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Um ministro em exercício deixou a Áustria em 1933, cruzou o Atlântico com 82 pessoas e fundou no meio de Santa Catarina uma vila que até hoje fala dialeto tirolês e entalhou o crucifixo da Catedral de Brasília
Escrito por Bruno Teles
Publicado em 07/08/2026 às 13:54
Atualizado em 07/08/2026 às 13:59
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A vila de Treze Tílias, no meio oeste catarinense, nasceu de um projeto assinado por Andreas Thaler, ministro da Agricultura da Áustria, que se mudou para o planalto a 796 metros de altitude em outubro de 1933. A tradição de entalhe em madeira trazida pelos colonos nunca parou.
A maioria das colônias europeias no Brasil começou pelo movimento de famílias atrás de terra barata. A vila de Treze Tílias, no meio oeste de Santa Catarina, começou por outro caminho: um projeto assinado por um ministro em exercício, que atravessou o Atlântico junto com os colonos e escolheu pessoalmente um planalto parecido com os Alpes, conforme reportagem publicada pela redação de O Antagonista em 7 de agosto de 2026.
A colonização teve início em 13 de outubro de 1933, quando Andreas Thaler, então ministro da Agricultura da Áustria, mudou-se para a região trazendo outros 82 imigrantes austríacos, de acordo com o Portal Municipal de Turismo de Treze Tílias, citado na mesma reportagem. O que veio depois não virou apenas fachada bonita para foto: o entalhe em madeira, a pintura camponesa e o dialeto falado pelos mais velhos seguem em uso.
O gabinete que virou colônia no meio oeste catarinense
A Europa entre guerras estava em crise, e a saída encontrada por Thaler não foi enviar uma comitiva nem financiar uma agência de emigração à distância. Ele próprio embarcou. O detalhe muda a natureza da história: quem assinou o projeto foi a mesma pessoa que desceu do navio e pisou no planalto catarinense com os colonos.
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O local escolhido tinha semelhança com a paisagem alpina, e a altitude ajuda a explicar isso. A vila ficou a 796 metros acima do nível do mar, num relevo de serra que oferece frio de verdade no inverno e vales que amanhecem com neblina. Não foi um ponto sorteado no mapa, foi uma escolha feita com critério de paisagem e de clima.
O nome saiu de um livro, não da geografia
Thaler batizou a colônia de Dreizehnlínden. A referência é à tília, árvore de flor branca abundante na Áustria, e a origem do nome está na literatura, não em nenhum acidente geográfico da região. A tradução para o português acabou se consolidando e virou o nome oficial do município: Treze Tílias.
É um caso raro de topônimo brasileiro nascido de uma escolha cultural deliberada. Muitas cidades do Sul carregam nomes de rios, de santos padroeiros ou de fundadores. Aqui o nome chegou pronto da Áustria, dentro da bagagem simbólica dos colonos. Batizar o lugar assim funcionou como declaração de origem antes mesmo de a primeira casa ficar pronta.
A madeira que veio na bagagem e chegou até Brasília
Os tiroleses desembarcaram com uma técnica, e ela pegou. A tradição de trabalho em madeira trazida pelos imigrantes continua viva na vila e produziu peças de alcance nacional, entre elas o Crucifixo da Catedral de Brasília, segundo o Portal Municipal de Turismo de Treze Tílias. Uma peça central da arquitetura religiosa da capital federal saiu das mãos de artesãos formados nessa escola alpina no interior catarinense.
O ofício não ficou trancado em vitrine de museu. Famílias inteiras se especializaram em arte sacra e decorativa entalhada à mão, e as oficinas seguem abertas ao público no centro, onde o visitante acompanha o desbaste sendo feito na hora. Junto com a escultura, sobreviveu outra técnica alpina: a Bauernmalerei, pintura camponesa de flores e arabescos aplicada em móveis, portas e objetos de madeira. São duas tradições que continuaram funcionando como trabalho, não como demonstração folclórica.
