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Trabalhou a vida inteira como doméstica na casa dos outros desde menina, nunca pôde frequentar a escola direito e abriu mão de ter filhos com medo de que faltasse comida, voltou a estudar pelo EJA e aos 83 anos subiu ao palco do teatro para receber o diploma de técnica em enfermagem
Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges
Publicado em 08/08/2026 às 12:21
Atualizado em 08/08/2026 às 12:22
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Osmarina Duarte de Sousa cozinhou e limpou casa de outras famílias desde a infância, adiou o sonho de estudar por mais de sessenta anos e voltou à sala de aula depois que uma vizinha a chamou. Na véspera de completar 84, virou técnica em enfermagem.
Aos 83 anos, na véspera de completar 84, Osmarina Duarte de Sousa recebeu o diploma de técnica em enfermagem em cerimônia realizada no Theatro 4 de Setembro, em Teresina, no Piauí, ao lado de outros 21 colegas de turma, segundo publicação do Conselho Regional de Enfermagem do Piauí, o Coren-PI, com base em material da Secretaria de Estado da Educação. A formatura aconteceu na quinta-feira, 9 de fevereiro de 2023.
Era o primeiro curso técnico da vida dela, e veio junto com a conclusão do ensino médio. Antes disso, houve décadas de trabalho doméstico na casa de outras famílias, iniciado ainda na infância, e um sonho de estudar que ela nunca abandonou. Ao receber o diploma, resumiu o momento dizendo que era um sonho realizado e que estava muito feliz.
A vida de doméstica que começou na infância
A trajetória que antecede esse diploma é feita de trabalho braçal e pouca escolha. Osmarina descreve a própria vida como muito humilde e conta que precisou trabalhar desde cedo como empregada doméstica para outras famílias. Não foi uma fase, foi a ocupação que atravessou décadas.
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Há divergência entre os veículos sobre a origem dela. O portal JornalNota informa que Osmarina nasceu no interior do Maranhão e se mudou para Teresina aos 26 anos, para cuidar da saúde, indo morar com uma família que a convidou para cozinhar. Já o SindSaúde-DF registra que as condições financeiras da infância no Piauí a levaram a trabalhar a vida inteira como doméstica. O que as duas versões confirmam é o mesmo ponto de partida: pobreza na infância e trabalho antes da idade de estudar.
Mesmo com a rotina pesada, ela sempre buscou aprender no que era possível. Fez cursos profissionalizantes de curta duração ao longo da vida, incluindo culinária e artesanato. Eram formações rápidas, encaixadas nas brechas do trabalho, e nenhuma delas resolvia a lacuna maior, que era a escolaridade formal interrompida.
A decisão de não ter filhos
Um dos pontos mais duros do relato dela não tem nada a ver com escola. Osmarina conta que não pôde ter filhos porque não teria como cuidar deles, decisão tomada diante da própria condição financeira. Em outros registros da história, a escolha aparece descrita como receio de que faltasse alimento às crianças.
Não foi opção por estilo de vida nem por projeto pessoal. Foi uma renúncia calculada por quem sabia exatamente quanto ganhava e quanto custava criar alguém. É o tipo de decisão que raramente aparece nas estatísticas sobre pobreza, mas que define a vida inteira de quem a toma.
Ela própria, no entanto, não descreve a trajetória como solitária. Diz que fez muitos amigos por onde morou e que hoje considera essas pessoas como sua família. A rede que substituiu os filhos que ela decidiu não ter foi construída ao longo de décadas, casa por casa, cidade por cidade.
A vizinha que a chamou de volta para a escola
O retorno aos estudos teve um gatilho simples e concreto. Foi uma vizinha que a convidou para ir à escola, e ela aceitou. A partir daí, seguiu estudando pela Educação de Jovens e Adultos, a EJA, modalidade voltada justamente para quem não conseguiu concluir a formação na idade regular.
Esse detalhe muda a leitura de toda a história. Não houve programa institucional que a identificou, nem campanha de busca ativa. Uma conversa de vizinhança devolveu à escola uma mulher que estava fora dela havia mais de sessenta anos. A EJA existe exatamente para acolher esse perfil, e no caso dela funcionou como ponte entre a alfabetização interrompida e o curso técnico.
Sobre a experiência na escola profissional, ela é direta: descreve o período como maravilhoso e afirma que aproveitou todas as oportunidades. O curso técnico em enfermagem veio integrado à conclusão do ensino médio, o que significa que ela fechou duas etapas de uma vez.
