7 min de leitura
Sydney instalou painéis 3D que imitam piscinas naturais, fendas e raízes de mangue sobre paredões de concreto para recuperar a vida marinha e, após dois anos, viu mais de 100 espécies de invertebrados e algas colonizarem as estruturas, com trechos registrando até 3 vezes mais espécies e mais de 50 tipos de peixes
Escrito por Carla Teles
Publicado em 10/08/2026 às 14:39
Atualizado em 10/08/2026 às 14:40
Ciência e Tecnologia, Construção
Seja o primeiro a reagir!
Prefira o CPG no Google
O projeto Living Seawalls adaptou paredões de Sydney com painéis 3D inspirados em piscinas naturais, fendas e raízes de mangue; após dois anos, mais de 100 espécies de invertebrados e algas colonizaram as estruturas, enquanto mais de 50 espécies de peixes passaram a usar habitats marinhos para abrigo e alimentação.
A vida marinha começou a ocupar de maneira muito mais intensa trechos de paredões artificiais de Sydney depois que superfícies lisas de concreto receberam painéis tridimensionais inspirados em elementos encontrados naturalmente no litoral. O projeto Living Seawalls reproduz piscinas rochosas, fendas, saliências e estruturas semelhantes a raízes de mangue para criar abrigo, umidade e novos pontos de fixação para algas, moluscos e outros organismos.
Os resultados aparecem em estudo de caso publicado em 2024 pelo CoastAdapt, plataforma desenvolvida pela National Climate Change Adaptation Research Facility, e também em material do governo de New South Wales sobre o projeto. Segundo o monitoramento, mais de 100 espécies de invertebrados e algas colonizaram os painéis depois de dois anos, enquanto determinadas estruturas chegaram a registrar até três vezes mais espécies do que paredes planas usadas como controle.
Paredões de concreto protegem a costa, mas simplificam o habitat
Muros costeiros fazem parte da infraestrutura utilizada para proteger áreas urbanas contra erosão e elevação do nível do mar. O problema é que suas superfícies normalmente são planas, verticais e muito menos complexas do que costões rochosos, manguezais, bancos de ostras e outras formações encontradas na natureza.
ARTIGO CONTINUA ABAIXO
Veja também
Em Sydney, essa diferença tem dimensão relevante porque mais da metade da margem do porto é delimitada por estruturas artificiais, segundo o CoastAdapt. A substituição ou fragmentação de habitats naturais reduz os espaços disponíveis para organismos que dependem de depressões, sombras, pequenas cavidades e superfícies irregulares para se fixar ou escapar de predadores.
Painéis 3D reproduzem piscinas naturais, fendas e raízes
A proposta do Living Seawalls é modificar justamente essa geometria. Em vez de demolir os paredões existentes, os pesquisadores instalam módulos tridimensionais sobre a infraestrutura, acrescentando formas semelhantes às encontradas em ambientes costeiros naturais.
Os desenhos incluem piscinas rochosas, fendas, padrões de erosão, raízes de mangue e estruturas inspiradas em bancos de ostras e algas. Cada formato procura criar condições diferentes para a vida marinha, aumentando a variedade de microambientes disponíveis em uma superfície que originalmente seria praticamente uniforme.
Tecnologia 3D permite copiar detalhes encontrados na natureza
Os módulos são desenvolvidos digitalmente por designers industriais em colaboração com pesquisadores da área de ecologia. Medidas de formações naturais servem de referência para determinar profundidade, tamanho e geometria das estruturas utilizadas nos painéis.
Depois que o desenho é concluído, a tecnologia de impressão 3D é utilizada na produção do modelo. A partir dele é criado um molde reutilizável, permitindo fabricar múltiplas peças de concreto. O sistema combina biomimética, engenharia costeira e fabricação digital para acrescentar complexidade ecológica à infraestrutura existente.
Projeto começou com instalações em Sydney em 2018
Segundo o CoastAdapt, os primeiros Living Seawalls foram instalados em Sydney em 2018, em locais como Sawmillers Reserve, McMahons Point e Milsons Point. Os painéis foram fixados diretamente sobre paredões que já estavam construídos.
Outra instalação citada pelo governo de New South Wales colocou 90 painéis em dois trechos de 12 metros em Rushcutters Bay, no Sydney Harbour. A estratégia permitiu transformar partes pequenas de uma estrutura convencional em áreas com diferentes nichos disponíveis para colonização.
Mais de 100 espécies apareceram após dois anos
O monitoramento trouxe um dos resultados mais expressivos do projeto. Depois de dois anos, mais de 100 espécies de invertebrados e algas haviam colonizado os Living Seawalls, segundo o estudo de caso do CoastAdapt.