Onde a arquitetura alpina aparece na rotina da cidade
Telhados íngremes, sacadas entalhadas e floreiras nas janelas não foram montados como cenografia para turista. É o padrão construtivo que os colonos repetiram desde os anos 1930 e que se manteve nas construções seguintes. O visitante encontra isso concentrado em alguns pontos específicos.
A Praça Ministro Andreas Thaler ocupa o centro da cidade, com chafariz em cascata, monumento ao fundador e a prefeitura em estilo tirolês ao redor. O Museu Municipal Andreas Thaler, conhecido como Castelinho, funciona na antiga casa do fundador, projetada pelo arquiteto Bruno Kracher, e reúne objetos, ferramentas e ambientes que reconstroem a vida na colônia. O Parque Lindendorf tem 45 mil metros quadrados de área verde, com lago, animais e a Minicidade, réplica em escala reduzida das principais construções locais. A sete quilômetros do centro fica o Lago Schaupenlehner, com restaurante, pedalinhos e canoagem entre morros. Os ateliês de escultura estão espalhados pela área central, vendem peças entalhadas e permitem acompanhar o trabalho dos artesãos.
O calendário tem um marco fixo. A Tirolerfest acontece em outubro, com música, trajes típicos e gastronomia austríaca, e organiza boa parte do movimento anual da cidade.
O que esperar do clima a 796 metros de altitude
O município tem clima de planalto do sul do país, com chuva bem distribuída ao longo de todos os meses e amplitude grande entre verão e inverno. As médias mensais de chuva citadas pela reportagem têm base na climatologia do Climatempo.
De dezembro a março, o termômetro oscila entre 16 e 27 graus, e são os meses mais chuvosos, com médias perto de 200 milímetros. Abril e maio trazem queda de temperatura, entre 12 e 22 graus, e manhãs de neblina nos vales. De junho a agosto, o intervalo cai para 8 a 18 graus, com chuva na casa dos 110 milímetros mensais e risco de geada. De setembro a novembro, a faixa fica entre 13 e 24 graus, com jardins e floreiras no auge. As condições variam de um ano para outro por influência de fenômenos como El Niño e La Niña, então a previsão atualizada continua sendo a referência mais confiável antes de subir a serra.
O que sustentou a vila antes de o turismo existir
A economia local se organizou em torno da agricultura, com destaque para a pecuária leiteira e a indústria de laticínios. Foi essa base produtiva que ancorou a comunidade no lugar e permitiu que a colônia sobrevivesse às décadas seguintes à fundação. Sem uma atividade econômica que fixasse as famílias, nenhuma tradição cultural teria durado noventa anos.
É a mesma lógica de fixação que moldou outras cidades de colonização europeia no Sul, com uma diferença de origem: aqui a matriz é austríaca, e não italiana ou alemã. Isso ajuda a explicar o traço que separa Treze Tílias de destinos com arquitetura europeia montada depois. A madeira entalhada, a pintura camponesa, a banda de música e o dialeto dos mais velhos não foram recuperados décadas depois para atrair visitantes: nunca chegaram a parar. A continuidade é o argumento, não a reconstituição.
Vale registrar o limite dessa leitura. A reportagem de O Antagonista não traz número de artesãos em atividade, quantos moradores ainda dominam o dialeto nem dados sobre a participação do turismo na economia municipal. A continuidade cultural aparece descrita, mas sem medição.
E você, já esteve em alguma cidade assim?
Treze Tílias levanta uma pergunta que vale para vários destinos brasileiros de herança europeia: o que torna um lugar autêntico é a arquitetura preservada, ou é o fato de as pessoas ainda praticarem o ofício e falarem a língua no dia a dia?
Conta nos comentários: você já visitou uma vila de colonização europeia no Brasil que pareceu genuína, ou teve a sensação de estar andando por um cenário montado para turista? E se pudesse escolher, iria a Treze Tílias no inverno, para pegar o frio de serra que aproxima a paisagem dos Alpes, ou em outubro, durante a Tirolerfest?
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Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Bruno Teles.

