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Trabalhadores vulneráveis enfrentam jornadas de até 12 horas e recebem menos de R$ 26 por hora para fornecer alimentos baratos à Austrália

Trabalhadores vulneráveis enfrentam jornadas de até 12 horas e recebem menos de R$ 26 por hora para fornecer alimentos baratos à Austrália

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Trabalhadores vulneráveis enfrentam jornadas de até 12 horas e recebem menos de R$ 26 por hora para fornecer alimentos baratos à Austrália

Escrito por Fabio Lucas Carvalho

Publicado em 24/08/2026 às 08:09

Atualizado em 24/08/2026 às 08:16

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Investigação revela trabalhadores migrantes submetidos a jornadas de até 12 horas, ganhos inferiores a A$ 7 (R$ 25,76) por hora, descontos por transporte e moradia e alojamentos superlotados.

Investigação expôs alojamentos superlotados e intermediários controlando emprego, transporte e moradia, enquanto fiscalizações encontraram irregularidades em até 83% dos negócios inspecionados em algumas regiões.

Trabalhadores migrantes empregados na horticultura australiana relataram jornadas de até 12 horas, remunerações inferiores a A$ 7 (R$ 25,76) por hora e alojamentos superlotados, dentro de um sistema no qual intermediários controlavam trabalho, pagamento, transporte e, em alguns casos, moradia.

Os depoimentos foram reunidos em uma investigação de oito meses do programa Four Corners, da emissora pública australiana ABC. A equipe entrevistou trabalhadores, empregadores, representantes sindicais, reguladores e especialistas, além de analisar documentos e registros salariais.

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As situações denunciadas não representam todas as propriedades rurais ou empresas da Austrália. Dados oficiais, contudo, mostram índices elevados de descumprimento da legislação entre negócios selecionados para fiscalização em importantes regiões produtoras de frutas e hortaliças.

Trabalhadores migrantes relatam rotina de até 12 horas

Um dos principais personagens é Gershom Isaac, trabalhador de Papua-Nova Guiné. Ele contou que passava até 12 horas por dia subindo em escadas para colher frutas ou trabalhando curvado na retirada de cebolas e abóboras.

Segundo Gershom, seus ganhos ficavam, em determinados períodos, abaixo de A$ 7 (R$ 25,76) por hora. O trabalhador também afirmou que continuava colhendo laranjas mesmo quando a temperatura chegava a 40 °C e que havia risco de quedas durante o serviço.

Depois do expediente, ele retornava a uma acomodação descrita como superlotada e insalubre. Gershom declarou que o contratador de mão de obra controlava praticamente todos os aspectos de sua vida profissional e decidia onde ele trabalharia.

A investigação original da ABC ressalta que parte dos entrevistados não recebia contracheques. Por essa razão, a emissora não conseguiu confirmar de maneira independente todas as remunerações individuais relatadas.

Outro trabalhador, identificado como Timothy, afirmou cumprir aproximadamente 60 horas semanais na colheita de laranjas e receber cerca de A$ 700 (R$ 2.576) por semana. O pagamento corresponderia a menos de A$ 12 (R$ 44,16) por hora.

Timothy também disse pagar A$ 280 (R$ 1.030,40) por semana por um quarto pequeno, sem cozinha nem banheiro. Para obter renda adicional, ele recolhia garrafas.

Ganhos variavam conforme a quantidade colhida

Viona Obress contou que precisava de três a quatro horas para encher um recipiente com laranjas. Conforme seu depoimento, o rendimento correspondente ficava entre A$ 8,75 (R$ 32,20) e A$ 11,70 (R$ 43,06) por hora.

Nos dias de chuva, o ritmo da colheita diminuía e o pagamento poderia ser ainda menor. Viona afirmou que também não recebia quando adoecia.

Na Austrália, empregados da horticultura podem ser remunerados de acordo com a quantidade colhida. Entretanto, as normas trabalhistas da categoria estabelecem uma garantia mínima de pagamento para trabalhadores abrangidos pelo acordo oficial do setor.

Jin Lee, que trabalhou em plantações de mirtilo perto de Coffs Harbour, afirmou que, em determinados dias, cumpria expediente das 7h30 às 17h e recebia apenas A$ 20 (R$ 73,60).

De acordo com Jin, a empresa contratadora descontava A$ 150 (R$ 552) por semana pela acomodação e A$ 10 (R$ 36,80) por dia pelo transporte até a propriedade rural.

Ele disse ter vivido em uma casa ocupada por 18 pessoas, com quatro trabalhadores em cada quarto. O alojamento teria camas improvisadas, baratas, portas e janelas quebradas, além de sistema de climatização sem funcionar.

Fiscalizações encontraram índices elevados de irregularidades

Os relatos individuais aparecem em um setor no qual fiscalizações oficiais identificaram níveis elevados de descumprimento das normas trabalhistas.

O Fair Work Ombudsman, órgão responsável pelas relações de trabalho na Austrália, investigou 512 empresas e visitou 360 fazendas e pomares durante uma estratégia executada entre 2021 e 2024.

Entre os empregadores selecionados para inspeção, o índice de irregularidades chegou a 83% nas regiões de Mornington Peninsula e Yarra Valley. A taxa alcançou 72% em Riverina, 70% em Sunraysia, 63% em Shepparton e 61% em Coffs Harbour e Grafton.

Os percentuais não representam todas as empresas dessas regiões nem toda a horticultura australiana. Eles correspondem somente aos negócios escolhidos para inspeção em áreas consideradas prioritárias pelo regulador.

Durante a campanha nacional, o órgão aplicou A$ 760.405 (aproximadamente R$ 2,80 milhões) em multas relacionadas principalmente ao descumprimento de obrigações sobre registros e contracheques.

Também foram recuperados A$ 384.168 (cerca de R$ 1,41 milhão) em pagamentos atrasados para 464 trabalhadores. Dos 166 autos de infração emitidos, 91% foram direcionados a fornecedores de mão de obra.

Governo acompanha suspeitas de exploração

Em 4 de agosto de 2026, o governo de Nova Gales do Sul informou que acompanhava um possível sistema de exploração ilegal operado por um pequeno número de grupos informais de contratação em propriedades produtoras de frutas vermelhas no litoral norte do estado.

O comunicado informou que o comissário antiescravidão estadual procurou autoridades policiais diante da suspeita de práticas que poderiam configurar escravidão moderna na região de Coffs Harbour–Nambucca Valley.

Entre as possíveis violações mencionadas estavam subpagamento extremo, servidão por dívida, alojamentos precários, retenção de passaportes, jornadas excessivas sem intervalos e ameaças de deportação.

O governo ressaltou que as acusações permaneciam sob acompanhamento das autoridades. Também defendeu um sistema nacional de licenciamento para fornecedores de mão de obra e afirmou que inspeções sem aviso prévio continuariam sendo realizadas nas propriedades da região.


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Fabio Lucas Carvalho.

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