8 min de leitura
Sobram só cerca de mil na natureza, e a Espanha soltou 32 tritões raríssimos nascidos num zoológico do Reino Unido em um ponto secreto das montanhas da Catalunha, numa corrida para salvar uma espécie à beira do desaparecimento
Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges
Publicado em 15/08/2026 às 10:55
Atualizado em 15/08/2026 às 10:56
Ciência e Tecnologia
Canal
Seja o primeiro a reagir!
Prefira o CPG no Google
Os tritões nasceram no Zoológico de Chester, no Reino Unido, a partir de um programa iniciado com 24 animais enviados pela Catalunha em 2017. Marcados para acompanhamento, eles foram soltos perto de Barcelona, enquanto pesquisadores tentam ampliar o território ocupado e preservar riachos frios essenciais para sua sobrevivência na natureza.
32 tritões-do-Montseny criados no Zoológico de Chester, no Reino Unido, foram libertados em uma área montanhosa da Catalunha, no nordeste da Espanha, Segundo o ND Mais. O grupo nasceu em cativeiro e chegou à natureza como parte de uma operação internacional destinada a reforçar uma das espécies de anfíbios mais ameaçadas da Europa Ocidental.
O lugar exato da soltura, realizada nas proximidades de Barcelona, não foi revelado. A medida protege os animais contra perturbações, captura ilegal e riscos sanitários levados até os riachos por visitantes. A localização secreta mostra que devolver os animais à natureza é apenas o começo de uma etapa longa e vulnerável.
Tritões foram libertados sem que o riacho fosse identificado
Os 32 exemplares pertencem ao tritão-do-Montseny, de nome científico Calotriton arnoldi. Segundo o comunicado publicado pelo Zoológico de Chester, eles nasceram nas instalações britânicas e foram levados a um habitat montanhoso mantido fora do alcance do público.
ARTIGO CONTINUA ABAIXO
Veja também
O sigilo não transforma o riacho em um local sem acompanhamento. Especialistas selecionaram previamente a área, considerando características como qualidade da água, condições físicas e presença de fauna e flora compatíveis com as necessidades da espécie. Depois da libertação, o ponto continuará sendo monitorado por equipes de conservação.
Divulgar o endereço poderia aumentar justamente os perigos que o projeto tenta reduzir. A aproximação de curiosos pode alterar o ambiente, enquanto equipamentos, calçados e outros objetos contaminados têm potencial para transportar agentes causadores de doenças entre áreas ocupadas por anfíbios.
Marcas ultravioletas permitirão reconhecer os animais soltos
Antes de chegarem ao riacho, os tritões receberam marcadores identificáveis sob luz ultravioleta. Esses sinais não são transmissores e não mostram a posição dos animais à distância. Eles servem para que pesquisadores reconheçam os exemplares quando forem encontrados novamente durante as atividades de campo.
O acompanhamento permitirá verificar sobrevivência, deslocamento e adaptação ao ambiente. A recaptura de um indivíduo marcado poderá indicar que ele permaneceu vivo depois da mudança, enquanto observações repetidas ajudarão a revelar como o grupo utiliza diferentes trechos do curso de água.
Há, entretanto, limites importantes. Os animais são pequenos, vivem entre pedras e ocupam riachos de acesso difícil. Nem todo exemplar que deixa de ser encontrado necessariamente morreu. O monitoramento precisará distinguir ausência de observação, dispersão e perda real, tarefa complexa numa espécie naturalmente discreta.
Espécie existe somente no maciço do Montseny
O tritão-do-Montseny não ocorre naturalmente em nenhuma outra região conhecida. Ele está restrito ao maciço que dá nome à espécie, dentro do Parque Natural e Reserva da Biosfera do Montseny. O programa LIFE Tritó Montseny o descreve como o único vertebrado endêmico da Catalunha.
As primeiras populações foram encontradas por acaso em 1979, mas inicialmente foram associadas ao tritão-dos-Pirenéus, espécie próxima. Somente em 2005 estudos morfológicos e genéticos estabeleceram que aqueles animais formavam uma espécie distinta. O reconhecimento científico relativamente recente revelou, ao mesmo tempo, sua singularidade e sua situação crítica.
Os tritões vivem em poucos riachos, divididos em grupos isolados. Conforme os dados do projeto de conservação, os cursos ocupados somam apenas alguns quilômetros e ficam aproximadamente entre 600 e 1.200 metros de altitude. Uma alteração localizada pode atingir uma parcela relevante de toda a população selvagem.
Riachos frios e oxigenados sustentam todo o ciclo de vida
O habitat típico possui água fria, limpa, corrente e bem oxigenada, passando por leitos rochosos com fendas. Esses espaços oferecem abrigo e também locais nos quais as fêmeas conseguem esconder os ovos, comportamento adaptado à força da água nos trechos montanhosos.
Adultos chegam a aproximadamente dez centímetros e podem levar cerca de cinco anos para alcançar a maturidade sexual, segundo o Zoológico de Chester. Esse desenvolvimento lento ajuda a explicar por que a reposição de indivíduos não acontece de maneira imediata quando uma população diminui.
Outra parte da vida da espécie ainda intriga os pesquisadores. Larvas são encontradas nos riachos e depois parecem desaparecer, voltando a ser observadas quando adultas. Uma hipótese é que passem parte desse intervalo em sistemas subterrâneos de água sob as montanhas, mas a explicação ainda não foi confirmada. Mesmo após anos de estudo, uma fase importante permanece escondida.
Mudanças no clima podem reduzir a água disponível
O aquecimento e a alteração do regime de chuvas ameaçam um anfíbio dependente de pequenos cursos de água. O levantamento de ameaças do LIFE Tritó Montseny informa que a temperatura média do maciço aumentou mais de um grau no último século, elevando a evaporação e deixando o ambiente mais seco.
