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Todo mundo via só mofo, corrosão e 65 anos de abandono, mas uma jovem de 26 anos enxergou uma oportunidade e comprou o que ela mesma chama de ‘a casa de praia mais feia da Sicília’ para transformá-la no lar dos seus sonhos
Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges
Publicado em 07/08/2026 às 16:24
Atualizado em 07/08/2026 às 16:25
Construção
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Gabriele Andreozzi nasceu na Sicília, saiu da ilha para estudar e trabalhar e voltou anos depois decidida a comprar uma casa de praia. Levou mais de um ano procurando até encontrar um imóvel parado havia 65 anos, com acesso direto à areia e uma reforma inteira pela frente.
Aos 26 anos, Gabriele Andreozzi comprou uma casa de praia que estava fechada havia 65 anos na Sicília, no sul da Itália, conforme entrevista concedida por ela à revista PEOPLE. O imóvel ficava de frente para uma faixa de areia, tinha mofo espalhado por dentro, acabamentos apodrecendo e marcas de corrosão deixadas por décadas de maresia. A maioria das pessoas que visitou aquela propriedade desistiu logo na porta.
Ela não desistiu. Andreozzi comprou o imóvel, batizou o projeto de “a casa de praia mais feia da Sicília” e começou a publicar cada etapa da obra no TikTok e no Instagram. O plano é transformar a construção abandonada em uma casa moderna, funcional e pessoal, sem apagar o clima siciliano despojado que a conquistou. Somando reforma, obras externas e móveis sob medida, o projeto deve custar pouco mais de US$ 700 mil.
O que ela viu onde os outros viram ruína
imagem: Gabriele Andreozzi
O anúncio do imóvel enganava. Nas fotos, a construção parecia até charmosa, com aquele ar de casa antiga esperando alguém aparecer. A visita presencial mostrou outra coisa. Havia mofo tomando conta de partes da estrutura, revestimentos se soltando e sinais de corrosão em praticamente tudo que era metal, resultado de anos de ar salgado batendo sem trégua em uma casa fechada.
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Foi exatamente nesse ponto que a leitura dela se separou da leitura de todo mundo. Onde os outros compradores enxergaram um prejuízo garantido, Andreozzi enxergou margem de manobra. Precisar de reforma completa, na avaliação dela, era parte da oportunidade e não o motivo para recuar. Uma casa intacta viria com as escolhas de outra pessoa embutidas: a planta de outro dono, o gosto de outra época, o acabamento de alguém que morreu antes dela nascer. Uma casa vazia há mais de seis décadas não vinha com nada disso. Vinha com o terreno, a posição e a liberdade de recomeçar do zero.
A volta à ilha que reacendeu o plano
imagem: Gabriele Andreozzi
A decisão não nasceu de um impulso em frente a um anúncio de imóvel. Andreozzi nasceu e cresceu na Sicília, mas seguiu o caminho que ela mesma descreve como comum entre os jovens da ilha: foi embora para estudar e trabalhar, porque as oportunidades por lá eram limitadas. Essa saída funciona quase como um rito coletivo, algo que se repete com muita gente da mesma geração.
O reencontro veio numa viagem em família, já adulta. Voltar à ilha como visitante, e não como moradora, produziu o efeito clássico de quem revisita a própria origem depois de anos fora: ela se apaixonou de novo pelo lugar onde nasceu. A partir dali, comprar uma casa de verão na Sicília deixou de ser uma vontade vaga e virou objetivo definido. E não em qualquer endereço. Como o mar sempre foi a parte central do que a ilha significa para ela, a busca já começou com uma condição inegociável: teria que ser uma casa de praia de verdade, com o mar ali na frente.
Um ano de busca por um endereço na areia
Essa exigência encareceu e alongou o processo. A procura durou mais de um ano até que ela encontrasse a construção abandonada com acesso direto a uma praia de areia. Quem já garimpou imóvel com critério fixo sabe o que acontece nesse intervalo: aparecem casas melhores em bairros piores, terrenos ótimos longe demais da água, imóveis prontos que atendem tudo menos o item que importa.
Quando o anúncio certo finalmente apareceu, o estado da propriedade virou detalhe secundário diante de um argumento considerado decisivo. Andreozzi sabia que aquela localização não apareceria duas vezes. É um raciocínio conhecido no mercado imobiliário e que ela aplicou na prática: parede quebrada se levanta, telhado se refaz, instalação elétrica se troca inteira, mas endereço não se muda. Uma casa de praia com pé na areia carrega um atributo que nenhuma reforma consegue criar depois. Comprar a pior casa da melhor rua era, no caso dela, a única forma de chegar àquela faixa de mar dentro do que estava disposta a gastar.
O que sobra depois de 65 anos de porta fechada
Sessenta e cinco anos é tempo suficiente para uma construção deixar de ser casa e virar apenas estrutura. Nesse intervalo, uma geração inteira nasceu, cresceu e envelheceu enquanto o imóvel permanecia intocado, sem ninguém para trocar uma telha, arejar um cômodo ou tapar uma infiltração. O mofo encontrado dentro da casa é sintoma direto disso: umidade entrando e sem chance de sair, ano após ano, em ambiente fechado.
