Ícone do site Portal Estado do Acre Notícias

Suíça escavou uma fortaleza militar sob 300 metros de granito nos Alpes, abriu quilômetros de túneis para centenas de soldados e instalou quatro canhões de 150 mm para transformar o Gotardo em uma barreira contra uma invasão

Suíça escavou uma fortaleza militar sob 300 metros de granito nos Alpes, abriu quilômetros de túneis para centenas de soldados e instalou quatro canhões de 150 mm para transformar o Gotardo em uma barreira contra uma invasão

8 min de leitura

Suíça escavou uma fortaleza militar sob 300 metros de granito nos Alpes, abriu quilômetros de túneis para centenas de soldados e instalou quatro canhões de 150 mm para transformar o Gotardo em uma barreira contra uma invasão

Escrito por Valdemar Medeiros

Publicado em 22/08/2026 às 19:25

Construção

Canal

Assista o vídeo
Sasso San Gottardo

Seja o primeiro a reagir!

Prefira o CPG no Google

Durante a Segunda Guerra, a Suíça escavou o Sasso da Pigna sob 300 metros de granito, criou quilômetros de túneis e instalou quatro canhões de 150 mm nos Alpes.

Em 1941, quando a Alemanha nazista dominava grande parte da Europa e a Itália de Benito Mussolini participava da guerra ao lado do Eixo, a Suíça começou a perfurar o maciço de São Gotardo para erguer uma das maiores fortalezas subterrâneas de sua história.

O resultado foi o Sasso da Pigna, complexo militar construído dentro da montanha com cerca de 8 mil m², aproximadamente 2,5 km de galerias na fortaleza histórica e quatro grandes canhões de 150 mm, protegidos pela própria massa rochosa dos Alpes. Atualmente, o conjunto visitável do Sasso San Gottardo reúne mais de 3 km de túneis em diferentes níveis.

O nível de proteção era extraordinário. Em determinadas partes da instalação havia cerca de 300 metros de granito sobre os militares, enquanto alojamentos, depósitos de munição, infraestrutura técnica e posições de artilharia permaneciam escondidos da superfície.

ARTIGO CONTINUA ABAIXO

Veja também

A fortaleza podia acomodar cerca de 420 homens, segundo a Fundação Sasso San Gottardo, enquanto registros históricos citados pela SWI swissinfo apontam que o complexo fora concebido para manter aproximadamente 500 soldados em autossuficiência por até seis meses.

A queda da França colocou a Suíça praticamente cercada pelo Eixo

A origem da gigantesca construção está diretamente relacionada ao colapso militar francês em junho de 1940.

Com a França derrotada, a situação geográfica suíça tornou-se crítica. Alemanha, Itália e territórios dominados pelas potências do Eixo cercavam grande parte do país, enquanto as forças suíças não possuíam capacidade para enfrentar uma invasão convencional em toda a extensão do território.

Foi nesse cenário que o general Henri Guisan, comandante do Exército suíço, adotou a estratégia conhecida como Reduto Nacional, ou Réduit national.

Assista o vídeo

Em vez de concentrar todos os recursos militares na defesa das fronteiras e das grandes cidades do planalto, a Suíça transformaria os Alpes em seu último grande bastião.

O plano era transformar os Alpes em uma fortaleza gigantesca

A lógica estratégica era explorar uma vantagem que nenhum exército invasor poderia alterar: a geografia. Montanhas, vales estreitos, estradas, túneis ferroviários e passos alpinos canalizavam qualquer força inimiga para pontos relativamente previsíveis. Controlar essas passagens significava tornar uma invasão muito mais cara.

Três grandes regiões formariam os pilares do Reduto Nacional: Saint-Maurice, Sargans e São Gotardo. O último tinha importância especial por controlar uma das principais ligações entre o norte e o sul dos Alpes.

Foi nesse maciço que trabalhadores começaram a abrir uma rede de galerias, bunkers, posições de artilharia e instalações militares escondidas dentro da própria rocha.

