidade ligada ao Distrito Sanitário Especial Indígena Alto Rio Negro.
Essas casas de apoio, conhecidas pela sigla Casai, funcionam como retaguarda para indígenas que precisam sair das aldeias para receber atendimento de média ou alta complexidade, oferecendo hospedagem, acompanhamento e articulação com a rede de saúde. O segundo vínculo é como médica militar temporária no Hospital de Guarnição de São Gabriel da Cachoeira. Há uma simetria evidente aí: foi vendo médicos militares atuando na cidade que ela decidiu seguir a profissão, e hoje ela integra esse mesmo tipo de serviço.
Por que atender na própria língua muda o atendimento
Este é o ponto que ela mais destaca sobre o próprio trabalho. Ilzinei defende que atender pacientes na língua baniwa é fundamental porque o idioma carrega a cultura e fortalece a confiança entre médico e paciente, evitando erros de interpretação e garantindo um cuidado mais humano.
O argumento tem base concreta na realidade local. São Gabriel da Cachoeira aprovou em 2002 a Lei Municipal 145, que tornou o baniwa, o tucano e o nheengatu línguas cooficiais do município ao lado do português, com o ianomâmi acrescentado posteriormente. Consulta médica depende de o paciente descrever sintoma, duração, intensidade e histórico, e qualquer imprecisão nessa descrição pode levar a diagnóstico errado. Quando o profissional depende de intérprete ou de português precário, essa camada de informação se perde. Não é conforto cultural, é qualidade de diagnóstico.
O plano de especialização em ginecologia
O próximo passo já está definido, e responde a um problema específico da região. Ela pretende se especializar em ginecologia para oferecer cuidado humanizado às mulheres, com foco em pré-natal e partos.
A justificativa que ela apresenta é geográfica. Muitas mulheres deixam de fazer acompanhamento por morarem em regiões de difícil acesso, e no Alto Rio Negro isso significa horas ou dias de viagem por rio até a unidade mais próxima. Pré-natal incompleto é um dos principais fatores associados a complicações no parto, e a distância é o obstáculo que transforma consulta de rotina em decisão logística cara para a família.
O que ela diz sobre representatividade
Ilzinei recusa a leitura da conquista como feito individual. Afirma carregar não apenas uma vitória pessoal, mas de toda a comunidade, e diz querer mostrar aos jovens indígenas que estudar também é forma de fortalecer o próprio povo.
A frase que resume a posição dela é sobre efeito em cadeia: quando um indígena chega à universidade, abre caminho para muitos outros. A mensagem que deixa aos jovens da região é para nunca desistirem dos sonhos e nunca esquecerem de onde vieram, tratando a educação como ferramenta de transformação e o conhecimento como instrumento para cuidar do próprio povo. Presença indígena em cursos de medicina no Brasil ainda é minoritária, e ampliar esse número esbarra em vestibular, custo de permanência e distância da comunidade de origem.
A data em que a história foi contada
A reportagem original foi publicada em 8 de março de 2026, Dia Internacional da Mulher, dentro de uma série do grupo de comunicação sobre trajetórias femininas na Amazônia.
Vale registrar a origem da data, que costuma ser tratada como efeméride comercial. Ela foi oficializada pela Organização das Nações Unidas em 1975, mas é celebrada desde o início do século 20, com raízes na mobilização de operárias nos Estados Unidos e em países europeus que reivindicavam melhores condições de trabalho dentro do movimento socialista. Hoje a data é marcada por protestos e reivindicações de igualdade de gênero em várias partes do mundo, o que a aproxima da origem.
E você, conhece alguém que precisou sair da própria cidade para estudar e voltou para trabalhar lá? Conta aqui nos comentários como foi essa história, e diga também se você acha que o Brasil oferece condições reais para que estudantes indígenas cheguem a cursos como medicina e permaneçam neles até o fim.
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Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Bruno Teles.