As noites em que quis desistir
Estudar aos 80 e poucos anos, à noite, depois de uma vida de trabalho pesado, não foi simples. Osmarina admite que houve noites em que ficava muito cansada, pensando apenas em chegar em casa, e que chegou a querer desistir do curso.
O que a segurou foi o pedido de um professor. Ele insistia para que ela ficasse, com um argumento específico: a presença dela servia de incentivo para os alunos mais jovens da turma. A estudante mais velha da sala virou motivo para os colegas de vinte anos não largarem o curso. Ela resume o desfecho em duas palavras: hoje venceu.
Houve também apoio prático em uma área onde ela tinha zero bagagem. Os colegas de sala a ajudaram a usar o computador para estudar, e ela faz questão de agradecer a eles, aos professores, à coordenadora e à diretora da escola, que segundo o relato dela deram apoio e incentivo para que concluísse o curso apesar das dificuldades.
O diploma no Theatro 4 de Setembro
A cerimônia aconteceu em um dos endereços mais tradicionais de Teresina. O Theatro 4 de Setembro recebeu a formatura, e Osmarina subiu ao palco junto com os outros 21 colegas do curso técnico em enfermagem.
O contraste entre o cenário e a trajetória dela é o que dá peso à cena. Uma mulher que passou a vida trabalhando na casa dos outros recebeu o diploma no palco de um teatro histórico, diante de uma plateia. Não foi entrega discreta de certificado em secretaria, foi cerimônia formal com o ritual completo.
A turma dela era pequena, com 22 formandos ao todo. Mas a escola comemorava um número bem maior naquele período: cerca de 500 estudantes se formando em diversos cursos técnico-profissionalizantes, marca que a direção destacou como superação depois do período de pandemia.
O que ela pretende fazer com o diploma
Osmarina não trata a formatura como ponto final. Ela declarou que pretende usar o conhecimento adquirido para ajudar pessoas doentes e necessitadas, aplicando na prática o que aprendeu no curso técnico.
E já tem o próximo passo definido. O plano seguinte é fazer um curso de computação, e a motivação partiu da própria experiência em sala de aula. Durante o técnico em enfermagem, ela percebeu o quanto a informática é necessária e o quanto a atualização importa, depois de depender da ajuda dos colegas para usar o computador nos estudos. Ela quer, nas palavras dela, abrir ainda mais a cabeça para as tecnologias.
Essa continuidade é o traço mais consistente da história. Aos 26 anos ela fez curso de culinária. Depois vieram artesanato e outras formações curtas. Aos 83, o técnico em enfermagem e o ensino médio. O próximo é informática.
A escola que entregou o diploma
O Centro Estadual de Educação Profissional José Pacífico de Moura Neto fica na zona sudeste de Teresina e é uma unidade da rede estadual. A escola atende cerca de 1.347 estudantes distribuídos nos turnos da manhã, tarde e noite.
A oferta é ampla e combina modalidades diferentes. Há curso técnico integrado ao ensino médio, Educação de Jovens e Adultos e Proeja, o programa de educação profissional integrada à EJA. Entre os cursos técnicos disponíveis estão informática, enfermagem, edificações, sistemas de energias renováveis, manutenção automotiva, metrologia, análises clínicas, produção de moda, farmácia e segurança do trabalho.
A diretora da unidade, Maria das Dores Andrade de Araújo, conhecida como professora Dorinha, avaliou que estudantes e profissionais de educação se superaram mesmo durante o período pandêmico. Ela destacou que o aluno da escola sai direcionado para o mundo do trabalho. Foi essa estrutura de ensino noturno e gratuito que permitiu a uma mulher de 83 anos concluir o ensino médio e um curso técnico ao mesmo tempo.
O que essa história diz sobre quem ficou pelo caminho
O caso de Osmarina circula como exemplo de superação individual, e é. Mas ele também expõe uma conta coletiva. Ela levou mais de sessenta anos para conseguir voltar à escola, não por falta de vontade, e sim porque precisou trabalhar desde criança em casa de família.
O diploma que ela recebeu no Theatro 4 de Setembro corrige uma trajetória, não o sistema que a produziu. Existem muitas Osmarinas que nunca receberam o convite de uma vizinha para voltar à sala de aula, e que continuam fora dela. O que a EJA fez no caso dela foi oferecer a porta de entrada que faltava, décadas depois do momento certo.
E você, acha que existe idade limite para voltar a estudar, ou o problema real é falta de oportunidade e não falta de tempo? Conta nos comentários se você conhece alguém que voltou à escola depois de adulto e como foi.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Maria Heloisa Barbosa Borges.