Obras no Sasso da Pigna começaram em setembro de 1941

O projeto da fortaleza foi elaborado entre 1940 e 1941. As obras começaram em 1941, e a construção avançou por diferentes etapas até 1945. A primeira fase, entre 1941 e 1943, concentrou-se na escavação das galerias e na preparação para canhões de 105 mm.

Sasso San Gottardo interior

A segunda fase, entre 1943 e 1945, ampliou o complexo e adaptou a instalação para receber armamento muito mais pesado: os canhões de fortaleza de 150 mm.

No outono de 1944, os quatro grandes canhões e o setor de combate já estavam operacionais. A fortaleza completa foi formalmente entregue em dezembro de 1945, quando a Segunda Guerra Mundial já havia terminado.

Quase 2,5 quilômetros de galerias foram escavados dentro da montanha

A dimensão subterrânea impressiona até pelos padrões atuais. A documentação histórica da Fundação Sasso San Gottardo atribui ao Sasso da Pigna aproximadamente 8 mil metros quadrados de área e cerca de 2,5 quilômetros de galerias.

O complexo era dividido em dois níveis principais.

Na parte inferior ficavam elementos fundamentais para manter os soldados funcionando por longos períodos. A área superior concentrava setores ligados à artilharia, munição e posições de combate.

Os dois níveis não eram ligados apenas por escadas. Um sistema de transporte inclinado, posteriormente conhecido como Metro del Sasso, permitia movimentar pessoas e materiais internamente.

Em alguns pontos havia 300 metros de granito sobre os soldados

Do lado de fora, grande parte da estrutura praticamente desaparecia na paisagem.

A SWI swissinfo, em reportagem realizada dentro da instalação, registrou que sobre determinados setores existiam aproximadamente 300 metros de granito. Essa enorme massa rochosa funcionava como proteção natural.

Em vez de depender exclusivamente de paredes artificiais de concreto armado, a fortaleza utilizava a própria montanha como blindagem contra bombardeios e ataques de artilharia.

No interior, porém, o ambiente era tudo menos natural. Túneis, dormitórios, tubulações, instalações elétricas, depósitos e salas técnicas transformavam a montanha em uma infraestrutura militar funcional.

Cerca de 420 homens poderiam viver dentro da fortaleza

A Fundação Sasso San Gottardo informa que os alojamentos tinham espaço para aproximadamente 420 militares.

Outras fontes suíças descrevem capacidade planejada próxima de 500 homens. A diferença decorre das formas distintas de contabilizar efetivo e capacidade dos setores do complexo.

Assista o vídeo

O ponto central permanece o mesmo: não se tratava de uma simples bateria de artilharia.

Era uma instalação concebida para manter centenas de homens operando dentro da montanha por um período prolongado.

A estrutura incluía dormitórios, cozinha, setores médicos, comunicações, depósitos, reservas de suprimentos e instalações necessárias para manter as posições de combate funcionando mesmo com o acesso externo ameaçado.

Soldados poderiam permanecer isolados durante meses

Segundo a SWI swissinfo, a fortaleza foi concebida de modo que aproximadamente 500 homens pudessem sobreviver em autossuficiência por até seis meses.

Essa autonomia fazia sentido dentro do conceito do Reduto Nacional. Em um cenário de invasão, estradas poderiam ser destruídas, acessos bloqueados e regiões inteiras isoladas. Uma fortaleza dependente de abastecimento diário perderia rapidamente sua capacidade operacional.

O Sasso da Pigna precisava, portanto, funcionar como uma pequena comunidade militar subterrânea.

Comida, água, combustível, atendimento médico, munição e energia eram elementos tão importantes quanto os próprios canhões.

Quatro canhões de 150 mm protegiam os acessos ao Gotardo

A principal força ofensiva da instalação eram quatro canhões de fortaleza de 15 centímetros, divididos em duas baterias.

Segundo o inventário histórico das Fortificazioni Ticinesi, duas peças cobriam áreas como Leventina e Lukmanier, enquanto a outra bateria protegia eixos relacionados ao passo de San Giacomo e ao Nufenen.

