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Seu Roberto, de 66 anos, nasceu nas montanhas de Minas, acorda às 3 da manhã para tirar leite desde os 8 anos e diz que nunca teve vontade de trocar a roça pela cidade

Seu Roberto, de 66 anos, nasceu nas montanhas de Minas, acorda às 3 da manhã para tirar leite desde os 8 anos e diz que nunca teve vontade de trocar a roça pela cidade

MG

9 min de leitura

Seu Roberto, de 66 anos, nasceu nas montanhas de Minas, acorda às 3 da manhã para tirar leite desde os 8 anos e diz que nunca teve vontade de trocar a roça pela cidade

Escrito por Felipe Alves da Silva

Publicado em 07/08/2026 às 12:06

Atualizado em 07/08/2026 às 12:07

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Seu Roberto mantém a tradição da ordenha manual nas montanhas de Marmelópolis, onde vive desde o nascimento e preserva um modo de vida passado por gerações. Foto: Divulgação/Eduardo Pádua

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Morador de Marmelópolis, no sul de Minas Gerais, produtor rural mantém a mesma rotina há quase seis décadas, preserva tradições da vida no campo, cuida de um rebanho formado ao longo de gerações e sonha em ver o filho voltar para dar continuidade ao trabalho da família.

Enquanto muitos brasileiros deixaram o campo em busca de oportunidades nas cidades, Seu Roberto fez exatamente o contrário: permaneceu onde nasceu. Aos 66 anos, ele continua vivendo na mesma propriedade localizada nas montanhas de Marmelópolis, no sul de Minas Gerais, acordando diariamente às 3 horas da manhã para cuidar das vacas e realizar a ordenha manual que sustenta sua família há décadas.

A rotina começou muito cedo. Ainda criança, aos 8 anos, ele já acompanhava o pai no curral e aprendeu a tirar leite com as próprias mãos. Desde então, nunca deixou a atividade. Hoje, quase 60 anos depois, continua repetindo o mesmo ritual antes do amanhecer, algo que faz por escolha, não por obrigação.

“Eu acostumei”, resume durante a conversa.

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Mais do que uma história de trabalho, a trajetória de Seu Roberto retrata uma realidade cada vez menos comum no interior brasileiro. Registrada pelo canal de Eduardo Pádua durante uma visita à propriedade realizada em 4 de agosto, em Marmelópolis (MG), a conversa revela como pequenas famílias rurais ainda conseguem manter suas terras ativas por várias gerações, preservando conhecimentos, tradições e um modo de vida que resiste ao tempo.

Foto: Divulgação/Eduardo Pádua

A produção de leite continua sendo o coração da propriedade

Todos os dias, cerca de 70 litros de leite deixam a pequena fazenda. A produção acontece pela manhã e à tarde, sempre com ordenha manual.

Na região montanhosa onde mora, a mecanização ainda não chegou à maioria das propriedades. Segundo ele, apenas um produtor local utiliza sistema de ordenha mecânica. O restante continua trabalhando da mesma forma que há décadas.

Depois da coleta, o leite segue para o laticínio. No dia seguinte, parte retorna em forma de soro, utilizado na alimentação dos porcos, reduzindo desperdícios e aproveitando praticamente tudo o que é produzido.

A lógica da propriedade é simples: desperdiçar o mínimo possível.

Esse tipo de aproveitamento integral ainda é bastante presente em pequenas fazendas familiares de Minas Gerais, onde leite, soro, hortas, criação de aves e suínos costumam formar um sistema integrado capaz de reduzir custos e aumentar a autonomia da produção rural.

Quando não existiam pontes, o leite atravessava rios em lombo de burro

Foto: Divulgação/Eduardo Pádua

As lembranças da infância ajudam a mostrar como a vida no campo mudou ao longo das últimas décadas.

Seu Roberto recorda que, quando era menino, o transporte do leite era feito em mulas e burros. Não havia pontes na região, e os produtores precisavam cruzar rios carregando latões.

Em épocas de chuva, a correnteza aumentava o risco. Algumas vezes, os animais chegavam a ser arrastados pela água.

Mesmo assim, o trabalho precisava continuar.

Também não havia calçados para todos. Em muitas manhãs, ele caminhava descalço sobre a geada para ajudar o pai antes mesmo do nascer do sol. Hoje, ao olhar para trás, descreve aqueles tempos como difíceis, mas faz questão de destacar que também eram felizes.