A corrosão espalhada pela propriedade é a segunda camada do problema, e tem endereço certo. Casas de praia convivem com sal em suspensão o tempo todo, e o sal ataca metal com paciência. Em 65 anos sem manutenção, isso significa esquadrias, ferragens, estruturas e tudo o mais que dependa de metal chegando ao comprador em estado terminal. Não era um imóvel para pintar e mobiliar, era um imóvel para reconstruir por dentro. Por isso a maioria dos interessados abandonou a ideia antes mesmo de fazer contas.
A conta que passa de US$ 700 mil
Reforma completa em casa arruinada custa caro, e o número não é escondido. Somando a obra em si, as intervenções na área externa e os móveis feitos sob medida, o total projetado passa um pouco de US$ 700 mil. É um valor que ajuda a dimensionar a escala do projeto e desmonta qualquer leitura romântica de “casa velha comprada barato”.
O detalhe importante está na composição desse orçamento. Móveis sob medida e obras externas entram na mesma linha da reforma estrutural, o que indica um projeto pensado do alicerce ao acabamento, e não uma sequência de remendos emergenciais. A ambição declarada é uma casa moderna, funcional e com a cara dela, mantendo o caráter siciliano descontraído que a atraiu desde a primeira visita. Equilibrar essas duas coisas, atualização completa de um lado e preservação de identidade do outro, costuma ser justamente a parte que consome tempo, dinheiro e paciência em qualquer restauro desse porte.
O inimigo que não aparece nas fotos
A maior surpresa do processo não foi uma parede caindo nem uma conta inesperada. Foi o mar. A mesma vista que justificou a compra é também o principal agente de deterioração do imóvel, e isso apareceu na prática assim que a obra começou.
“O mar é lindo, mas a maresia danifica quase tudo com o tempo, então os materiais e os detalhes precisam ser escolhidos com muito mais cuidado”, explicou Andreozzi. A consequência prática é que cada escolha técnica passa a ter peso muito maior do que teria em uma casa longe da costa. Material, revestimento, ferragem, acabamento: tudo precisa ser selecionado pensando não em como vai ficar na entrega, e sim em como vai estar dali a dez ou quinze anos de sal batendo todos os dias. Numa casa de praia, a decisão de projeto não é só estética, é uma aposta na durabilidade. Ignorar isso significaria repetir, em versão acelerada, exatamente o processo que arruinou o imóvel nas seis décadas anteriores.
A espera pelas licenças que mudou o ritmo da obra
O cronograma também não colaborou. O processo de aprovação se arrastou, e meses se passaram até que as licenças necessárias saíssem. Para quem já comprou um imóvel para reformar, esse é o tipo de atraso que gera prejuízo e desgaste, com obra parada e planejamento no limbo.
A leitura que Andreozzi faz do episódio é menos amarga. A demora mudou o ritmo do projeto inteiro e, em vez de empurrá-la para decisões apressadas, deu tempo de refinar os planos com calma. A burocracia que travou o canteiro acabou funcionando como uma pausa forçada de planejamento. Escolhas que provavelmente seriam feitas na correria ganharam meses de amadurecimento, algo especialmente relevante em uma casa onde cada material precisa resistir à maresia.
650 mil seguidores em três meses
Foi nessa espera que nasceu a parte mais inesperada da história. Com a construção desacelerada, sobrou tempo para documentar cada etapa nas redes sociais. Andreozzi passou a publicar o antes, o durante e o processo de decisão da reforma, apresentando o imóvel com o apelido que ela mesma criou: a casa de praia mais feia da Sicília.
O resultado foi desproporcional ao esperado para um diário de obra. Em apenas três meses, suas contas no TikTok e no Instagram somaram mais de 650 mil seguidores e ultrapassaram 50 milhões de visualizações. O público virou combustível justamente nos momentos mais frustrantes da reforma, com o incentivo dos espectadores servindo de motivação quando a obra emperrava. E há uma recompensa apontada como a maior de todas: ver outras pessoas finalmente reconhecerem o que ela viu primeiro. “Muitos inicialmente viam apenas uma casa feia e problemática”, disse Andreozzi, “mas aos poucos estão começando a enxergar o potencial que eu vi desde o começo.”
O que fica dessa história
A trajetória de Andreozzi mistura dois cálculos que raramente aparecem juntos. Um é frio: comprar o pior imóvel de uma localização insubstituível, aceitar o custo da reconstrução completa e escolher materiais pensando em décadas de sal. O outro é afetivo: voltar à ilha onde nasceu, da qual saiu por falta de oportunidade, e fincar ali uma casa de praia própria, de frente para o mar que define o lugar na memória dela.
A obra ainda não acabou e a conta ainda não fechou. Mas o retrato até aqui é de uma aposta que já mudou de status: o que era um imóvel abandonado por 65 anos virou um projeto acompanhado por centenas de milhares de pessoas, com um orçamento que passa de US$ 700 mil e uma promessa de transformação que segue sendo checada a cada publicação.
E você, encararia uma reforma dessas? Compraria uma casa de praia arruinada, mas com o pé na areia, ou preferiria um imóvel pronto e sem surpresas em uma localização menos privilegiada? Conta aí nos comentários o que você faria com US$ 700 mil e uma ruína de frente para o mar.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Maria Heloisa Barbosa Borges.