Os canhões não precisavam enxergar diretamente os alvos.

Sasso San Gottardo ilustração

Esse tipo de artilharia dependia de observadores externos, informações topográficas e cálculos para executar tiro indireto contra regiões localizadas a quilômetros de distância.

A SWI swissinfo explica que as fortificações de São Gotardo exigiam cálculos complexos justamente porque cadeias montanhosas podiam ficar entre a arma e o alvo.

As bocas dos canhões quase desapareciam na montanha

Vista do lado de fora, a obra possuía outra vantagem: camuflagem. As aberturas dos canhões eram incorporadas diretamente à formação rochosa e podiam ser difíceis de distinguir à distância.

Até hoje é possível observar algumas dessas posições na região do passo de São Gotardo, embora grande parte do complexo permaneça escondida dentro da montanha.

A combinação de altitude, rocha, posição defensiva e artilharia pesada tornava o conjunto especialmente complicado para um adversário atacar diretamente.

Era exatamente essa a intenção.

O inimigo não precisava conquistar apenas uma fortaleza

O Sasso da Pigna era somente uma peça dentro de uma rede muito maior.

A SWI swissinfo contabiliza 14 infraestruturas militares semelhantes apenas no lado do Ticino da região de São Gotardo. Algumas remontavam ao final do século XIX, enquanto muitas outras foram construídas ou modernizadas nas décadas de 1930 e 1940.

Isso significava que um invasor não enfrentaria apenas uma bateria escondida.

Estradas, vales e passos poderiam estar cobertos por diferentes posições de artilharia, bunkers, obstáculos e unidades militares.

O maciço inteiro foi progressivamente convertido em um sistema defensivo integrado.

Estratégia suíça continua sendo discutida pelos historiadores

A imagem de uma Suíça inexpugnável escondida nos Alpes é poderosa, mas precisa de contexto. A própria Fundação Sasso San Gottardo reconhece que o Reduto Nacional foi controverso.

Concentrar forças nos Alpes significava aceitar que grande parte do planalto, da população e da infraestrutura industrial poderia ficar vulnerável caso uma invasão realmente acontecesse.

Sasso San Gottardo

Historiadores também divergem sobre até que ponto as fortalezas teriam conseguido impedir uma ofensiva das potências do Eixo.

O objetivo, entretanto, não era necessariamente tornar uma invasão impossível.

Era elevar dramaticamente seu custo militar e ameaçar destruir ou bloquear justamente as rotas alpinas que poderiam interessar ao invasor.

Fortaleza permaneceu operacional por décadas depois da guerra

O fim da Segunda Guerra Mundial não encerrou imediatamente a história do Sasso da Pigna. A instalação continuou operacional durante praticamente toda a Guerra Fria.

Segundo a Fundação, permaneceu em serviço até 1998. Em 2001, deixou de estar submetida ao sigilo militar.

Isso significa que uma obra concebida diante do risco de uma invasão alemã e italiana permaneceu vinculada ao sistema defensivo suíço durante mais de meio século.

Dos 73 grandes complexos de artilharia construídos no país, oito foram posteriormente selecionados para preservação como monumentos de importância nacional. O Sasso da Pigna estava entre eles.

Antiga fortaleza secreta virou museu dentro dos Alpes

Em 2012, o complexo foi aberto ao público como parte do Sasso San Gottardo.

Hoje, visitantes atravessam a mesma montanha que durante décadas permaneceu submetida ao segredo militar. Salas de artilharia, alojamentos, depósitos de munição, corredores e equipamentos históricos foram preservados.

O complexo atual possui mais de 3 km de túneis distribuídos em diferentes níveis, embora o circuito histórico original do Sasso da Pigna seja descrito pela própria Fundação como uma instalação com cerca de 2,5 km de galerias.

O visitante pode caminhar mais de dois quilômetros dentro da montanha em um percurso completo.


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Valdemar Medeiros.

Sair da versão mobile