Chuvas irregulares e períodos de seca na primavera podem diminuir o fluxo dos riachos. A extração de água subterrânea, quando combinada às condições climáticas e florestais, também pode agravar a redução. Para um animal estritamente ligado ao ambiente aquático, a perda de vazão não significa apenas menos espaço: pode interromper áreas de alimentação, reprodução e abrigo.
Estradas fragmentam o território e dificultam a conexão entre núcleos. Alterações na qualidade da água, comércio ilegal e doenças causadas por fungos completam o conjunto de riscos acompanhado pelas equipes. Criar mais animais não resolverá o problema se os riachos deixarem de oferecer condições para mantê-los.
Programa britânico começou com 24 exemplares em 2017
A origem dos 32 animais libertados remonta a abril de 2017. Naquele período, 24 exemplares mantidos no Centro de Fauna de Torreferrussa foram enviados ao Reino Unido, transformando Chester na primeira instituição fora da Catalunha integrada ao programa de reprodução da espécie.
O zoológico preparou uma área isolada de visitantes e de outros anfíbios, com quase 60 aquários destinados a adultos, larvas e juvenis. O transporte da Catalunha foi organizado para preservar umidade e temperatura. Os 24 fundadores formaram 12 pares reprodutores, mantidos sob protocolos de biossegurança.
Atualmente, mais de cem descendentes permanecem em Chester enquanto amadurecem para possíveis libertações futuras. Cuidadores verificam água, limpam tanques, procuram ovos escondidos e acompanham a saúde dos exemplares. Foram necessários nove anos entre a chegada dos fundadores e a soltura deste grupo nascido no Reino Unido.
Soltura de 32 animais integra esforço iniciado anteriormente
A operação de 2026 é relevante por levar à natureza descendentes criados no núcleo britânico, mas não foi a primeira reintrodução de tritões no Montseny. O programa de reprodução em cativeiro começou em 2007 no Centro de Fauna de Torreferrussa e posteriormente incorporou outras instituições.
Em 2020, técnicos libertaram 235 exemplares em quatro riachos. No ano seguinte, outros 328, entre juvenis e larvas, foram reintroduzidos. Um balanço apresentado no encerramento do projeto europeu informou que as ações de criação e recuperação do habitat continuariam mesmo após o término formal da iniciativa financiada pelo programa LIFE.
Registros divulgados em 2022 apontavam mais de 5.700 larvas criadas e cerca de 2.600 indivíduos libertados ao longo do esforço de conservação. Esses números abrangem diferentes anos, centros e estágios de desenvolvimento. Os 32 animais de Chester representam uma nova contribuição dentro de uma estratégia muito maior, não uma tentativa isolada iniciada agora.
Diversidade genética influencia a escolha de cada grupo
Uma população pequena e fragmentada pode perder diversidade genética, o que reduz sua capacidade de responder a doenças e mudanças ambientais. No caso do tritão-do-Montseny, pesquisadores encontraram diversidade considerada surpreendentemente preservada diante do número reduzido de animais na natureza.
Essa constatação oferece uma base favorável, mas também exige cuidado. Os grupos orientais e ocidentais apresentam diferenças genéticas e morfológicas, e a reprodução não pode misturar indivíduos indiscriminadamente. Centros de criação precisam controlar a origem dos animais para preservar características desenvolvidas naturalmente em cada núcleo.
A escolha dos exemplares libertados considera essa variabilidade e a compatibilidade com o local de destino. Uma reintrodução bem-sucedida não depende apenas da quantidade solta, mas da composição genética, da saúde dos animais e da adequação do riacho.
Estimativas populacionais variam conforme método e período
A reportagem do ND Mais apresenta uma população selvagem próxima de mil indivíduos e menciona uma faixa de aproximadamente mil a 1.500. O Zoológico de Chester afirma que podem existir menos de 1.500 animais na natureza, enquanto documentos e apresentações técnicas de períodos distintos chegaram a estimativas diferentes.
Essa variação não deve ser lida automaticamente como crescimento ou queda, porque estudos podem usar métodos, locais, idades e intervalos diferentes. Contar uma espécie escondida entre pedras e possivelmente ligada a águas subterrâneas produz margens de incerteza consideráveis.
O consenso entre as instituições é mais importante do que escolher um número absoluto: a distribuição é extremamente pequena, fragmentada e vulnerável. O tritão permanece classificado em perigo crítico. Mesmo a estimativa mais alta disponível não elimina o risco criado pela dependência de poucos riachos montanhosos.
Retorno à natureza dependerá da proteção das montanhas
Os 32 tritões deixaram um ambiente controlado para enfrentar correnteza, variação de temperatura, busca por alimento e outras condições naturais. A soltura amplia a possibilidade de formação ou reforço de uma população, mas seu resultado somente poderá ser avaliado com acompanhamento prolongado.
Paralelamente, conservar o habitat exige proteger a vazão, restaurar áreas próximas aos riachos, reduzir a fragmentação e impedir a entrada de doenças. O trabalho reúne governo catalão, centros de fauna, zoológicos, parque natural, pesquisadores e equipes locais.
Assista o vídeo
O ponto secreto preserva os animais de uma ameaça imediata, mas o futuro da espécie será decidido pela qualidade da água e pela capacidade de manter seus poucos riachos vivos.
Na sua opinião, o que deveria receber prioridade: reprodução em cativeiro, restauração dos cursos de água, combate ao comércio ilegal ou pesquisa sobre a vida subterrânea? Conte nos comentários.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Maria Heloisa Barbosa Borges.

