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Seu Celso, aos 82 anos, mantém mercadinho de madeira com mais de 130 anos no interior de Taquara e preserva uma verdadeira viagem ao passado, com relíquias do tempo dos tropeiros, moinho histórico e histórias que resistem ao desaparecimento da vida no campo
Escrito por Felipe Alves da Silva
Publicado em 01/08/2026 às 22:21
Atualizado em 01/08/2026 às 22:22
Curiosidades
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Em Padilha Velha, na zona rural de Taquara (RS), um pequeno mercadinho centenário continua de portas abertas graças à dedicação de Seu Celso, que mantém viva uma das últimas lembranças do comércio rural gaúcho, preservando objetos históricos, um antigo moinho e memórias que atravessaram gerações.
Em uma época em que supermercados modernos dominam o comércio, um pequeno mercadinho de madeira localizado na comunidade de Padilha Velha, no interior de Taquara, no Rio Grande do Sul, segue resistindo ao tempo. O estabelecimento, que possui mais de 130 anos de história, continua funcionando graças ao trabalho diário de Seu Celso, de 82 anos, que preserva praticamente intacta uma parte importante da memória do interior gaúcho. A história foi apresentada em reportagem publicada pelo canal Relíquias do Sul, que percorre comunidades históricas da região para registrar tradições e patrimônios culturais.
Ao entrar no pequeno comércio, a sensação é de voltar décadas — ou até mais de um século — no tempo. O balcão original permanece no mesmo lugar, antigas prateleiras continuam sendo utilizadas, uma balança centenária ainda pesa alimentos e diversos objetos históricos seguem preservados exatamente como eram utilizados pelas gerações anteriores.
Muito mais do que um estabelecimento comercial, o mercadinho tornou-se um verdadeiro museu vivo da história rural do Rio Grande do Sul.
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Um moinho que nasceu antes mesmo da chegada da eletricidade
A história do local começou muito antes de existir o mercadinho. Conforme relata Seu Celso, inicialmente funcionava apenas um moinho movido pela força da água, responsável por produzir farinha de milho e descascar arroz para toda a comunidade.
Seu pai chegou à propriedade em 1946, quando ele ainda tinha apenas três anos de idade. Desde então, a família passou a viver exclusivamente da produção do moinho, atividade suficiente para sustentar os 13 irmãos durante muitos anos.
Naquela época, Padilha Velha era uma comunidade extremamente movimentada.
Segundo Seu Celso, era comum encontrar cinco ou seis animais amarrados em frente ao moinho todos os dias. Agricultores chegavam de diversas localidades levando milho para trocar por farinha, enquanto outros utilizavam o equipamento para beneficiar arroz produzido nas pequenas propriedades rurais.
O movimento era tão intenso que diariamente eram produzidos entre três e quatro sacos de farinha.
Décadas depois, esse cenário mudou completamente.
Hoje, segundo o proprietário, o fluxo de visitantes caiu cerca de 80%, reflexo do êxodo rural e da redução significativa da população que vivia na região.
Padilha Velha já foi uma das regiões mais importantes de Taquara
Durante a conversa, Seu Celso relembra que Padilha Velha teve enorme importância econômica para Taquara.
Em 1952, o distrito era considerado o maior produtor de feijão-preto do município. Naquela época, Taquara possuía uma extensão territorial muito maior, abrangendo áreas que posteriormente deram origem a cidades como Três Coroas, Rolante, Parobé, Sapiranga e parte de Gramado.
Com o passar das décadas, entretanto, o crescimento urbano e o surgimento de novos centros comerciais fizeram com que a população rural diminuísse drasticamente.
Famílias inteiras deixaram o interior em busca de oportunidades nas cidades.
“Um filho ia embora, depois levava os irmãos e, mais tarde, os pais”, recorda Seu Celso ao explicar como a comunidade perdeu boa parte de seus moradores.
Mesmo diante dessas mudanças, ele decidiu permanecer.
Foi adquirindo pequenas áreas de terra ao redor da propriedade e acabou criando raízes no lugar onde passou praticamente toda a vida.
Relíquias preservam mais de um século de história
Se o lado de fora já impressiona, o interior do mercadinho reserva verdadeiras preciosidades históricas.
O balcão original continua sendo utilizado diariamente.
A antiga balança mecânica permanece em funcionamento e segue sendo aferida pelo Inmetro para pesar produtos como batatas, cebolas e feijão produzido na própria região.
Entre as peças preservadas também estão:
- máquina de moer café e pimenta com cerca de 50 anos;
- antigas propagandas de medicamentos e da marca Rayovac com aproximadamente 70 anos;
- ferramentas produzidas manualmente pelo avô de Seu Celso;
- uma bigorna datada de 1909, ainda preservada;
- antigas moedas brasileiras;
- notas de dinheiro que deixaram de circular há muitas décadas;
- um baú trazido por familiares vindos da Alemanha;
- uma cristaleira centenária;
- um relógio antigo preservado pela família há gerações.
Cada objeto permanece exatamente onde foi colocado há décadas, transformando o pequeno comércio em um espaço que preserva parte importante da memória da imigração europeia e da colonização do interior gaúcho.
O antigo moinho guarda lembranças dos tempos dos tropeiros
Assista o vídeo
Ao lado do mercadinho está outro patrimônio histórico da propriedade: o antigo moinho, cuja estrutura começou a ser construída há mais de 130 anos.
Segundo Seu Celso, durante décadas ele funcionou utilizando exclusivamente a força da água.
No local ainda permanecem as enormes pedras que produziam farinha, o sistema de engrenagens, as antigas tulhas onde eram armazenados milho e farinha, além do equipamento utilizado para levantar a pesada pedra do moinho, que pesava cerca de 300 quilos.
O funcionamento foi interrompido em 1982.
Naquele ano, uma grande enchente destruiu a represa que alimentava o moinho. Como a atividade já enfrentava queda na demanda, a família optou por não reconstruir toda a estrutura, encerrando uma tradição que havia atravessado gerações.
Ainda assim, o espaço continua preservado praticamente da mesma forma como funcionava décadas atrás.
Um patrimônio vivo da história rural gaúcha
Hoje, boa parte dos visitantes que chegam ao mercadinho são turistas interessados em conhecer um dos estabelecimentos comerciais mais antigos ainda em funcionamento na região.
Mais do que vender alimentos, Seu Celso compartilha histórias sobre o desenvolvimento de Padilha Velha, a passagem dos antigos tropeiros, o funcionamento do moinho, a vida dos agricultores e os costumes que marcaram o interior do Rio Grande do Sul durante mais de um século.
Aos 82 anos, ele continua atrás do balcão todos os dias, mantendo viva uma tradição familiar iniciada por seus antepassados e preservando um patrimônio histórico que resiste ao avanço do tempo.
Em um mundo marcado pela rapidez das transformações, o pequeno mercadinho de madeira segue oferecendo algo raro: a oportunidade de caminhar por um lugar onde praticamente tudo permanece como era décadas atrás.
E você, conheceria um mercadinho centenário para reviver um pedaço da história do interior do Rio Grande do Sul?
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Felipe Alves da Silva
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Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Felipe Alves da Silva.

