8 min de leitura
Espécie chegou a ter apenas 100 sobreviventes num único refúgio e hoje soma 50 mil animais espalhados por seis países, mas cientistas alertam que a recuperação escondeu um problema grave
Escrito por Bruno Teles
Publicado em 28/07/2026 às 16:45
Atualizado em 28/07/2026 às 17:05
Ciência e Tecnologia
Canal
Seja o primeiro a reagir!
Prefira o CPG no Google
Em uma das colônias criadas, 25 exemplares foram transferidos e apenas seis conseguiram se reproduzir. É esse tipo de gargalo, repetido várias vezes, que fez a população crescer em número sem recuperar a variedade genética perdida.
O íbex-dos-Alpes, cientificamente chamado Capra ibex, chegou ao século 19 reduzido a aproximadamente 100 exemplares, todos concentrados em uma única população na região do Gran Paradiso, no noroeste da Itália. Em menos de um século, sucessivas reintroduções devolveram esses animais a boa parte do arco alpino, e a população estimada chegou a cerca de 50 mil indivíduos.
O número, porém, conta apenas metade da história. Um estudo publicado na revista científica Nature Communications, assinado por Christine Grossen e colaboradores, analisou 60 genomas completos de seis espécies de íbex e da cabra doméstica e concluiu que o gargalo populacional deixou marcas genéticas que a recuperação numérica não apagou. A pesquisa encontrou algo aparentemente contraditório: mutações muito prejudiciais foram eliminadas, enquanto mutações levemente danosas se acumularam.
Que animal é esse
Antes dos números, vale saber de quem se trata. O íbex-dos-Alpes é um caprino selvagem adaptado a paredes rochosas e campos de grande altitude, capaz de escalar superfícies quase verticais.
ARTIGO CONTINUA ABAIXO
Veja também
Os machos adultos pesam em média cerca de 90 quilos e carregam chifres curvos permanentes, que podem se aproximar de um metro de comprimento. Diferentemente de cervos, esses chifres não caem e crescem ao longo da vida do animal.
A distribuição original cobria grande parte do arco alpino. Os animais ocupavam as montanhas que hoje pertencem a vários países europeus, em altitudes onde poucos mamíferos de grande porte conseguem viver.
Como as armas de fogo quase acabaram com eles
A perseguição à espécie é antiga. Registros históricos indicam caça intensa presumivelmente desde o século 15, mas o quadro piorou drasticamente com a disseminação das armas de fogo.
Havia três motivações combinadas. A carne alimentava, os chifres viravam troféu e diversas partes do corpo eram procuradas por supostas propriedades medicinais, crença que aumentou muito a pressão sobre a espécie.
O efeito foi a eliminação sistemática de grupos locais, um a um. A caça prolongada apagou população após população até restar um único núcleo conhecido, algo em torno de 100 exemplares.
Para dimensionar o quanto isso é extremo, vale a comparação feita pelos próprios pesquisadores. O íbex-ibérico, espécie parente, passou por um gargalo de aproximadamente mil indivíduos, dez vezes mais. O caso alpino está entre os mais dramáticos já registrados para qualquer espécie posteriormente recuperada.
O rei que salvou a espécie por interesse próprio
A parte da história que costuma ser contada como conservacionismo tem, na origem, motivação bem menos nobre.
O primeiro passo formal veio em 1821, quando o Piemonte proibiu a caça do animal. Em 1856, Vítor Emanuel II transformou as montanhas do Gran Paradiso em reserva real e criou uma guarda especializada para fiscalizar o território.
A criação da reserva estava diretamente ligada à atividade de caça da realeza, e não à preservação ambiental como a entendemos hoje. O rei queria garantir a existência de presas para si.
O resultado prático, porém, foi outro. A proteção real impediu o desaparecimento do último grupo conhecido da espécie, e a estrutura de vigilância criada naquele momento manteve o núcleo vivo por décadas.
Do parque do rei ao primeiro parque nacional da Itália
A transição de propriedade real para bem público aconteceu em 1922, quando a antiga reserva se tornou o primeiro parque nacional da Itália.
O território preservou três elementos que se mostraram decisivos: os próprios animais, as rotas de vigilância já estabelecidas e áreas de reprodução protegidas. Nada disso teria sobrevivido sem a continuidade institucional.
Segundo o Parque Nacional Gran Paradiso, a presença da espécie permaneceu contínua em seus vales ao longo de todo esse período. Não houve interrupção nem necessidade de reintroduzir animais no local de origem.
É por isso que aquele ponto do mapa se tornou a fonte de tudo o que veio depois. Indivíduos retirados dali formaram os primeiros grupos novos em regiões onde o animal havia sumido completamente.
Como 100 viraram 50 mil
A multiplicação não aconteceu por acaso, e o método usado é justamente o que explica o problema genético descoberto depois.
A estratégia foi executada em etapas. As primeiras reintroduções partiram de criação em cativeiro, com poucos fundadores levados a novos locais. Depois que essas colônias cresceram, os descendentes delas passaram a abastecer novas transferências, em vez de novos animais serem retirados da população original.