Entre os organismos encontrados estão ostras, mexilhões, cracas, lapas e diferentes algas vermelhas e verdes. A presença desses organismos faz com que a estrutura passe a funcionar não apenas como suporte físico, mas como parte de uma cadeia ecológica em que diferentes espécies encontram alimento e abrigo.
Painéis com piscinas chegaram a triplicar diversidade
Os resultados não foram iguais para todos os formatos. Nos painéis que imitam pequenas piscinas naturais, os pesquisadores observaram até três vezes mais espécies do que nos painéis planos utilizados como controle.
Uma das razões é a capacidade dessas cavidades de conservar água quando a maré baixa. Com mais umidade e proteção contra temperaturas elevadas, organismos que teriam dificuldade para permanecer expostos sobre uma parede vertical lisa encontram condições mais próximas das existentes em um costão natural.
Mais de 50 espécies de peixes passaram a usar os paredões
A transformação também alcançou os peixes. O monitoramento identificou mais de 50 espécies utilizando os paredões vivos como habitat ou fonte de alimento, número descrito pelo CoastAdapt como semelhante ao registrado em recifes rochosos utilizados como referência.
Os peixes podem aproveitar tanto as cavidades criadas pelos painéis quanto os organismos que colonizam as superfícies. Quanto maior a diversidade de algas, moluscos e pequenos invertebrados, maior também pode ser a oferta de recursos para espécies que circulam ao redor dessas estruturas.
Ostras e mexilhões podem contribuir para qualidade da água
O governo de New South Wales destaca que alguns organismos atraídos pelos painéis desempenham funções ecológicas próprias. Ostras e mexilhões, por exemplo, são organismos filtradores, enquanto algas podem fornecer alimento e retirar carbono do ambiente durante seu crescimento.
Isso significa que recuperar vida marinha sobre uma infraestrutura existente pode produzir efeitos que vão além do simples aumento do número de espécies. O objetivo do projeto é criar estruturas costeiras que continuem desempenhando sua função de engenharia, mas com maior valor ecológico.
Painéis são projetados para durar pelo menos 20 anos
Segundo o CoastAdapt, os módulos são fabricados com uma mistura cimentícia denominada eco-blend e foram projetados para durar pelo menos 20 anos. Há dez desenhos principais de painéis, cada um inspirado em características diferentes dos ambientes naturais.
O formato também pode ser adaptado conforme o local. Tamanho, geometria e disposição dos módulos podem variar para atender diferentes condições de maré, exposição às ondas e espécies existentes, permitindo que o sistema seja aplicado em vários tipos de infraestrutura costeira.
Barangaroo recebeu 384 painéis em diferentes profundidades
O projeto também foi aplicado em escala maior em Barangaroo, Sydney. Nesse local, 384 painéis foram fixados em estruturas de aço inoxidável e instalados em três profundidades diferentes, associados à infraestrutura de um passeio sobre a água.
Essa disposição permite estudar como profundidade e condições ambientais afetam a colonização. Em outros locais, os módulos podem ser fixados diretamente em muros, pilares, pontões e marinas, aproveitando estruturas que já fazem parte da paisagem urbana costeira.
Tecnologia já deixou Sydney e chegou a outros países
Depois das primeiras experiências em Sydney, o conceito começou a ser aplicado em outros pontos da Austrália, incluindo Port Adelaide, Fremantle, Townsville e Sunshine Coast. Instalações também chegaram a lugares fora do país.
O CoastAdapt cita projetos em Gibraltar, Singapura e País de Gales, enquanto o Living Seawalls informa que suas instalações já estão presentes em cinco continentes. A expansão mostra como o modelo passou de um experimento local para uma solução testada em diferentes ambientes costeiros.
Nem todo paredão pode receber a solução
Os próprios responsáveis deixam claro que os painéis não funcionam em qualquer condição. Áreas severamente poluídas, por exemplo, podem não apresentar organismos suficientes para colonizar as estruturas.
Também entram na avaliação fatores como salinidade, temperatura, contaminantes, energia das ondas e circulação da água. Para beneficiar a vida marinha, os módulos precisam permanecer submersos durante pelo menos parte do ciclo de maré e estar em locais onde a colonização biológica seja possível.
Infraestrutura costeira passa a exercer uma segunda função
A principal mudança proposta pelo Living Seawalls está na maneira de pensar obras costeiras. Um paredão continua protegendo a margem, mas sua superfície deixa de ser considerada apenas uma barreira de concreto e passa a ser projetada também como potencial habitat.
Depois de dois anos, os dados mostraram mais de 100 espécies de invertebrados e algas, até três vezes mais diversidade em determinados painéis e mais de 50 espécies de peixes utilizando as estruturas. Para você, cidades costeiras deveriam incorporar soluções para recuperar a vida marinha em novas obras de engenharia ou priorizar primeiro a recuperação de habitats naturais? Conte sua opinião nos comentários.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Carla Teles.