Essa memória ajuda a dimensionar a transformação da infraestrutura rural em diversas regiões de Minas. Embora estradas, pontes e transporte tenham evoluído, boa parte das pequenas propriedades continua dependendo do trabalho familiar para manter a produção.

Uma vaca de 17 anos virou símbolo de gratidão

Entre todos os animais da fazenda, existe uma que ocupa um lugar especial.

A vaca, chamada Serrana, já tem cerca de 17 anos e quase foi descartada devido à idade. Seu Roberto, porém, decidiu mantê-la.

Aplicou vitaminas, acompanhou sua recuperação e acabou sendo recompensado com o nascimento de mais uma bezerra.

Segundo ele, praticamente todo o rebanho atual descende daquele animal.

Por isso, quando um comprador ofereceu dinheiro para levá-la embora, recusou imediatamente.

“Ela me deu muito lucro. O que está aí tudo é raça dela”, afirma.

A decisão revela uma característica comum entre pequenos produtores familiares: a relação construída com os animais vai além do aspecto econômico. Em muitas propriedades, determinadas matrizes representam anos de seleção genética, trabalho e história da família.

Uma propriedade onde quase tudo é produzido em casa

Foto: Divulgação/Eduardo Pádua

Além da pecuária leiteira, Seu Roberto cultiva ervilhas, batatas, verduras, frutas e mantém galinhas, porcos e até um pequeno tanque de trutas para consumo próprio.

A propriedade também possui limoeiros, amoreiras e áreas destinadas ao cultivo de outras hortaliças.

Segundo ele, viver na roça significa aproveitar cada recurso disponível.

“Na roça não pode perder nada”, resume ao explicar por que reutiliza o soro do leite, cria animais para consumo e cultiva boa parte dos alimentos que chegam diariamente à mesa da família.

Depois de quase meio século de casamento, o sonho agora é ver o filho voltar

Casado há 47 anos com Dona Lúcia, Seu Roberto nunca deixou a propriedade herdada da família.

Também cuidou dos pais até os últimos dias de vida, permanecendo na casa onde nasceu depois que o pai decidiu dividir as terras entre os filhos e confiar a ele a responsabilidade de continuar ali.

Hoje, seu maior desejo não está relacionado ao aumento da produção nem à expansão da propriedade.

Ele espera que um dos filhos, atualmente empregado na cidade, realize o sonho de voltar para o campo.

A ideia é aumentar um pouco o rebanho para que os dois possam dividir a ordenha e manter viva uma atividade iniciada ainda pelo avô da família.

Esse talvez seja o capítulo mais importante dessa história. Em um momento em que milhares de pequenas propriedades brasileiras enfrentam dificuldades para encontrar sucessores, Seu Roberto representa uma geração que preservou o conhecimento rural e agora aguarda a continuidade desse legado. Se o filho realmente voltar para as montanhas de Minas, a ordenha que começou quando ele tinha apenas 8 anos poderá seguir atravessando mais uma geração.

A casa onde nunca faltou comida — nem gente

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Se há uma palavra que Seu Roberto repete várias vezes durante a conversa, ela é “fartura”.

Não se trata apenas da comida produzida na propriedade, mas da forma como a família sempre viveu. Ele conta que a casa herdada dos pais nunca ficou vazia. Amigos, parentes e vizinhos sempre encontraram portas abertas.

Até hoje, os fins de semana costumam reunir filhos, familiares e visitantes. Quando ninguém aparece, o silêncio incomoda.

“Quando vem para mim é um prazer. Quando não vem ninguém, aí fica aquela solidão”, comenta.

Essa relação comunitária, bastante presente em pequenas localidades do interior mineiro, ajuda a explicar por que muitos moradores permanecem no campo mesmo depois de aposentados. Mais do que um lugar para trabalhar, a propriedade representa o centro da vida familiar.

O casamento que começou em uma festa e já dura quase meio século

Foi também na zona rural que Seu Roberto construiu sua família.

Ele conheceu Dona Lúcia em uma festa na região de Marmelópolis. O namoro foi rápido. Apenas dez meses depois, os dois já estavam casados.

Hoje, são 47 anos de casamento.

Ao longo desse período, trabalharam lado a lado na propriedade, criaram três filhos e também assumiram outra missão: cuidar dos pais de Seu Roberto até os últimos dias de vida.