Esse formato ampliou rapidamente a distribuição geográfica pela Itália, Suíça, França, Áustria, Alemanha e outros territórios alpinos. Em menos de um século, a população estimada alcançou cerca de 50 mil exemplares.
Vale um registro de precisão sobre esse número. Ele corresponde a uma estimativa de censo referente a 2013, e não a uma contagem atualizada. Também é importante lembrar que os grupos permanecem separados uns dos outros por montanhas, vales e ocupação humana, o que significa que 50 mil animais não formam uma população única, e sim dezenas de populações isoladas.
Vinte e cinco levados, seis reproduziram
Se existe um dado que resume o problema inteiro, é este, e ele aparece no estudo genético.
A população dos Alpes Marítimos foi estabelecida por meio da transferência de 25 indivíduos vindos do Gran Paradiso. Desses 25, apenas seis conseguiram se reproduzir com sucesso.
Isso significa que toda uma população regional descende, na prática, de meia dúzia de animais. O efeito genético de um funil desses é severo e permanente, porque a variedade que não foi transportada simplesmente não existe mais naquele grupo.
Esse caso é o mais extremo documentado, mas não é isolado. As três primeiras populações reintroduzidas na Suíça serviram de fonte para praticamente todas as reintroduções seguintes, o que empilhou gargalo sobre gargalo. Algumas linhagens atravessaram dois, três ou quatro estrangulamentos sucessivos durante a expansão.
O que o genoma revelou
A pesquisa que destrinchou esse quadro comparou material genético de várias espécies do gênero para separar o efeito do gargalo histórico do efeito do estado de conservação atual.
A primeira conclusão contraria a intuição. Foram os gargalos históricos, e não o status de conservação de hoje, que determinaram os níveis de variação genética encontrados em cada espécie. Ou seja, uma espécie pode estar fora da lista de ameaçadas e ainda assim carregar um genoma empobrecido.
No caso alpino, os resultados são consistentes. As populações atuais apresentam heterozigosidade extremamente baixa, alto grau de parentesco interno e sinais de depressão por endogamia, que é a perda de vigor causada pelo cruzamento entre indivíduos aparentados.
Outro achado importante diz respeito à origem. A população do Gran Paradiso, que nunca foi reintroduzida, manteve nível de diversidade genética comparável ao do íbex-ibérico. Todas as populações reintroduzidas, individualmente e somadas, ficaram abaixo disso.
Purga e acúmulo: o paradoxo do gargalo
Aqui está a parte mais interessante e menos divulgada do estudo, porque ela não é boa nem má notícia, é as duas coisas ao mesmo tempo.
De um lado, houve o que os geneticistas chamam de purga. Mutações altamente prejudiciais foram substancialmente eliminadas da população. A explicação é dura: em um grupo pequeno, indivíduos que carregam mutações graves em dose dupla morrem cedo ou não se reproduzem, e a mutação some junto com eles.
De outro lado, houve acúmulo. Mutações levemente danosas, que não matam nem impedem a reprodução, se espalharam pela deriva genética, fenômeno em que o acaso, e não a seleção natural, determina quais variantes sobrevivem em populações pequenas.
O resultado é uma paisagem genética redesenhada. Os defeitos mais graves foram varridos, mas o conjunto ficou repleto de pequenos problemas acumulados, e a capacidade de resposta a novos desafios ficou reduzida.
O que isso significa na prática
A tradução desses achados para o manejo dos animais é bastante concreta, e o próprio material de origem lista os pontos.
O acompanhamento precisa ir além da contagem. Isso inclui manter registros genéticos das populações isoladas, evitar novas fundações de colônias com poucos animais aparentados, acompanhar a incidência de doenças e a sobrevivência dos filhotes, e preservar as conexões possíveis entre habitats montanhosos.
Esse último item é o mais difícil. Manter corredores entre populações separadas por vales ocupados e infraestrutura humana permitiria fluxo genético natural, que é a única forma de recompor variedade sem intervenção artificial.
O caso oferece uma lição de conservação que vale para qualquer espécie ameaçada. Impedir a queda inicial é sempre mais seguro e mais barato do que reconstruir uma população a partir de poucos sobreviventes, porque números podem ser recuperados em décadas e diversidade genética, não.
O que fica dessa história
Cem animais em um único refúgio protegido por um rei caçador, um parque nacional criado em 1922, 25 exemplares transferidos dos quais só seis se reproduziram e 50 mil descendentes espalhados pelos Alpes com genomas empobrecidos. A recuperação do íbex-dos-Alpes é um dos maiores sucessos de conservação já registrados e, ao mesmo tempo, um alerta sobre o que a contagem populacional não mostra.
E você, o que acha desse caso? Uma espécie com 50 mil indivíduos e diversidade genética baixíssima está mesmo salva, ou o problema apenas mudou de forma? Faz sentido investir em corredores ecológicos caros para conectar populações que já são numerosas, ou o dinheiro deveria ir para espécies em situação pior? E mais: você conhece algum caso brasileiro parecido, de bicho que voltou em número mas continua vulnerável? Comente sua opinião, principalmente se você é da área de biologia, veterinária ou manejo de fauna e lida com esse tipo de decisão.
Tags
animais
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Bruno Teles.