Ele lembra que o pai decidiu dividir as terras entre os filhos, mas fez um pedido especial.

Queria que o caçula permanecesse na casa da família para cuidar dos dois.

Foi exatamente o que aconteceu.

Anos depois, Seu Roberto afirma que, apesar das dificuldades, não se arrepende da decisão. Considera que retribuiu tudo o que recebeu durante a infância e faz questão de destacar o papel da esposa nesse período.

“Ela honrou como esposa”, resume ao recordar os anos dedicados aos sogros.

Um sonho simples: ver o filho voltar para a roça

Apesar da aposentadoria, Seu Roberto continua trabalhando todos os dias.

Mas já pensa no futuro da propriedade.

Um dos filhos mora na cidade e trabalha como empregado, porém costuma dizer que sonha em voltar para a fazenda.

O pai acredita que isso pode acontecer.

Seu plano é ampliar um pouco o rebanho para que os dois dividam a produção de leite, mantendo viva uma tradição iniciada ainda pelo avô da família.

“Ele fala que o sonho dele é voltar para cá e tirar leite”, conta com entusiasmo.

Esse desejo revela uma realidade que vem chamando a atenção de especialistas em desenvolvimento rural. Enquanto muitas pequenas propriedades enfrentam dificuldades para encontrar sucessores, algumas famílias ainda conseguem despertar nas novas gerações o interesse em permanecer no campo. Não é um movimento majoritário, mas quando acontece costuma garantir a continuidade de conhecimentos acumulados durante décadas.

No caso de Seu Roberto, esse legado começou quando tinha apenas oito anos de idade. Hoje, quase seis décadas depois, ele continua acordando antes do nascer do sol para repetir um trabalho que aprendeu ao lado do pai. Se depender da vontade da família, a rotina das montanhas de Minas ainda terá muitos capítulos pela frente.

Vida simples, trabalho duro e um legado construído ao amanhecer

Foto: Divulgação/Eduardo Pádua

Há um detalhe que chama atenção na história de Seu Roberto.

Mesmo depois de mais de cinco décadas tirando leite, ele não fala da atividade como um sacrifício. Pelo contrário. Sempre que descreve a rotina, associa o trabalho à satisfação de permanecer onde nasceu e construiu sua família.

É por isso que, quando perguntado sobre o que mais gosta na vida na roça, ele responde sem hesitar: mexer com o gado.

A agricultura, que durante muitos anos ocupou boa parte da propriedade com batatas, tomates e outras culturas, vem sendo reduzida aos poucos. Ainda assim, a terra continua produzindo ervilhas, verduras, frutas e diversos alimentos que abastecem a casa e, em alguns casos, também seguem para comercialização na região.

Outro aspecto que revela a forma como ele enxerga o campo é a relação com a natureza.

Na propriedade, pássaros recebem frutas quando a produção é abundante, as trutas são criadas em água corrente de nascente e praticamente tudo encontra algum aproveitamento.

Para ele, viver na roça significa conviver diariamente com esse equilíbrio.

“Se nós gostamos de fruta, você acha que eles não vão gostar?”, comenta ao explicar por que costuma deixar alimento para aves silvestres que aparecem na propriedade.

Essa percepção ajuda a entender por que tantas pequenas propriedades familiares permanecem produtivas mesmo sem grande mecanização. Em vez de grandes estruturas, elas costumam se apoiar na diversificação da produção, no reaproveitamento dos recursos e na experiência acumulada ao longo de décadas.

O relógio marca 3 horas. A tradição continua.

Quando a maioria das cidades ainda dorme, Seu Roberto já está de pé.

Às três da manhã começa mais um dia igual a tantos outros vividos desde a infância.

Poucas horas depois, o leite seguirá para o laticínio, os animais serão alimentados, a horta receberá cuidados e a propriedade continuará funcionando como faz há gerações.

A rotina pode parecer repetitiva para quem observa de fora.

Para ele, é exatamente o contrário.

É ali que estão sua história, sua família e o trabalho aprendido com o pai ainda na infância.

Agora, a expectativa é que o filho realize o desejo de voltar para as montanhas de Minas e assuma parte dessa responsabilidade. Se isso acontecer, o conhecimento transmitido de pai para filho desde os tempos em que o leite era transportado em lombo de burro poderá seguir vivo por mais uma geração, preservando um modo de vida que se torna cada vez mais raro no interior brasileiro.


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Felipe Alves da Silva.

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